6 Poemas de Maria Eduarda Castro

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Maria Eduarda Castro nasceu em 1986, em Teresópolis. É formada em cinema e tem mestrado e doutorado em filosofia pela PUC-Rio. Esse inseto, publicado recentemente pela 7Letras, é seu primeiro livro de poemas


Esse inseto

Esse inseto voa como uma máquina um pouco quebrada
para a esquerda e mais à esquerda
não vai em frente

lembra os pés do soldado que, na neve,
tinha uma bota com salto e uma sem

não se impressione, eles estão soldando os generais
de volta a seus pedestais.

em domingos quietos
passagens esquecidas,
o corpo do centro até as extremidades,
tenso como
uma prancha,
olhos pinçados, arco histérico,
se lembre disso

dessa máquina meio quebrada
voltando,
e desses hábitos
irregulares de sono.

a garçonete sente o cheiro de longe
de hospital francês
do século XX.

esse inseto descolorido,
o branco e o vermelho do galo português
previram um tempo bom

aquele grupo vai
conseguir atravessar a rua?
as cadeiras com um pé na água
outro na terra, fazem um ruído

ela arrumava a casa, mas a mão não chegava
até as coisas.
a corda não ficava suspensa,
a geladeira se mexia,
o fogo não acendia,
fazia o barulho elétrico

braços longos, pernas curtas –
quando caía ria
como uma boba,
os irmãos riam,
apostadores de cavalos

aquele inseto tinha quase um nome,
se movia contra um fundo preto,
algo arranhando,
angústia da superfície,
quem irá sair daquela calçada
sob a marquise?

o espelho, de dentro
um peixe enrugado olha para nós

as águas não têm forma, sombras
agigantadas de uma asa
– aqui há uma seta, ela aponta –
falavam –
não têm, não têm forma,
iriam para o fundo
com o sal quente,
com as pedras deslizando,
mas poderiam se soldar
em um boné
de militar sobre um cavalo


***

Em grandes jardins industriais
algo já estava dado ou não?
as flores fazem uma dobra e se parecem com papel.
poderiam se dobrar mais
ou se desdobrar,
planas novamente e
conduzidas ao passado.
Escrevemos na parte de trás do carro,
e não tocamos nada com os olhos,
que se negam a qualquer
escapada para essas regiões.
Tudo tem um cheiro semelhante.
O céu é um pano de fundo
onde telhados se encontram,
El Greco, Kafka e você irão pegá-lo
em seus pedaços
e agora em nossas paredes.
você assentaria ali
em seu processo de produção,
no enorme trabalho
das desconstruções
ancestrais em movimento,
nas ruas de paralelepípedo,
você precisa encontrar um lugar para habitar,
a sua casa irá explodir nas especulações da bolsa,
e você pensa em um recado de W. sobre salvar o amanhã.


Fragmento:

(…)
enquanto milicianos habitam o seu coração, o corpo tenta alguma matéria
o mutismo: não conseguir chegar até o corpo.
eu ainda estava falando em “vagalhões da mudez” e
um mosquito sob o ventilador lentamente em ar de seita como um soviet
aponta para contextos novos.
do outro lado,
as orientações:
− não use essa escada sobre o plano inclinado − você irá se partir
você irá partir
− oh, não me deixe partir.
− você irá ficar nesse sofá amassado.
nada será manejável,
como as cebolas sobre a carne, como uma pergunta,
como os ares gelados do inverno
batendo contra o braço,
como esperar um pouco antes de sair pela porta que está sempre
aberta para você


13 anos

se você fosse a sua janela
ela me jogaria para trás


Quanta metafísica há em não ser si mesmo?

esse cenário
não suficiente próximo ou pacífico,
nas ruas
daqui,
forma de um círculo de giz,
interrompe – antigos sinais –
canteiros
fechados, impossível transpassar
damos a volta
em uma manhã violeta
a luz sobre as
páginas
molhadas no jornal


***

O tempo nesse guarda-chuva molhado
e já estamos no tempo antiestratégico,
de muitas de nossas
direções. Tímidas – e sem ardor.

Você corta uma fruta devagar,
em suas 14 peças,

tome cuidado com essas digressões,
nós escutamos.

E também: tome cuidado com a boca
de chama tripla do fogão que um dia
já queimou o seu dedo

essa voz escapa de um salão de livro
onde há uma bela mulher
guardando a moral dos magistrados,
pedindo
um novo tempo cadenciado,
vazio de espírito,
reto
e a plenos pulmões.

colamos o rosto
nesse lugar sem memória
– pensamos: fazer o quê?

alguém na cadeira com rodinhas
tem os pés pousados,
e seu nariz não pode respirar esse ar. Faça essa anotação,
para saber.

as frutas são quase
natalinas,
maçãs escuras no chão bastante pisado,
alguém dá um sermão de final de ano,
na rua,
uma roleta e as pernas

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