DISQUE-AMOR

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Deborah R. Cordeiro

Às duas da manhã, chorava invertida na cama com os pés em cima do travesseiro. A angústia se pôs a vazar. Caiam lágrimas represadas dos cantos dos olhos até as curvas dos cachos. Uma gota se desviou, caindo no ouvido. Levantei da cama interrompendo a aflição que saía e entrava pelos buracos da minha cabeça.

Pisei na lajota com os pés nus. Peguei a chave do carro e o cigarro. A bolsa. Calcei minha sandália de borracha que escorrega dos pés, mas naquele momento, ao entrar no carro e ligar o motor, a chinela se prendeu suave no calcanhar. Acelerou. Fui comprar um Méqui.

A fila era longa, assim como a minha ansiedade por doce. Penteando os cabelos com as mãos de frente para o retrovisor, recordei-me do sopão da igreja e da fila de amigos que fiz em frente aos hospitais públicos da cidade. Não dava para esperar atrás daquele comboio de carros importados crentes que poderiam matar a fome e a solidão com comida de plástico, pensei.

Quis fugir pegando o canteiro lateral e sem conseguir, fiquei presa ao lado da ranger, que obviamente não me deu passagem. Esperei meu lugar voltar — na frente do preto, atrás do cinza. Gentilmente, me deixaram retornar ao meu lugar miserável, indo até o caixa.

— Bom dia, qual o seu pedido?
— Não vou pedir.
— Como, senhora? Não entendi…
— Não vou pedir nada não, só quero sair daqui.

Esperei até o carro cinza pegar sua sacola marrom lotada de comida fútil que eu, quase arrependida, pediria, caso não estivesse obcecada em adoçar minha boca com alguma coisa que ninguém mais estivesse interessado. Uma comida rápida para emoções lentas, privadas.

Saí da fila.

O carro velho me levava tão galopante que começou a engasgar. Cansou? Pulou três vezes.
Embreagem, constatei formigando quente. Morri no sinal verde.

Os pensamentos de outrora fugiram envergonhados. Uma dezena de outros — reais e pragmáticos — me invadiram: meu carro não tinha licença há dois anos, além disso, havia tirado o carro apreendido no pátio do departamento de trânsito da prefeitura no dia anterior. Era madrugada. Eu estava de pijama. Pelo que mesmo chorava na cama?

Levei o carro no último suspiro que deu até à beira da estrada, ligando o pisca alerta. Corri com passos curtos para o outro lado da avenida. Sentei-me no bar aberto, pedi uma coca-zero.

Disquei: o senhor é meu pastor guinchos, enquanto bebia em desespero.

Um milk shake deveria valer menos de quinze reais e àquela altura estava custando a minha dignidade. Rezava para não ser pega pelo guarda de trânsito noturno, enquanto ouvia meu namorado numa ligação amarga. O que é que você tem na cabeça, amor?

Passou pelos meus olhos em câmera lenta. Corri novamente para o outro lado da avenida: aquiiii, aquiii. Freou. Estou aqui atrás, senhor! Ligou-me. Oi. Cadê? Cadê você? Cheguei. Oi. Tá aonde? Tá do lado de lá? Oi? Oi? Desliguei impaciente. Passei a berrar em vez de gritar. Em seguida, calei-me. O silêncio fez o motorista virar o pescoço pela primeira vez, trazendo o queixo para cima do ombro. Seu Cesinha girou a cabeça tão suave que me arrancou um sorriso. Deu a ré e fez um retorno proibido. Demorei?

Baixinho e negro, sem cabelo. Pediu para eu subir na ponte móvel, me erguendo com o carro até em cima, me ajudou a descer. Um alívio me desceu a pressão, despregando a chinela da sola do pé no momento que entrei na boleia do caminhão. Eu estava feliz? Seu Cesinha levou mais um tempo para amarrar. Não quis me deter naquela cena, estava feliz no meio da rua, em cima de um guincho. Às três e meia.

Fomos a 20km por hora, como num cortejo fúnebre. Respira! Felicidade! Lembrei. Cesinha pendulou o corpo para um lado e para o outro, depois ligou o rádio. Gosta de reggae, Maria? Comecei a cantar por baixo do assobio dele. Não era felicidade. Era paz. Me chamava de Maria
sem o “dona” na frente. Não quis saber o porquê, nem do carro, nem do pijama. Sorri. O vento gelado soprava na cara, o reggae marcava o contrabaixo, Cesinha se embalava enquanto me rebocava vestida com um pijama do Snoopy.

Desci do carro, triste. Queria andar a noite toda na boleia regueira.

É certo que estava pagando duzentos reais pelo resgate. Mas o preço foi mais que justo. Me lembraria por muitos anos daquela sensação. Ser amada assim, tão devagar, levada no silêncio da noite.

Carregada até em casa.

Deborah R. Cordeiro, nascida em São Luís, é mãe, professora, poeta e contista. Publicou dois livros de Poesia, Histérica (2023) e Puérpera (2024). Autora de contos publicados em revistas nacionais e internacionais, como Duas Cadeiras de Balanço (Ruído Manifesto, 2025) e Medio Milímetro (Katmesa, 2025). Atua como formadora em oficina de escrita.

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