Monica Toledo Silva, artista e pesquisadora das imagens do corpo no cinema, na dança e na literatura. Investigo narrativas e noções de deslocamento, presença e pertencimento. Cuido da rede Entremares, centrada em artistas migrantes pelo mundo, e do selo editorial Bloop, dedicado a arte, ciência e filosofia. Organizei os livros Performances da memória e Dramaturgias do real (Impressões de Minas) e publiquei dois em poesia (Sobre avencas, ervas daninhas e flores do mato, pela mesma editora, e Celofane azul, pela Rizoma (2a edição esgotada). Sou membro do grupo de pesquisa em Estudos Orientais na PUC SP, onde fiz mestrado e doutorado em Semiótica, antes dos pós doutorados na UFMG, UNICAMP e USP. Nasci na Bahia, cresci em Minas e vivo em São Paulo.
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a bailarina sem vontade num prédio com janelas de vidro de frente pro elevado. forçar o corpo, domesticar no tempo, disciplinar a vontade até comer só uma fatia de pizza quando quer três. controlar o sentimento de fracasso quando sem apoio sem saber que brilha. cobrir a cabeça abrir o peito afogar-se sacudir-se cortar a respiração. sufocar-se. projetar-se no muro e nunca no outro. onde mora o abrigo, vai saber.
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a casa de escada bem alta, comprida, cômodos atravessados sem corredor como antigamente era, a farinha amarela que ela vendia torrada e crocante cor de ouro nos potes de vidro que a primogênita pintava pra ajudar nas contas. mas das irmãs nunca cobrava. presenteava quando vinham visitar. a caçula ainda criança já atravessava um cruzamento movimentado da avenida amazonas sozinha e eu pensava como pode. a eterna gratidão quando uma irmã com um bom salário ajudava um tanto e levava merenda pro sobrinho quando professora dele e o menino não tinha o que comer no recreio. como disfarçar as fomes.
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muitos anos depois num almoço de domingo num restaurante a quilo os quatro, o irmão criança, se sentaram com os pratos, prontos pra comer. de repente ela não segurou o choro. imperceptível no começo, talvez como tantas vezes que segurou pra não ter de se explicar. deixou muitas lágrimas correrem ali até os soluços. doeu muito ver tanta impotência mas assim mesmo viram o vulcão que habitava nela. não sabiam o que fazer e abraçando sua tristeza por respeito começaram a comer. nunca soube o que foi naquele dia mas sabia que era coisa muito funda e velha que de vez em quando vinha como pra dizer… que… muita dor é sem palavra.
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pão quente quentinho toda manhã em ritual sagrado. uma grande varanda muito aberta pra rua pra um casal que nunca foi de se expor. a incongruência de sair em bando pra praia quando tudo que ele queria era sossego e dormir à tarde, no frescor do quarto impossivelmente isolado na casa com cinco ou dez crianças a mil. mesmo assim, na cadeira de balanço amarela, o peito quente, grande, peludo e seguro pra sempre ali é a melhor lembrança da infância.
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quando aprendi a andar de moto pela primeira vez soube que fácil que era morrer: apenas virar o guidão pro lado contrário na curva. sim simples assim. mas o barulho do motor, pequeno entre as pernas, os braços abertos no freio, os pés nas velocidades, o acento vibrante, a vida voando a paisagem voando, tão frágil, como pode. caí de verde numa trilha, de amadora numa areia, e a moto foi vendida. tive pouca coragem.
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