3 Poemas de Beatriz Saavedra Gastélum (México, 1971)

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Curadoria e Tradução de Gladys Mendía

Beatriz Saavedra Gastélum (1971). Mexicana. Mestra em letras pela Universidade de Barcelona, Espanha. É escritora, pesquisadora, poeta, ensaísta e acadêmica. Autora de 20 livros de poesia e dois livros de ensaio. Autora de artigos sobre literatura em revistas e jornais nacionais e estrangeiros, seus poemas foram traduzidos para o inglês, francês, alemão, chinês, grego e croata. É Diretora do Centro de Estudos sobre a Mulher na Academia Nacional de História e Geografia, UNAM, criadora e Diretora do Festival Internacional A Mulher nas Letras da ANHG, UNAM. Na Capela Alfonsina, INBAL dirige o ateliê de criação literária “Alicia Reyes”, desde o ano de 2017; coordena o Ciclo de conferências Diálogos em Feminino com Alfonso Reyes; é criadora e organiza o Colóquio internacional Alfonso Reyes e as Mulheres de seu tempo INBAL desde 2020. No Museu da Mulher UNAM dirige o Ciclo de conferências Poéticas da inteligência desde 2016 e o ciclo, Poesia na voz de suas autoras, tem uma coluna cultural no jornal El Capitalino.


CICUTA DO TEMPO

Dialogo com os mortos
para ver o outro lado como um cego,
percorro o caminho indecifrável
prisioneira do meu corpo,
desta sombra que me busca na memória.

De algum modo disponho meu esqueleto
no intricado passo de imagens e nomes,
mas sonho também
e me revelo
na desmesura do instante,
na cicuta do tempo.

Sob o sigilo da calçada
escuto o ressoar de um diálogo involuntário,
a ociosa espera
para mover-me na vasta noite silenciosa
e esquecer o sonho último,
o pó do universo intolerável
que acumula o passado,
essa luz que se apaga
traçando vozes desde outra porta.

São as mesmas faces,
rostos fugidios comendo o pão de outros
e em seu sopor infinito
penetram minha incansável nudez
em transparência.


PALAVRA INERTE

Lá fora está
a espera interminável,
a indiferença e o pó,

o instante de ter morrido,
a música fina
e a rua endurecida.

Apenas move o horizonte
esta escuridão para voltar ao relâmpago
mudo da angústia
onde habitamos.

Inimiga da luz
e do som
aprisiono tua mensagem em minha garganta.


DANÇA DOS CORPOS

Começa o instante,
limites possíveis
onde teu rosto se expande em meus sentidos.

O claro-escuro se entrelaça
na substância que goteja livremente,
não faz falta o simulacro,
representar o início da dança,
a divina perseguição
que deixa tuas pegadas no ar.

Para guardar a trajetória,
o mundo real sob o travesseiro
se delineia até perder-se na carícia,
permite ascender sem rumo ante o relâmpago,

extraviar-se no fulgor antecipado,
em teus olhos como refúgio
e descobrir meu peregrinar em tua garganta,
na mínima coerência com que roçam meus dedos
teu perímetro corpóreo.

As extremidades soam sem sossego
para inaugurar diariamente
a linguagem intraduzível dos corpos,
intoxicar-se no contratempo acumulado,
o golpear contínuo
e a música que se sustenta na cintura.

Sair para respirar quase sem mover-se.
O tempo molha o amanhecer
até encontrar o mar que emerge dos lábios.

Ficar,
partir,
permanecer,
observar o indistinguível a ponto da asfixia
enquanto a ficção persegue o infinito.

Porque jamais toca a distância
o pêndulo que te transforma em universo.

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