Ponto Crítico da Noite / Posfácio por Adelaide Ivánova

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Esse posfácio é um aprofundamento das coisas que queria ter dito pra Sabrinna no zap, quando terminei de ler o livro dela e mandei a seguinte mensagem:

“Mulher finalmente consegui ler teu livro, amei, é uma poesia mto elegante mas
também mto incisiva, e adorei a virada temática da segunda parte.
Parabéns!
Mando um posfáciozinho até sexta-feira tá
Beijosssss”

“Tem um poema de Adília Lopes chamado Eclesiastes, que eu adoro, que ela diz assim: Tempo de foder/ tempo de não foder/ saber gerir os tempos. Me lembrei dele quando li teu taxidermia, não somente pela temática semelhante, mas também pela tua habilidade de gerir o tempo do poema (e do livro, como um todo). A gente precisa saber exatamente quando é preciso falar de si e quando é preciso falar do mundo, saber quando mudar de assunto, saber quando insistir. Claro que essas instâncias não se separaram assim, como num corte de estilete – somos o que somos nesse mundo, e não em outro, onde todos esses aspectos se misturam! – mas tive a sensação forte que tu sabia gerir os tempos da tua escrita muito bem, obrigada.

Não sei se Adília faz parte do teu cânon particular, se quer sei se tu gosta dela ou não, mas sei lá, achei que tinha aí um diálogo. Reconheço ainda outras poetas vibrando, por meio da tua voz – as que tu mesma cita, tipo Ana C., Angélica Freitas, Bruna Mitrano, Carolina Maria de Jesus, Hilda Hilst; mas outras não citadas diretamente, mas talvez seja eu que as carregue comigo em qualquer coisa que eu leia hahaha. Ainda assim, apesar de ver onde há referência à tua ancestralidade poética, nesse teu primeiro livro (!) já mora uma coisa que é muito tua, quero dizer, algo que paga seus tributos às vozes que te antecederam, mas sem dever nada a elas. Me intriga, por exemplo, a forma como tu consegue misturar perversidade e delicadeza, num entendimento já bem maduro do jogo poético (que é bastante perigoso, e aqui volto à Adília). Dá pra sentir teu domínio sobre teu ofício, e isso sempre é bonito de ver. A forma como tu consegue navegar emas tão diversos – loló, suicídio, o Piauí, violência, herpes, direito à cidade, a boyzinha, migração interna, ressaca, feminismo, o cânone e a necrofilia literária – faz com que ponto crítico da noite seja um presente, mesmo, uma delícia-difícil de ler, elegante e incisivo, como já te falei antes; triste e divertido; sexy sem ser vulgar e vulgar sem ser sexy haha. E bicha, a senhora colocou um teste de marcar X num poema. Eu nunca vi isso na minha vida, achei maravilhoso, vá se fuder <3.

Por fim, Sabrinna, uma coisa que pensei muito, enquanto te lia, que queria compartilhar contigo. Vou tentar organizar os pensamentos, espero que não saia esculhambado. É o seguinte: num país onde 85% das pessoas vivem em cidades, não é de se admirar que a absoluta maioria dos nossos produtos culturais tenham, como pano-de-fundo, paisagens urbanas, né? Ainda que eu ache que precisamos replanejar as cidades, acima de tudo precisamos repensar esse projeto de sociedade atual, que faz com que sejamos forçados a nos aglomerar em cidades insalubres, nos estapeando pra sobreviver nelas, com recursos escassos e mal distribuídos. Mas mesmo nesse contexto tão arrombado, eu gosto de ver como os espaços urbanos aparecem no teu livro, porque tu consegue criar um cenário amplificado, preciso mas inexato, que tem mais a ver com o conceito de contratopografia, da geógrafa Cindi Katz (aliás, que nome maravilhoso, né?), do que com fronteiras oficiais. Esse é um aspecto que eu ADORO; fico tão feliz de imaginar tu ajudando a descongelar, numa perspectiva sapatão e feminista, a ideia de Nordeste que habita o imaginário coletivo do Brasil não-nordestino. Que bom, Sabrinna, que bom que tu escrevesse esse livro!”


Adelaide Ivánova, julho de 2020.

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