5 Poemas de Maíra Mateus de Vasconcelos

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Maíra Mateus de Vasconcelos nasceu em Belo Horizonte, onde estudou jornalismo. Há anos, mora em Buenos Aires. Escreve matérias sobre política argentina para o jornal GGN, também cobriu algumas eleições presidenciais na América Latina. Dá aulas online de português para estrangeiros.  É autora dos livros Um quarto que fala (Urutau, 2018), Alguma ideias para filmes de terror (7Letras, 2022), e da plaquete O livro dos outros – poemas dedicados à leitura (Oficios Terrestres, 2021).

>> Seleta de poemas do livro Cenas de suspense para dias alegres (Scriptum, 2025)


*
abriu a porta de casa
tentou entrar
mas foi impedida
estavam ali de sentinela
suas próprias lembranças
brilhavam balançavam giravam
como em um enorme parque de diversões
mas não havia ninguém na bilheteria


*
para reconhecer a sede de viver
para ver e saber
é esta a água que me serve
antes quase provei um afogamento
que agora em verso
resta como ensinamento:
para viver
é preciso ter boa respiração


*
minhas luzes são também
as luzes do apartamento ao lado
das vizinhas casas de imigrantes
são também as luzes
dos edifícios comerciais
do microcentro portenho
minhas luzes
são também do arranha-céu
da avenida 9 de Julho
e são ainda mais as outras luzes
apagadas ou tão discretas
pelas quais é necessário perguntar
todos os dias onde estão


*
às vezes
escuto bateristas de jazz
por horas a fio
parece que vivo uma apoteose

e isso significa apenas
que minha imaginação
me traz sérios problemas


*
essa blusa foi da minha avó
naquele Domingo de Páscoa
esse casaco minha tia
usou no meu aniversário de oito anos
essa calça meu avô trouxe na mala
quando voltou da Segunda Guerra
mas por que tanto buscamos
esses rastros impossíveis me pergunto
ao sair dessa loja de antiguidades

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