por Patrícia Marcondes de Barros
A poética da travessia
Há artistas que não pertencem apenas a história da música, mas a uma ideia de juventude, não como faixa etária, mas como um estado de invenção. Salomão Borges Filho, mais conhecido como Lô Borges, é um deles. Quando a sua voz entrou em circulação no início da década de 1970, ela trouxe consigo algo raro: a delicadeza em forma de ruptura. Em um país atravessado pela repressão militar, pela censura e por projetos grandiloquentes de modernização, Lô Borges cantou a vida cotidiana, os afetos, o deslocamento e o sonho como quem desenha mapas secretos de sobrevivência e reinvenção. Diferentemente da rebeldia urbana do eixo Rio–São Paulo, sua poética profundamente ligada ao universo mineiro do Clube da Esquina operava em outra frequência: a da contemplação, da delicadeza e do silêncio carregado de som.
No interior desse coletivo musical, suas melodias moviam-se com uma liberdade que escapava às estruturas convencionais da canção popular brasileira. As letras, como poemas em constante trânsito, não conduzem o ouvinte a um ponto de chegada definido; ao contrário, convidam à deriva, à escuta atenta e à habitação sensível de cada verso. Trata-se de uma criação que recusa o enfrentamento direto e ruidoso ao sistema, optando pela invenção de zonas autônomas de sensibilidade, onde a experiência vivida, o afeto e a amizade se tornam gestos políticos.
Essa sensação de liberdade e descoberta me remete, de certa forma, ao poeta norte-americano Walt Whitman, especialmente em Canto da estrada aberta.
A pé e de coração leve,
eu enveredo pela estrada aberta.
Saudável, livre, o mundo à minha frente,
à minha mente o longo atalho pardo
levando-me onde quer que eu queira.
(Whitman, Leaves of grass, tradução de Geir Campos, 1983, p.73).
Em sua poesia, a estrada não é apenas um espaço físico, mas um modo de estar no mundo: disponível ao encontro e aberto ao acaso. De maneira análoga, Lô canta uma liberdade que não se afirma como discurso explícito, mas se constrói na atenção ao cotidiano e na valorização do movimento como forma de existência. No contexto da ditadura civil-militar brasileira, em que o espaço público era vigiado e a palavra cerceada, essa poética assume um caráter profundamente político ao afirmar outras temporalidades, paisagens e formas de convivência.
Assim como em Whitman, o caminho importa mais que o destino. As canções de Lô operam como mapas sensíveis, não para orientar, mas para acompanhar, reafirmando a possibilidade de caminhar sem rotas fixas, de confiar no percurso e de reinventar-se no encontro com o outro.
Lô parece cantar o movimento da vida em estado de liberdade em Trem Azul (1972), composição sua em parceria com Ronaldo Bastos, metáfora de uma existência em permanente deslocamento. Guiada pelo “sol na cabeça”, imagem que ilumina janelas e estradas, essa poética afirma a vida como travessia sensível, lançada ao mundo no álbum Clube da Esquina (1972), onde seguir adiante é, antes de tudo, um gesto de confiança no próprio caminho.
Coisas que a gente se esquece de dizer
Frases que o vento vem às vezes me lembrar
Coisas que ficaram muito tempo por dizer
Na canção do vento não se cansam de voar
Você pega o trem azul, o sol na cabeça
O sol pega o trem azul, você na cabeça
O sol na cabeça
A letra de Trem Azul, composta quando Lô Borges ainda era muito jovem, nasceu inspirada em uma viagem de Ronaldo Bastos entre Amsterdã e Paris, realizada a bordo de um trem azul, imagem que se transformaria em metáfora central da canção. A música foi dedicada a Tom Jobim, o “maestro soberano”, mas sua origem permanece envolta em múltiplas camadas de sentido. Em diferentes entrevistas, Ronaldo Bastos atribuiu significações diversas à inspiração da letra, reforçando seu caráter aberto e imaginativo.

Lô Borges também costumava relatar, com humor, que até a torcida organizada do Cruzeiro (clube mineiro cuja cor é o azul), acredita que a canção foi feita para eles, adotando o nome Trem Azul e brincando com a polissemia da palavra “trem” no vocabulário mineiro. Ao longo dos anos, a música foi interpretada por artistas como Milton Nascimento, Elis Regina e o próprio Tom Jobim, que chegou a gravá-la em inglês, sob o título Blue Train, ampliando ainda mais sua circulação e permanência no imaginário musical brasileiro.
A urgência de liberdade, encontrou no Clube da Esquina um refúgio poético e uma linguagem de invenção, transformando o silêncio da época em som, introspecção em resistência, criando uma música que era, ao mesmo tempo, sonho e abrigo. As harmonias suaves, os arranjos complexos e o lirismo das letras revelam um grupo que soube transformar a quietude das montanhas mineiras em voz de uma geração que misturou Beatles, jazz, bossa nova e religiosidade interiorana em um mesmo sopro criativo.

O Clube da Esquina: Milton Nascimento, Beto Guedes, Lô Borges, Toninho Horta, Wagner Tiso, Márcio Borges, Tavito e Tavinho Moura. Créditos: divulgação.
Borges, com seu jeito simples, tímido e introspectivo, foi talvez a expressão mais pura dessa síntese entre o local e o universal, entre o silêncio e a vertigem.
Em canções como: Um Girassol da Cor do Seu Cabelo, Nuvem Cigana, Aos Barões, Para Lennon e McCartney há sempre o tema da partida, do deslocamento e da memória. Canta o instante como quem fotografa uma emoção, tentando guardar no som aquilo que o tempo ameaça levar. Em Um Girassol da Cor do Seu Cabelo (1972), por exemplo, o verso “Você vem? Ou será que é tarde demais? traz a busca pelo imponderável da existência: o desejo de reter o que escapa.
Vento solar e estrelas do mar
A terra azul da cor do seu vestido
Vento solar e estrelas do mar
Você ainda quer morar comigo
Se eu cantar, não chore não
É só poesia
Eu só preciso ter você
Por mais um dia
Ainda gosto de dançar
Bom dia
Como vai você?
Sol, girassol, verde, vento solar
Você ainda quer morar comigo
Vento solar e estrelas do mar
Um girassol da cor de seu cabelo
Se eu morrer, não chore não
É só a lua
É seu vestido cor de maravilha nua
Ainda moro nesta mesma rua
Como vai você?
Você vem?
Ou será que é tarde demais?
O meu pensamento tem a cor de seu vestido
Ou um girassol que tem a cor de seu cabelo?
O meu pensamento tem a cor de seu vestido
Ou um girassol que tem a cor de seu cabelo?
O meu pensamento tem a cor de seu vestido
Ou um girassol que tem a cor de seu cabelo?
Já em Para Lennon e McCartney (1970), composta por Lô Borges, Márcio Borges e Fernando Brant e cantada por Milton Nascimento, traduz o sentimento de uma juventude que sonhava com o mundo, mas cantava a partir do Brasil:
Por que vocês não sabem do lixo ocidental?
Não precisam mais temer
Não precisam da solidão
Todo dia é dia de viver
Por que você não verá meu lado ocidental?
Não precisa medo não
Não precisa da timidez
Todo dia é dia de viver
Eu sou da América do Sul
Eu sei, vocês não vão saber
Mas agora sou cowboy
Sou do ouro, eu sou vocês
Sou do mundo, sou Minas Gerais
Por que vocês não sabem do lixo ocidental?
Não precisam mais temer
Não precisam da solidão
Todo dia é dia de viver
Eu sou da América do Sul
Eu sei, vocês não vão saber
Mas agora sou cowboy
Sou do ouro, eu sou vocês
Sou do mundo, sou Minas Gerais
É uma letra que expressa pertencimento e distância, diálogo e contestação, atravessada pelo pensamento contracultural da época. Em algumas entrevistas, Lô Borges sinaliza abertamente a influência do rock, especialmente, dos Beatles, do pop e da psicodelia em sua música, como muitos de sua geração. Em Nuvem Cigana (1972), sua voz se dissolve em imagem, sonho, revelando o imaginário e o sentimento de parte da juventude envolta nas ideias de contracultura:
Se você quiser eu danço com você no pó da estrada
Pó, poeira, ventania
Se você soltar o pé na estrada, pó, poeira
Eu danço com você o que você dançar
Se você deixar o Sol bater nos seus cabelos verdes
Sol, sereno, ouro e prata
Sai e vem comigo, Sol, semente, madrugada
Eu vivo em qualquer parte do seu coração
Segundo Ronaldo Bastos que compôs a letra junto com Lô a música tinha uma ideia de tentar juntar o estético com o existencial:
“Era ao mesmo tempo algo poético, político e que trazia uma informação muito claro do que estávamos vivendo. Essa ideia de circular onde era possível, levar uma vida estradeira, estar em movimento, que era uma oposição radical à ditadura. E tentar construir um tipo de mito em cima disso tudo” (BASTOS, 2007, p.68).[i]

O diálogo entre as artes, especialmente entre música e poesia na contracultura brasileira dos anos 1970 estende-se a uma ética de vida e criação marcada pela informalidade e pela recusa às formas institucionais. Nesse contexto, a música “Nuvem Cigana”, torna-se emblemática chegando a inspirar diretamente o coletivo poético homônimo surgido no Rio de Janeiro. A escolha do nome não se deu como simples homenagem, mas como filiação estética e política: a “nuvem” como signo da impermanência e do movimento, e o “cigano” como figura do deslocamento e da marginalidade criativa.
Como analisa Sheyla Diniz na obra “De tudo que a gente sonhou”: amigos e canções do Clube da Esquina, o movimento construiu uma experiência comunitária que ultrapassou os limites da canção, afirmando um verdadeiro projeto de vida baseado na escuta, na sensibilidade e na convivência. Sua importante pesquisa evidencia o caráter coletivo e experimental do grupo, que fazia das ruas, das casas e das esquinas um laboratório contínuo de criação cultural.
O som como memória
Quando ouço Lô Borges, sinto-me atravessada por uma melancolia luminosa que habita suas melodias, uma ternura capaz de guardar os segredos de uma geração. É como se cada canção trouxesse consigo o som do vento, as conversas de madrugada, o riso dos amigos que, com violões nas mãos, imaginavam o futuro. Um retrato sensível de um tempo que acreditava na potência da arte como forma de liberdade. Como lembra Márcio Borges, “os sonhos não envelhecem”.
O trem azul, esse trem doido da imaginação e da travessia, continua passando. Leva consigo sonhos, utopias e o brilho da geração do Clube da Esquina, eternizados na memória musical de Lô Borges e na escuta de quem ainda se permite seguir viagem e sonhar.
Patrícia Marcondes de Barros é professora e pesquisadora, doutora em História (UNESP) e em Estudos Literários (UEL), com interesse nas relações entre música, poesia, produção independente e culturas alternativas no Brasil.
[i] Depoimento dado a Sérgio Cohn no livro: Nuvem Cigana: Poesia & Delírio no Rio dos anos 70.
ALGUMAS REFERÊNCIAS DE LIVROS
BORGES, Márcio. Os sonhos não envelhecem: histórias do Clube da Esquina. São Paulo: Geração Editorial, 2011.
DINIZ, Sheyla Castro. “…De tudo que a gente sonhou”: amigos e canções do Clube da Esquina. São Paulo: Intermeios, FAPESP, 2017.
COHN, Sérgio (org.). Nuvem Cigana: poesia e delírio no Rio dos anos 70. Rio de Janeiro: Beco do Azougue, 2007.
WHITMAN, Walt. Leaves of grass/Folhas da relva. Tradução de Geir Campos; introdução de Paulo Leminski. São Paulo, Brasiliense, 1983.
Documentário
Lô Borges – Toda Essa Água (2023), dirigido por Rodrigo de Oliveira e co-dirigido por Vânia Catani
Disponibilizado por Makely Ka em https://www.youtube.com/watch?v=x5EDvqlVea8


