4 Poemas de Louis Scutenaire (Bélgica, 1905-1987)

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Apresentação e tradução de Nicolau Saião* (Portugal, 1946)

Louis Scutenaire foi um poeta anarquista, surrealista e… funcionário público. Nasceu sob o nome Jean Émile Louis Scutenaire em Ollignies, Bélgica, e morreu em Bruxelas. A sua poética – irónica, apaixonada, toda percorrida por imagens insólitas e, simultaneamente, sóbrias na sua sugestiva arquitectura, marcou o ambiente da escrita imaginativa dos Países Baixos. Era casado com a também surrealista Irène Hamoir.


PLUMAS PERDIDAS

Beethoven não ri nunca.

Os seus cabelos, os seus vestuários
são negros e os seus filhos mal amados.
Beethoven, velho de dois séculos
não abandona a minha bigorna
a minha bigorna de simples poeta.

Os seus olhos velados brilham
como a taínha nadando na lama.


A ESCRITURA NA FRONTE

Em certo dia alguém juntou
palmeiras e mais palmeiras
ao redor da cabeça
para fazer um jardim.
E depois colocou o jardim
sobre a testa.

E no dia seguinte as palmeiras tombaram.

Escutem: a morte
chega
rufando como um tambor.


AS ESPUMAS DA INOCÊNCIA

A rainha defende os velhos
a face dos charcos antigos
a chuva de que se forjam os alfinetes bicéfalos

E pela tardinha
derrubou todas as árvores que a oprimiam

O chapéu devora-se docemente
no centro da mesa
e as cidades aprumam-se um pouco

fora da quotidiana aventura.


ENTRE NA PAIXÃO

Pernas nuas muito altas
A loucura da grandeza dos olhos
No fundo da garganta esta pequena voz
Para meias pretas quer se queira quer não
Braços desnudados até ao meio das espáduas e das axilas nuas
Na borda dos seios
A mancha de marfim do vestido para o corpo mais alto ou mais baixo
do que os joelhos e os quadris nus
A saia
Apenas a curva dos joelhos ou os joelhos retos
Dobrados para unir a plenitude das pernas com as coxas alargadas
Na boca, a frescura das coxas e a sua forma
O gosto
O cheiro
As gotas de chuva no casaco e no cabelo
O cabelo
Rugas nos cantos de um lábio destruíram o arrependimento
A curva do sexo da mulher definida pela camisa preta muito clara
Os sapatos extremamente recortados
A saia perfeita além das meias brancas enroladas
A saia
E as pernas nuas muito altas

Esses são os bloqueios do ruído que os olhos vêm fechar.


*Nicolau Saião (Portugal, 1946). Poeta e artista plástico, com atividades ligadas ao Surrealismo desde o princípio, quando participou de várias mostras internacionais de arte postal. Em 1984, juntamente com Mário Cesariny (1923-2006) e Cabral Martins (1950), organizou a exposição “O Fantástico e o Maravilhoso”. Estudioso e tradutor da obra de H. P. Lovecraft, em 2002 organizou a primeira edição integral em todo o mundo de Fungi From Yuggoth (1943), tendo também a ilustrado.

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