Glória Sofia (Cabo Verde, 1985). Poeta. Autora de cinco livros, distinguida com o Prémio Unión Mundial de Poetas por la Paz Y la Libertad (UMPPL). Além de poeta, ela é formada em Engenharia e Gestão do Ambiente. Atualmente reside na Holanda, de onde nos escreveu enviando seus poemas. A autora também tem marcado presença no Festival Internacional de Poesia, evento que já a levou até à Roménia (2016), Turquia (2017) e Macedônia/Albânia (2018). Nascida na cidade da Praia, “no dia dedicado ao amor e aos enamorados”, Glória conta que é fascinada pela escrita desde a infância.
MÃOS
As minhas mãos são espinhos
São pétalas da azorina com lascas
De cristais
As minhas mãos são reinos renegados
Pelo orgulho de mãe, fervem a pintura
Debaixo da pele
As minhas mãos incrêem em sangue
O líquido
Que me calcina as artérias
E amortece o som da união
As minhas mãos renunciam a sepultura dos irmãos
São as mãos que desejam
Que o seu cadáver apodrece
No sepulcro dos forasteiros
Esses estranhos que não
Resgatam a injustiça
As minhas mãos atulhadas com os anjos
Partidas sem conserto
Ainda queres as minhas mãos?!
NOSSO AMOR
As nuvens amontanham-se no azul, embranquecidas
As águas petrificam-se nos horizontes, enlouquecidas
As flores do arco-íris crescem nas almas, esquecidas
E o nosso amor é entregue às angústias enriquecidas
SOU MALDITA
Fui uma bebé presa nas entranhas
Entranhas com paredes de orgulho
Sonhando com o depois das montanhas
Fui a criança presa num sorriso
Um sorriso monstruoso de ilusão
Amando com mágoa a sua prisão
Fui uma adolescente presa pelos sonhos
Sonhos triturados pelos teus pés risonhos
Vivendo idolatrada pelo delírio da entrega
Fui uma mãe presa pela melancolia
De gerar crianças mortas de nostalgia
E parir monstros de palavras
TRISTE, MAIS TRISTE
É triste, uma carne teimosa
Um osso comungado
Oferecidos os dias ingratos
É triste, as chatices do brinco
Que consome a ardência dos lóbulos
É triste, todas as rotinas penduradas
No relógio da reprodução
É triste, a minha sensação, a decisão
Eu sou o triste, mais triste
PALAVRA ÉS MONSTRO!
As tuas palavras assombraram o meu coração
Cultivaram o ornamento da minha ilusão
Furaram-me os olhos com singeleza
Consumiram todo o brilho da minha beleza
A minha alma repleta de fantasia
Sonhar, amar, amar sonhar e entregar.
Entreguei o meu universo por teimosia
Teimosia em aceitar o destino e aconchegar
Amei um monstro de palavras
Que o meu corpo com o sexo lavras
Deixando os meus sonhos decadentes
Demente a minha vida, o meu juízo
Que mesmo assim recusa esse prejuízo
De te amar mesmo sendo espadas
ROTINA
Inicia-se num frio selvagem
Vibrando a glória, sem coragem
Sacode o riso e o escândalo
Roca a boémia e o amarelo
Começa-se num longo vestido
Enrolado na existência da candura
Num tom de eterno vazio retido
Nos passos do crime, que dura
A rotina escorre entre os dedos
Como o fragmento do cheiro
Que embala o cru negro do oiro
Colecciona-se o amor destruído
Pela poesia estúpida e singela
Vive-se o dia no suor da vela
DEVANEIO
Entre as lágrimas quentes do meu desejo
Rolam as recordações do teu doce beijo
Deixando a dor e a saudade num anseio
E o meu longínquo pensamento em devaneio
POEMAS
Poemas são sons
Que alastram
Pousam nas luzes do universo
Quando cerram os livros
Eles morrem
Que nem um grito
Aprisionado pela voz
Poemas descendem
Do tempo e da nostalgia
Alimentam-se de inspiração
E ficam prenhes de sol a sol
FALA COMIGO AMOR
Que o teu silêncio
Sopra a solidão monstruosa
Do meu pensamento
Fala comigo amor
Tua respiração fala
Mas não o suficiente
Como o vento das tuas palavras
Preciso de uma trovoada
Quiçá um relâmpago
Para queimar o fogo
Dos meus devaneios
Fala comigo amor…
O teu falar espanta
Enredos da minha mente
Fala comigo
Fala comigo meu amor
E nunca, nunca te cales
SANGUE FRIO
É frio e sujo mais está vivo
O cacarejar alimenta-se
Com o rancor de nascer
A raiva cega o barulho
A verdade galopa na sede
As chaves desprezam o sentimento
Os nervos espremem a cor
Morre o sorriso e a lua
Neste ventre de sangue negro