4 Poemas de Marcelo Torres

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Marcelo Torres publicou Vertigem de Telhados (poemas, 2015) e nadar em cima da rua (poemas, 2015), editados pela Kazuá, Páthos de fecundação e silêncio (poemas, 2017) e Poemas tímidos e gelatinosos (poemas, 2019), editados pela Patuá. Sua obra mais recente é o livro Saindo sem avisar/Voltando sem saber de onde (poemas, 2020) editado pela Córrego. Nasceu em Pernambuco na cidade de Palmares no mês de março de 1984.

Os quatro poemas são do livro inédito: Tu és isto e mais dez mil coisas que será publicado no último trimestre desse ano, pela editora Córrego.


Se você só respira
está fodido,
não seja somente
essa morte política
de agora,
abdicar é o que
esperam,
peço um piano
ao oriente
onde o andar
é a fonte,
bebida
de raízes fortes,
vomito animais
na noite,
volto para casa
vejo rendas
nos gatos,
ouvindo onomatopeias/singradas
no mar
de suas pernas,
no seu coração bondoso
finco
um mandacaru,
porque se abristes
a mim
que regresso
para sua ilha
de coqueiros
e
grama escura,
me arredo
nas suas axilas
que são ostras,
vi o melhor
de si
na eloquência
de seu gesto
que lambo
como um sapo

***

Tudo se tornou livro
ou melancolia
nessa insensível
manhã,
jogo uma carta
para o ar
que queima
minha infância
de volumes
pérvios
onde versos
assolam a construção
de meus ossos
como um conto/prosa
em uma fazenda,
páginas,
letras tatuadas
nas costas
da morte,
amores/sacanagens,
trejeitos
de quintais,
onde deitado
na rede sacolejo
lendo mais uma obra
levantando
hipóteses
sobre a miséria
de amigos
que caminham sós
sobre os viadutos
tentando arrumar
qualquer trabalho
para poderem escrever
ou comer
:
que para eles
são a mesma coisa

***

                 Lagartos/caveira aquietemos tua destreza selvagem pra quê?
                                   Edição de suas fragmentações, não és tu essa fantasia, sabemos quem és
em meio a uma jornada de casos entremeados naquilo que ninguém notas além de ti,
esse teu modo de retirar os copos da pia como se fossem animais cativos
para serem ensaboados enquanto a água enxagua tuas dores.
                A serenidade da casa que não desaba, jamais tu deixarias isso ocorrer
                                nem se chegasse aos nossos pés um terremoto em grande escala.
              Calo-me na rede para tecer uma ideia que me motiva,
tu plantas ao lado uma rosa; gostarias de ser roseira; tu és uma gameleira suspensa.

***

                  Noite/baixa tu dormindo és única e não és, são duas dimensões em tua
respiração
                                de olhos vedados na madrugada de fome, nas ruas o inverno.
                  Disseste-me antes de deitar: de não aceitar a tarefa pesada
do dia seguinte; serei uma lâmina objetiva apostando no teu desejo.
                  Quando foste menina pequena não gostavas de disputas
                                    na brevidade de brincar, sabe agora do trajeto rasteiro dos gatos,
não queres perder as garras, mesmo em sono profundo, tu continuas comunicando-se.
Tento acessar neste corpo em descanso uma frase, um traço nômade do destino.

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