6 Poemas de Marithelma Costa (Porto Rico, 1955)

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Curadoria e tradução de Floriano Martins

Marithelma Costa nasceu em San Juan, Porto Rico, em 1955 e, após residir vários anos em Madri, em 1978 se estabeleceu na cidade de Nova York, onde concluiu seus estudos e se dedicou ao magistério. É autora dos livros de poesia Diario oiraiD (OLLANTAY Press, 1997), De tierra y de agua (Instituto de Cultura Puertorriqueña, 1988), De Al’vión (Lautaro Editorial Iberoamericana, 1987), Biekesí e Días de jazmín (inéditos). Também publicou os romances Era el fin del mundo (Editorial Plaza Mayor, 1999) e La bendición de Rosalía (Editorial LaCriba, 2024). Tem em seu currículo os livros de entrevistas Enrique Laguerre. Uma conversa de 2000 e As duas faces da escrita. Conversas com M. Benedetti, M. Corti, U. Eco, et al. (1988) e Kaligrafiando Conversas com Clemente Soto Vélez (1990) – onde atua como coautora –, além de meia dúzia de livros sobre literatura espanhola e porto-riquenha. Também se destacou por suas crônicas sobre o Occupy Wall Street, a travessia de canoa do ambientalista porto-riquenho Tito Kayak da Venezuela a Porto Rico e as experiências do coletivo internacional Bordados por la Paz. Participou de festivais de poesia e encontros literários na Venezuela, Espanha, México, Porto Rico e Estados Unidos. Também foi convidada para o 25º aniversário da Revista Vigía de Matanzas. Seus poemas e contos aparecem em revistas e antologias de Cuba, Canadá, Venezuela, Espanha, Porto Rico e Estados Unidos. Participou do Lit Disk. A spoken words video disk installation (Nova York) e, pouco depois, Vitalina Alfonso a entrevistou para Ellas hablan de la Isla (Havana). Recentemente, Juana M. Ramos a incluiu em EntreTmas Revista Digital. Conheçamos nossas autoras; sua biografia, preparada por Lizette Cabrera Salcedo, aparece na Enciclopedia PR; Rosa Vanessa Otero a apresentou em seu programa Alapoesía sob o título “Una viajera en su jardín” (Uma viajante em seu jardim). Por fim, sua voz e performances podem ser encontradas na Fonoteca de Poesía e no YouTube.


PRIMAVERA FEBRIL

Um pássaro cinza, minúsculo, foge pela janela sem que eu consiga detê-lo.
Marina Abramovic, aquela que montou no cavalo da antiga Sérvia,
reaparece feliz.
Ela não tem mais seu estúdio no Village,
não fala mais inglês,
e alguém fechou a porta da minha casa,
cobrindo-a diagonalmente com tiras amarelas de plástico.

A manhã nasce no lugar que foi do amor
e hoje conjuga perguntas em espiral e respostas como estiletes.
Amor ao qual me agarro.
Don Luis, que não queria ser nem don nem conde
me convida a empreender uma longa viagem.
José Olivio, que também partiu há algum tempo
me empurra.

A rosa vermelha do Paseo de la Castellana
está comigo.
Eu a cortei antes que os jardineiros a podassem,
antes que a descartassem
por causa dos ácaros, dos pulgões,
da primavera febril demais.

O vidro do zoolito de Buenache, que talvez fosse de Huete,
1200 metros acima do nível do mar, agora a 900
serve-me de bússola.
Suas sinuosidades, suas estrias
fornecem-me o mapa.

Dias de luz tamizada pelas dúvidas.
Dias de aromas insistentes
flor de tomilho, lembrança de orégano.
Dias de desejo que se expande e se instala
entre andorinhas.


MADRID ANOS 70

A Federico Ruibal

Madrid era
um bastião em uma guerra
perdida há muito tempo.
Às vezes a polícia chegava
e levava os amigos.

Naquela época havia pouca água
os cinzas dominavam
mas em cada ponto cardeal
se alinhava um sol minúsculo
um céu minúsculo
embora o céu mal se visse.

Os domingos de verão
eram dias de piscina,
de frango com alho, de urracas voando,
dias de consolo com Consuelo.

Hoje é outra cidade,
outros nós que brincam sob este céu,
as crianças correm junto ao rio
e nós, os mais velhos, começamos a perceber
como o tempo flui como areia,
uma ampulheta silenciosa,
água entre os dedos,
mas água, afinal.


A SÓFORA JAPONESA OU ÁRVORE DAS PAGODAS

A Anne Gradvohl
Na casa de María, Paris 5
Maison

Cada árvore conta sua história
em seus múltiplos galhos e folhas,
nos nós de seu tronco retorcido.

Ela a repete sob o salto da pomba citadina
e o chamado duplo, triplo do corvo.
Ela a canta quando o vento uiva, o vento que a balança.

A acácia do Jardin des Plantes guarda em seu centro
o segredo de sua semente primigenia.
Aquela que se formou nas terras do imperador
e germinou nas que pertenciam ao rei.

Rebelde e críptica: levou três décadas para florescer,
três décadas para se adaptar à terra
desta nova terra.

A árvore dos pagodes guarda aquela semente
justamente onde é acariciada pelas minhocas e pelos insetos.
Onde pousam as patas aladas do pardal
e lutam dragões e serpentes.


O VIOLINO CHINÊS

No meio do caminho, uma manhã de música de erhu
tempo e espaço convergem.

O primeiro diminui,
quão curto é o agora,
quão pouco nos resta.

No meio do caminho, o espaço
essa outra sensação que tende o corpo
essa outra fórmula que entra pelos poros.

A suavidade do ar ao tocar a pele
a forma peculiar que as sombras adquirem na parede
o azul do céu
às vezes cobalto, outras apenas poluto
o aroma do jasmim
o do alecrim no ramo fresco
o ponto onde coincidem as notas do violino chinês
e as pétalas da orquídea.

As pedras são pedras
e como pedras se prolongam no tempo:
seu espaço de cantos rolados
ou em ângulo reto
constitui seu limite.

Como a pedra sente?
Como a carícia da luz, como o crepúsculo?
Será que percebe a brisa matinal, o cheiro da carne em decomposição
a textura do sangue coagulado,
o frio da lama,
o contato com a outra pedra?
Será que sente as pegadas do pardal
ou a velocidade do seu voo quando a criança a prende na funda
e a lança ao precipício?

No meio do caminho,
uma certeza,
apenas o espaço que nos rodeia,
apenas o momento pleno,
nosso presente.


PERITO MORENO

Através da febre,
depois de deixar os coatis,
você encontra os guanacos.
Eles esperam por você, quase extintos,
no ponto onde a Patagônia
se encolhe.

Uma águia pousa ao lado da estrada
carregando nas garras um gambá,
Inés os descreve.

Você se levanta, tenta tirar a foto
mas o motorista fecha a porta,
é preciso continuar subindo a montanha.

Você se senta, liga o motor
e na primeira volta do virabrequim
a águia levanta voo
e roça seu coração vermelho.

Ao chegar ao Lago Argentino,
os icebergs te recebem,
o glaciar te abriga.
Você para em frente a ele na passarela,
de todos, ele é o único que não diminui.
O frio aumenta, mas você só quer ficar ali,
se tornar uma estátua sólida,
ser uma pedra que espera
que ele chegue,
que te toque.

A carícia do gelo é sempre apoteótica.

Mas o tempo está contado nesta viagem,
você corre contra o relógio.
Você se ajoelha, calor, amor.
Você se entrega ao encontro.

Imutável,
o aguate reconhece,
se quebra em estrondo
e cai em picada dentro de você.


MILHO PARA PIPOCA

O rastro do corpo de Jessica Dworkin,
a mulher do skate,
ainda está desenhado no asfalto em frente à minha casa.
É longo e reto.
De largura, talvez meça trinta centímetros.

Foi gravado na pedra negra
por seu corpo branco
no final de agosto.

Nela ainda estão presentes os humores
que brotaram de Houston
até o norte de Minetta,
onde ela expirou.

Ela foi arrastada como arrastaram
Héctor ao redor de Tróia.

Em Houston, com a Sexta, um carro bateu em seu skate.
Ela caiu sob o caminhão de reboque:
4 eixos de pneus novos da marca Goodyear.
Ele vinha de Trenton, Nova Jersey.
Ela, da rua Thompson, número 128.

Ele a arrastou enquanto ela pedia socorro.
Minha vizinha Linda, com seu cachorrinho na bolsa, ouviu os gritos.
Só vi seus braços, suas pernas, sua cabeça.
—Chamem a polícia.
Um boneco prestes a perder a corda.

O caminhão parou.
Corri do jardim para a avenida
para recolher seus pertences.
Uma sandália pequena.
Uma mochila Sportsack preta xadrez.
A bolsa metálica de tiras entrelaçadas
que protegia seu iPhone.
Uma bateria solta.
Um emaranhado de fios quebrados.
O aparelho de música que ela ouvia
no momento do impacto.

Coloquei tudo no caminhão de reboque.
Depois percebi que embaixo
estava o que restava do corpo de Jessica.
A área estava ficando cheia
de caminhões de bombeiros, carros de polícia.
Nenhuma ambulância.

Continuei procurando.
Encontrei outra bolsa.
Dentro, algo sólido,
talvez um caderno, um nome,
uma moeda de dez centavos no fundo.

Meus vizinhos, tomados pelo terror,
não me deixaram ver o conteúdo.
Eles me escoltaram,
para que eu entregasse imediatamente
às autoridades.

Eles isolaram a área.
Os trovões vinham do oeste.
Logo a chuva apagaria
o último passeio de Jessica
pelo Greenwich Village.

A tempestade chegou
e eles retiraram o cordão policial.
Voltei sob o aguaceiro.
Algo ficou na rua,
sob as torrentes de água.
Um saquinho aberto.
Escolhi quatro ou cinco grãos gordurosos.
Joguei-os no jardim em seu nome.
Lavei as mãos no jato
que saía debaixo do portão de ferro.

Jessica levava na bolsa
milho para pipoca.

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