Latíbulos – Jennifer Trajano

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Por Carlos André

            Vem de Jão Pessoa o livro ritual proposto pela jovem poeta. Jovem, sim, mas vale frisar: poeta, no sentido que considero o mais importante: pessoa dedicada a pesquisa da poesia.

            Há uma diferença latente entre poetas deste tipo e pessoas que apenas escrevem poemas. Diferença que, inevitavelmente, se evidencia em seus próprios textos.

            Trajano escreve porque pesquisa. E pra início de uma resenha sobre poesia brasileira contemporânea isto já diz muita coisa.

            Voltando ao ritual, o livro, dividido em quatro “ritos”, integra o leitor a uma visão de literatura como liturgia da experiência, na qual ele mesmo é indispensável.

            As palavras vão assim singrando a experiência da autora sacralizando-a pela sua transformação em poética e sua entrega a quem lê.

            É de sua própria experiência que Trajano mais parece falar, sem, no entanto apelar pra nenhum lirismo fácil ou fugir de temáticas exteriores e universais que lhe atravessam.

            Lirismo. Mas, difícil, dorido e bem escrito. Lirismo que interessa a quem se interessa pelo que surge de pungente em nossa poesia.

            Um dos desafios escolhidos pelos líricos é esta oferta da própria subjetividade ao risco da leitura.

            É o que Jennifer faz desde o título do livro. “Latíbulo”, palavra um tanto incomum, significa, como ela mesma revelou em entrevista recente ao Canal Clóe de Poesia, quer dizer algo como “lugar escondido”.

            Estão ali, nos latíbulos compartilhados da autora, a contingência cruel de ser pobre no país mais desigual do planeta, a reverência ao trabalho como educadora neste mesmo lugar, a gratidão filial, o embate religioso (abrilhantado por certa erudição eclética), a força devastadora do próprio sexo, de ser mulher.

            É no extravasamento erótico que a poeta parece levar o lirismo e a pesquisa a suas maiores ousadias. Não pelo erotismo em si, claro. Mas pela perícia em pesquisa-lo (digo aqui, mais uma vez) enquanto poesia. Em colocá-lo a altura de todos os outros temas que alicerçam na mesma medida o livro todo.

            Trajano figura com outras autoras, dentro e fora da Paraíba, uma inegável onda de autoria feminina que avança seus encantamentos, mais que bem-vindos, sobre nossas letras.

            Poesia brasileira de agora.

            Pronta pra buscar o melhor de si mesma.


Carlos André, pesquisador e professor de literatura é de Diadema, periferia da Grande São Paulo. Poeta, autor de mínima lâmina, é também compositor musical, arte-educador literário e idealizador e apresentador do Canal Clóe de Poesia.

A paraibana Jennifer Trajano (1996) é mestranda em Letras (literatura) pela Universidade Federal da Paraíba. É professora, revisora textual e autora do livro de poemas “Latíbulos” (Editora Escaleras, 2019).

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