Matsi Chatzilazarou (Grécia, 1914-1987) – Série um Século de Surrealismo / Poetas

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Série um Século de Surrealismo – Poetas, 02
Organização, texto e tradução de Floriano Martins

A intensidade erótica da poesia de Matsi Chatzilazarou tem por base a descoberta de um louco amor ao lado do também poeta Andreas Embirikos (1901-1975). Com o espírito ferido por duas baixas afetivas, a morte dos pais e dois casamentos fracassados, Matsi busca um mínimo de equilíbrio na psicanálise, passando a ser tratada justamente por Embirikos. Contrariando a ética das relações entre médico e paciente, o casal mergulha na fortuna de uma amorosa voragem espiritual que acaba resultando em notável experiência poética e erótica. A magia desse encontro descobriu em Matsi uma voz multifacetada, seja pela singularidade de sua poesia, seja pelas experiências com desenhos e fotografias. Sobre sua poesia, escreveu Liana A. Maragou: sua escrita vem como uma torrente, abraçando toda a tensão da paixão, do desejo, do amor carnal que se transforma em um estado sonhador e que se deixa incorporar pelos elementos da natureza e os animais selvagens, a fim de se manifestar com a aspereza de uma natureza impaciente que quer provar tudo. O exílio em Paris lhe permite conhecer sítios e artistas ligados ao Surrealismo, por indicação de Embirikos, de tal modo que as aflições do passado são visceralmente consumidas dando vazão a um acento poético vitalizador, destacando-se em uma tradição lírica, como a grega, das mais vigorosas na Europa. Entre seus livros, se encontram Cinq Fois (1949) e La France des mots (1954). A poesia completa foi reunida após sua morte em Poemas 1944-1985, publicado em 1989. [FM]


[PENSO EM UMA VIDA QUE SERIA PESADA COMO A DE HOJE]

Penso em uma vida que seria pesada como a de hoje,
se acaso faltasses em viagem. Pela manhã imagino
robustos os teus membros – ali de um modo localizo
teus braços. Ao anoitecer vejo teus lábios como
a fruta mordida.
Vem, o dia é tão belo – os poemas que
amo quero vivê-los contigo. Eu podia tantas coisas
converter em alegria e te dar todas elas.
Cada momento eu podia torná-lo música
primitiva, pele suave, quente, eletrizada, que
submerge nesta. Uma dança perfeitamente livre, ao invés
de membros ter asas, e uma vez mais asas de sonho. Ou cheiros
– acaso queres cheiros? Então serão cheiros frescos,
como pequenas cataratas repletas de pequenos coentros – ou como litoral
pela manhã, de onde saem e tomam sol, a alga, o peixe,
o ouriço do mar – e a onda sobre a areia não é séria,
porém joga. Longe, certamente, o mar tem um suave matiz trágico.


[CONTEMPLA O JOVEM ATRÁS DA CORTINA DA SACADA]

Contempla o jovem atrás da cortina da sacada.
Esperavam as rajadas de vento de agosto por entre as velas triangulares.
Uma madressilva subia com suspiros e fragrâncias – até que se entrelaçou na nuvem do crepúsculo.
Tantos bosques ardem,
tantos tímpanos de gelo se derretem,
tantas magnólias nos fazem desmaiar,
tantos campos nos atormentam.
Que sejamos sereias, os peitos descobertos ao sol
– a cabeça deitada para trás, os olhos para o mastro.
O mar é deusa de tudo – e limpa cada dor nossa.


[ESTENDO MEUS BRAÇOS E REÚNO]

Estendo meus braços e reúno,
todos os olhos, e a penas, a rochas, as margens do mar,
as águias, a música de todos os ramos, a espuma de todas as ondas.
Extenso meus braços e reúno,
todos as abróteas que plantei nas rochas, todas
as minhas ânsias, minhas dores – o tsifteteli e o zeimbékiko,
meu lenço cor de carmim e minhas pérolas azuis.
Estendo meus braços e reúno,
todas as minhas natações em Kineta, meu amor com a luz
e os cascalhos, minha respiração quando amo, meu temor
quando me afugentam, minha exaltação quando quero, minha alegria
quando vivo.
Estendo meus braços e reúno,
todos os dias do ano – são minhas, de aurora
a aurora – me inundam de fragrâncias primaveris,
festança e fartura do sol.


[A NOITE CAIU NO MAR]

A noite caiu no mar – para mim, onde está o dia?
Onde estão os raios do sol sobre minhas pálpebras,
onde estão as penas de minha carne sobre a areia, onde estão
o sótão, as cigarras e minhas cinco vozes?
Amanhã reunirei as tuas duas coxas, quem sabe nasça uma pequena
e triste criança, que chamarão Iús, Mañús, ou quem sabe
Aqua Marina.
Tragam para mim, para parir, todos os bebês do mundo, deem-me para que os
leve a perecer todas as mortes.
Umas cordas de música serão suficiente para correr
com pés nus por entre a relva do Norte, para contar
todas as gotas de nosso corpo e para tecer
com apenas uma mão todas as esteiras de nossas fantasias.


[MEU CORAÇÃO É O MAIS EXTASIADO DOS OLHOS CASTANHOS]

Meu coração é o mais extasiado dos olhos castanhos, as lágrimas
se esgotaram, minhas asas já não me sustentam, em todas as
minhas montanhas já não encontro uma única fonte, nem a folhagem de uma árvore,
nem mesmo
uma noite eu encontro sobre as minhas montanhas, é sempre dia.
Nossa poesia nós a fazemos em papel, porque perdemos a vida no estro de um canto lírico.
Nossa harmonia exista (quando a encontraremos) no cálice
de uma insignificante flor selvagem na primavera, em uma antiga Videira.
Sempre jogarei aquele jogo cujas regras desconheço.
Embarcarei na nave que não requer portos.
Descerei minha âncora no centro do oceano Pacífico.
Cruzarei as cinco pontes, de cada pelo meu nascerá
uma flor testiculácia.
O ar levará meus cheiros e as esconderá
nas sombras que tem os cascalhos.
Moços! Aproximem-se, montem-nos, somos seus cavalos brancos,
somos suas éguas fumegantes.
Perdemos nossos freios em todas as covas, e nos litorais,
e entre as amarradas algas secas, e pelos floridos
fundos do mar Egeu.
Perdemos nossos freios, porque pedimos nosso canto.
Simplesmente não se chama
nem liberdade,
nem amor,
nem pênis,
nem vegetação, fertilização,
nem forma,
nem paixão,
muito menos dor.


[ESTAS ÂNSIAS DE MAIO]

Para S. Ch.

Essas ânsias de maio, como eu poderei apagá-las?
Esses prantos de um crepúsculo etéreo, como poderão esgotar-se?
Lamento todas as crinas de jovens que estão estiradas
sobre as almofadas de um amor convencional.
A todas elas darei em meu avental uma rosa branca
e outra vermelha – quem sabe as vejam, quem sabem sintam seu cheiro.
Eu lhes darei um zangão que encontre o sol novamente
cantando em meus cabelos – quem sabe o vejam, quem sabe o escutem.
Eu lhes direi: olhem os homens, os valentes, os livres,
o homem leão, o homem árvore de barco, o homem lâmina
e arco e voz de um cume a outro de montanha – então quem sabe
a eles se entreguem, sim, quem sabe deles se enamorem.
Se eu tivesse a voz que busco, uma cidade inteira não me seria
Suficiente para arrastá-la com meu andar primaveril.
Indago: alguém acaso suportou os crepúsculos que não morrem,
e as fragrâncias que não se perdem mas antes se convertem em sombras minhas,
e nossos cinco sentidos quando fazem arquejar e gritar nosso coração?
Meus membros de seda eu vou estirar sobre uma areia fresca,
meu olhar eu vou perder no azul inesgotável de
meu mar, meus fôlegos e pulsações serão
os fôlegos e pulsações de meu amor difuso.
Amor, carinho, desejo, prazer,
A m o r, A m o r.


[ACASO É ENCANTAMENTO?]

Acaso é encantamento? Sonho? Milagre?
A sedução de meu pensamento, a febre e as saudades,
e o gênio criador o terrível de minha carne.
Eu te dou tudo o que é meu – no sol e na cor
de amor de teus olhos.
Como cai a folha do álamo, a folha que enfeitiça
a luz? É como cairei dentro de teus braços.
Meu corpo nu já está na zona morna.
Será encantamento? Sonho? Milagre?
A palma de mina mão te espera, a palma de minha mão te busca,
a palma de minha mão treme e esvoaça entre os ramos – ai!
em meu punhado pousou um pássaro, o pássaro é tua ternura.
Qual será o amor que contém o clima desalojado?
Ao meu redor vejo apenas todas as ânsias de uma Sexta-feira Santa.
Que o meu pranto seja o canto mais manso; minha tristeza,
procissão de maio desde o mar até o campo; minhas ilusões,
dez barcos guarnecidos que navegam para a feira.
Jamais, jamais a minha vida sem encantamento.
E é o encantamento o cheiro do desejo primaveril entre as macieiras.
E é o encantamento todo o amor de uma rocha seca – com a luz, com o sol.
E é o encantamento, desde meu berço até o túmulo meus gemidos os que geram o milagre.


[UM CANÁRIO ESTÁ METIDO EM MEU CABELO]

Um canário está metido em meu cabelo e as amendoeiras
atomizaram todas as suas flores.
Talvez sejamos mais inocentes que um canário, porém castos não somos.
E não importa quantos mastros sejam desmontados, quantas medusas sejam mortas,
meu ser sempre será um exílio
Ah já, já! Venham dizer a canção que não se apaga – o rumor da clematis quando se deixa
acariciar pelas sombras, a barafunda da baleia quando encalha e seus pequenos se salvam,
O hino de nossa vida quando se perde, e encontramos nosso coração.
O que farei com as dores, os estros, os anseios?
O sol segue apenas uma trajetória.
Um dia abrirei as minhas pálpebras e minhas coxas, para receber a chuva.
Também abrirei os caminhos que sufocaram minhas resistências.
Sim. O que a mão não alcança, nosso coração supera.


[ESTA ÚLTIMA GOTA DO VINHO]

Esta última gota do vinho contém o grito de um caracol,
sobre uma onde navega minha esteira de trigo.
Ah, para! Porque ali à direita no céu vi a nuvem de meu coração.
O delfim é meu filho, as ânsias são meus olhos, e o mar as esgotou.
Contei os pequenos recipientes do balcão – desse número sem valor algum sempre falta meu ser.
Tenho vivido entre as rochas com tantas grutas marinhas – em cada
Terno buraco da cova pendo minha bandeira natal.
Jamais olhei detrás de minhas velhas fotos
(ali onde estou tão indefesa) – tem que acaso venha a descobrir meu drama pessoal.
Assim um dia encontrarei entre meus lençóis uma rosa vermelha – dentro de sua
intensidade espreitar o peso de sua ternura.
E mesmo que não me convenção as mãos de muitos, e mesmo os alentos de muitos não
nublem um espelho meu sequer – um dia cala o vento que desce sozinho da montanha
com um gemido humano.

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