6 Poemas de Rogério Newton

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Rogério Newton nasceu em Oeiras (PI). Publicou dez livros, sendo dois de poesia. Ajudou a fundar (e a afundar) a revista Pulsar, na década de 1990, em Teresina. Foi cronista da revista Revestrés, enquanto esta existiu, por dez anos. Em Oeiras, editou o jornal O Beco, em xerox e mimeógrafo. Atualmente faz o jornal O Barro. No prelo, seu terceiro livro de poesia: Dez Poemas Desesperados Sobre o Riacho Mocha.


***

Habita em mim um ser exangue
Tomado de labaredas que ardem

Se te falei dele algum dia
Não passa de uma ideia errônea

Labaredas nunca existiram
A não ser estas palavras
Que te queimam e não sentes

Ó carvoeiro do mel,
Torra tudo em brasa

Depois virão as cinzas
Para te dizer

Espalha-as por toda parte
Não sem antes cobrir o rosto

Com pasta úmida da tua saliva
Farás uma máscara das cinzas
E em lúcido sono curarás as miragens

E quando acordares o fogo te espera
Para te iluminar em carne viva


***

Estão construindo um edifício
Nas barbas do meu quintal
arranhar o céu é a ordem
povoá-lo de nuvens sólidas

dos apartamentos a solidão
de poeira escuros desvãos
operários gritam
amarga massa seu pão

O ferro fere o edifício
de ruínas atônitas
disforme entre pedras
E cacos de vida

Da criança o brinquedo
Do bêbado o andar trôpego
Ergue-se o edifício
Sobre restos destruídos


***

Procuro teus olhos na escuridão
E não te encontro a meu lado
Embora saiba que estiveste velando

Lavo o rosto na água fria
Para cantar teu nome
Pois ao amor não resistes
E nele confio

Teus olhos compridos espiam as madressilvas
Os mesmos olhos negros dentro da noite

O sol dissipa as chamas
As pupilas recolhem o que sobrou da escuridão
Com a qual fazes uma canção de amanhecer


***

preparo afiada lança
atinjo certeiro alvo
no centro do coração

volta-se contra mim a ponta
numa acrobacia temida
fico por dias ferido

até que sare por inteiro
acaricio a dor
levanto-me para outras lutas

prepara-se a noite para dormir
carrego para os sonhos a lança
do lado esquerdo de mim


***

Vejo edifícios muito próximos aos outros
Parece que se abraçam para não cair
Peças de encaixar de uma criança

Atrás dos edifícios nuvens deslizam
Às vezes ficam imóveis como os arranha-céus
E as fotografias

Impossível que não sintam
O cheiro de sargaços
O amor que arranha céus e terras
E se desfaz em abraços

Edifícios humanos contraditam
A versão dos deuses
Na orla desnuda


***

Não acredito em palavra da minha boca
Dita ou silenciada
Não acredito em mim mesmo
Nos atos das minhas mãos
Na correria dos pés
No galope do coração

A partir de hoje sou tambor
De alguém que corra seus dedos sobre mim
Ou bata com força até escorrer vinho e sangue
E derramar estrelas

Com o coro cru que me envolve
A partir de hoje sou pele
De acordar quem dorme

1 comentário em “6 Poemas de Rogério Newton”

  1. Se tivesse que escolher para o meu caderno de cabeceira, o primeiro e o último dessa leva, estariam de pronto, os que citaria de cor e coração! Imagino o que vem de bom nesse próximo livro!
    Sempre os dardos certeiros contra o esquecimento do pequeno e antigo mundo!
    Parabéns a Acrobata pelo brilho reluzente da tua poesia!

    Responder

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