Denise Lira: a psicanálise entre o amor e o ódio

| |

Denise Lira Bertoche é psicóloga, psicanalista de orientação lacaniana e pesquisadora. Mestre em Psicanálise, Saúde e Sociedade pela Universidade Veiga de Almeida (RJ) e especialista em Psicanálise e Saúde Mental pelo SEPAI, atua na área clínica e acadêmica. Professora convidada do Instituto Haus Berggasse (SP). Pesquisa os afetos fundantes da constituição subjetiva, com ênfase nas incidências do amor e do ódio, e seus desdobramentos no aspecto subjetivo e cultural.

Como você pavimentou sua estrada para chegar à Psicanálise?

A minha inquietação. Desde muito cedo, me impactavam os afetos que não cabiam em palavras, as violências silenciadas. Assim que iniciei a graduação em Psicologia já estava à procura da psicanálise, foi neste momento que dei início à minha análise pessoal também, em 2013/2014. Daí se deu a minha pesquisa sobre o amor, e em seguida a pesquisa sobre o ódio. Foi com a leitura de Freud e de Lacan, que encontrei uma clínica que não se pauta em adaptar ou normalizar o sujeito, mas de escutar o seu sofrimento, a sua singularidade e o seu desejo. Diria ainda que a escolha pela Psicanálise foi também um (re)conhecimento de algo íntimo que já estava em mim que pude encontrar na ética da psicanálise.

Que diálogos você faz com a Psicologia para instrumentalizar sua prática na Psicanálise?

Penso que entre as duas práticas há intersecções fecundas, por exemplo, as duas oferecem a escuta para o tratamento do sofrimento humano, além de situar a sua ética como pautada nos direitos humanos. Mas possuem métodos e teorias próprias. Um exemplo da divergência entre as duas práxis, é que o conhecimento psicológico sobre o desenvolvimento infantil se distingue radicalmente da leitura psicanalítica, visto que a psicanálise entende o desenvolvimento não de forma cronológica, nem orientada às aquisições desenvolvimentistas. Para a psicanálise o sujeito não se desenvolve, ele se constitui a partir da tessitura singular de cada um.

Não considero que a psicologia instrumentalize a minha prática, ela formaliza o meu trabalho enquanto profissão, e, bem com à psicanálise, assegura a minha posição ético-política na defesa dos direitos humanos de modo inegociável. No entanto é através da abordagem psicanalítica que me oriento para escutar meus pacientes, os impactos das violências, a saúde mental, o laço social. Ela me ensina a sustentar o não saber e orientar a minha escuta para aquilo que surge de forma latente. Freud nos ensina que a clínica é quem ensina, alicerça a teoria e não o contrário.

Que contribuições Lacan trouxe para os estudos psicanalíticos, tomando Freud como referencial?

Lacan não substitui Freud, acho que a grande contribuição lacaniana é ter lido bem Freud. E nos fez um convite a sermos fieis ao legado do pai da psicanálise. Por exemplo, a teoria do significante já estava em Freud, Lacan colocou uma lupa sobre.

Além de atuar na clínica, você tem se dedicado a pesquisas sobre o amor e o ódio, bem como a constituição psíquica do Sujeito. Queria saber mais sobre como tais sentimentos são trabalhados por ti do ponto de vista conceitual e qual sua compreensão do mundo cada vez mais tragado pela lógica da performance da imagem atravessada pelas redes sociais. Como esses dois afetos podem ser analisados no auge do processo de consolidação do capitalismo de vigilância?

Tanto o amor quanto o ódio são afetos estruturantes, para a psicanálise, fundam a subjetividade, a realidade psíquica, como tratei na minha dissertação de mestrado que recebeu o título de Estudos Metapsicológicos do ódio. Neste trabalho propus percorrer o que a metapsicologia freudiana diz sobre o ódio. E ele nos disse que o ódio é anterior ao amor; ele marca o primeiro gesto de recusa do que é estranho, do que causa desprazer. Podemos ver isso tanto na vida cotidiana como na cultura. O ódio é dirigido/empregado contra a diferença que sentimos como ameaçadora, no entanto ele, assim como o amor, parte do próprio sujeito, é tanto afetação que sentimos no corpo, quanto o que forja a representação deste afeto na psique. E podem passar a ser endereçados para o outro, no caso do ódio pode comparecer sob a forma do racismo, homofobia, misoginia, Lgbtqia+fobia, machismo, ou para si mesmo como no caso da tirania do supereu e nos estados melancólicos. É na relação com o objeto que o sujeito aprende a odiar, amar, desejar. Em minha pesquisa, observei o ódio como uma valência que tanto pode destruir como também fundar o laço, o ódio também age através da negação, da recusa, por isso o ódio não precisa ser declarado para existir. Já o amor, visa preservar as semelhanças, tornar unidades cada vez maiores, pois surge o seu prolongamento no vazio. Acho que por isso o amor, como diz a intelectual negra Bell Hooks, e também Jacques Lacan dizem: o amor requer ser declamado, noutros termos, aquele que ama visa ser amado.

Freud irá dizer que o movimento da vida é impossível com um só, visto que na sua concepção o ódio é anterior ao amor, é necessário odiar para amar, da mesma forma que só com o ódio a vida não resistiria. É necessário um movimento dos dois, tanto para o surgimento quanto para o prolongamento da vida, para Freud, o predomínio de um sobre o outro pode resultar em adoecimento. Penso que observar o amor e o ódio nesses aspectos nos ajuda observar a ter uma leitura crítica sobre os modos contemporâneos de se estabelecer laços, a lógica da performance e o capitalismo de vigilância, os algorítmos.

Quando deu início aos seus atendimentos psicanalíticos? Que faixa etária geralmente frequenta seu divã e o que você nos dizer sobre os aprendizados que está lhe somando como Analista?

Comecei a atender no estágio em 2017 atendendo crianças, jovens, adultos e idosos. O que a clínica mais me ensina é que cada sujeito é único no mundo. E acho que duas frases traduzem esse ensinamento vindo da clínica, uma de Lacan, que diz:  “cada um alcança a verdade que é capaz de suportar”, a outra de Freud ao falar que “pode-se dizer que a cura, psicanalítica é essencialmente efetuada pelo amor”.

Que trabalho está desenvolvendo no Instituto Haus Berggasse (SP)?

No Instituto Haus Berggasse, atuo como professora convidada. Recebi este convite e aceitei facilmente, porque veio de um instituto que é comprometido com a ética da psicanálise, bem como com a formação do analista, sustentado pelo tripé psicanalítico (análise pessoal, estudos teóricos e supervisão clínica). Neste ano, em outubro, vou dar um módulo sobre a obra de 1900 de Freud: A interpretação dos sonhos. Quando recebi este convite a primeira coisa que pensei e respondi, dar aula sobre Freud? Uma das coisas que mais brilham os meus olhos!

Falando especificamente do Ódio, enquanto tema de pesquisa explorada na sua dissertação “Estudos Metapsicológicos do Ódio”, defendida na Universidade Veiga de Almeida (RJ), como a leitura que Freud realizou pode nos auxiliar a entender sua dimensão no contexto contemporâneo marcado pela banalização da morte, nossas guerras televisionadas e a potencialização dos discursos de ódio que alimentam a corrosão da democracia?

Freud nos ensina que o ódio é constitutivo, não um erro de caráter. É força primária, que funda o eu pela exclusão do outro, ou seja, o ódio é uma potência que tanto pode estar à serviço da vida (Eros) como a serviço da pulsão de morte. Ao pensarmos a pulsão de morte, Freud nos mostra que há algo no sujeito que deseja destruir, por fim ao que perturba o estado de quietude, uma tendência de retorno ao inorgânico. A pulsão de morte, assim como a pulsão de vida, para Freud, condiz com a própria natureza da vida. Isso nos ajuda a pensar como o ser humano consegue levar a pulsão de morte às últimas consequências, tanto em direção a si como em direção ao outro. A leitura freudiana nos lembra que a civilização só se sustenta pelo recalque, pela renúncia pulsional, ou seja, não dá para fazer tudo o que se quer, sem levar o outro em consideração. Quando essa renúncia entra em colapso, vemos a corrosão da democracia, o retorno do bárbaro. Escutar o ódio é, hoje, mais urgente do que silenciá-lo. É preciso ler seus endereçamentos, suas causas, seus destinos possíveis, inclusive o ódio que escapa ao pacto civilizatório.

2 comentários em “Denise Lira: a psicanálise entre o amor e o ódio”

Deixe um comentário para Maria Cancelar resposta

error

Gostando da leitura? :) Compartilhe!