De que tempo se está falando?

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Por Luiz Renato Souza Pinto

O medo de nunca mais voltar a escrever o atingirá quando se sentir não apenas perdido, mas incapaz de encontrar algumas migalhas que possam identificar o caminho que estava seguindo, ou quando estiver no limite da falta de energia e fé.
(Lamott, 2011, p. 168)

Ler Maria Fernanda Maglio não é privilégio algum, explico: é direito; o mais explícito direito, assegurado não pela Constituição Federal, ou pelas leis do mercado, mas pela leitura atenta e delicada de Antônio Cândido de Melo e Souza. A autora, premiada em verso e prosa pelas publicações anteriores, vive o seu melhor momento no que diz respeito à penetração na bolha literária que engole e vitimiza inúmeros autores e autoras da maior competência. Todavia, há que se ressaltar o grau de compromisso com a escrita, sem deixar de lado sua atuação profissional.

O nome da obra reúne quatro palavras de distintas classes gramaticais, a título de entronizar o leitor em um universo bastante particular da narrativa. “Mataram o borracheiro Salu” (p. 7). Salu é nascido em Vila Bela da Santíssima Trindade, primeira capital do estado de Mato Grosso e berço de uma ancestralidade vigorosa.

A primeira palavra é o advérbio de lugar (lá) – que me reporta ao clássico poema de Gonçalves Dias, A Canção do exílio.  A segunda é o verbo de ligação (é) – que traz certa assertividade ao discurso subjacente. Depois o artigo definido masculino singular (o) que tipifica o óbvio – a dimensão temporal. Por último, “tempo”; a força de uma categoria de análise narrativa estampada na capa do volume que tem uma conversa de pé de orelha com a campeoníssima Mariana Salomão Carrara.

São dezoito capítulos, cinco dos quais intitulados “O escritor” que funcionam, a meu ver, como elementos metalinguísticos catalizadores da atenção do leitor ao que está sendo apresentado. Outros quatro tingem de descrições e relembranças de depoentes acerca de algum aspecto criminal. Sempre é bom lembrar, ainda que não tenha necessariamente relação com a escrita, que a autora atua há algum tempo na Defensoria Pública do estado de São Paulo, daí certa intimidade com as temáticas de exceção à liberdade vigiada em que vivemos.

Seis dos capítulos são iniciados pelo artigo definido que aparece no título (o), procedimento que talvez contribua para a afirmação da crítica (especializada) de que a escrita pós-moderna busca falsear o elemento ficcional de uma suposta verdade. Elementos de uma realidade hostil povoam as cento e cinquenta e cinco páginas do livro. “E o pai do Tião (que continua eufórico, em espanto nem pesar) é alguma coisa entre segurança e bandido, dizem que tem até desmanche” (p. 7). Curioso ver como o título se desdobra em dois capítulos (Lá / é o tempo), o que pode passar despercebido de leitores menos atentos, ao mesmo tempo que sugere um fio condutor do discurso.

Gosto dos procedimentos barrocos tais como a semeadura e recolho, que vêm da poesia barroca e que funcionam como elos de uma corrente infindável de pequenas peças nessa engrenagem cronotópica que nos leva à investigação do texto. “Você parou totalmente de cheirar cocaína, o último tiro foi naquela noite, você desengatilhou a armadilha da cabeça e apagou todos os textos pretensamente literários que estavam salvos no seu laptop” (p. 15).

Em texto de contracapa, o escritor brasileiro contemporâneo que mais me assombra afirma que “No instante em que leio este romance de Maria Fernanda Maglio, ela é a melhor escritora da literatura brasileira. Não, da literatura universal. Como todo om romance, Lá é o tempo é uma bomba-relógio, construído com instrumentos de precisão e uma língua brasileira como há muito não se lia” (Terron, 2026, s/p).

A inteligência de Maria Fernanda nos aplica pequenos golpes de lâmina afiada no que diz respeito às camadas semânticas que o texto sugere. Há certas recompensas para pequenas decifrações ou bisbilhotices literárias. Espécie de presentes de grego que influenciam a cognição humana. “Ele sente que não tá mais na cabana de pedras, no meio da floresta coberta de neve. Ele está preso num lugar vivo e gigante, o interior de um animal enorme” (p. 39).

A literatura não precisa mesmo servir para nada. Mas ainda assim o faz. É típico da racionalidade desrespeitar as invencionices. Mas é de bom tom subvertê-las também, sempre que possível. E este livro o faz. “O menino tinha razão, quando ele apontou o dedo pra própria cabeça, ele tinha toda razão. Tá tudo aqui” (p. 45). Mas isso tudo não se dá aqui, no plano teórico das tentativas de escrutínio, e sim, lá – sim, lá, onde as coisas acontecem. “Pega a lanterna de volta e sobe os sete degraus. Direciona a lanterna para o canto esquerdo, o facho de luz revela a pequena palavra que está no teto e que não faz sentido algum: Lá” (p. 53).

Salu, o borracheiro assassinado, tinha trinta e três anos de idade. Conforme se lê no capítulo Um beijo silencioso e úmido: “Salustiano da Silva Romero, estrela: 29/01/1962, cruz: 10/05/1995” (p. 145).  Os capítulos intitulados O escritor são direcionados ao leitor (narrador de segunda pessoa) possibilitam certo mergulho no universo criativo do profissional da escrita.”

Você terá sede às três e quarenta e cinco da madrugada e vai beber água da torneira se lembrando do gato pregado na árvore. E vai pensar se ele ainda continua vivo, agonizando um último miado, ou se morreu para sempre, que nem um jesus morto que não ressuscita mais (p. 60).

A bala dum-dum, o som do coração tum tum e alguns paralelismos sintáticos e semânticos contribuem para sustentar a narrativa. “É preciso distinguir entre a onomatopeia, que é a imitação de sons, universal recurso linguístico, e a imagem acústica de clima poético, que conduz à estesia” (Ramos, 2011, p. 43). É isso, escrever é parte do problema de estar vivo. É querer distribuir sorrisos, lágrimas, situações de incômodo quaisquer. Encerro com a eterna lembrança de Julio Cortázar, mestre da ficção e da teoria, acerca do papel do romance na humanidade:

O romance enfoca os problemas de sempre com uma intenção nova e especial: conhecer e apoderar-se do comportamento psicológico humano, e narrar isso, exatamente isso, em vez das consequências fatuais de tal comportamento (Cortázar, 2008, p. 65)

REFERÊNCIAS

CORTÁZAR, Julio. Situação do romance. In: Valise de cronópio. 2º ed. São Paulo: Perspectiva, 2008.

LAMOTT, Anne. Bloqueio de escritor. In: Palavra por palavra. Rio de Janeiro: Sextante, 2011.

MAGLIO, Maria Fernanda Elias. Lá é o tempo. São Paulo: Todavia, 2026.

RAMOS, Maria Luiza. O estrato Fônico. In: Fenomenologia da obra literária. 4º ed. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2011.

TERRON, Joca Reiners. In: Lá é o tempo. São Paulo: Todavia, 2026.

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Luiz Renato Souza Pinto, professor do IFMT, campus Cuiabá, desde 2011. Autor de Matrinchã do Teles Pires, Flor do Ingá, Xibio e Era ele o Sabonete, romances.  Estudioso da literatura brasileira contemporânea, sobretudo de autoria feminina. 

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