Curadoria de Gladys Mendía, tradução de Gladys Mendía e Floriano Martins
Josué Rodríguez Calderón (1998), poeta indígena bribri, nascido em San José, Costa Rica, atualmente reside em Salitre de Buenos Aires, Puntarenas, e estuda Filologia Espanhola na Universidade da Costa Rica. Seus poemas foram publicados em revistas e antologias de países como Costa Rica, Estados Unidos, Itália, Eslovênia, México, Argentina e Espanha. Parte de seu trabalho foi traduzido para o inglês, esloveno, ngäbere e bribri.
NAMÚ
Tua pele, persianas leonadas
sustentam o entardecer,
tuas manchas como lunares
sobre minhas costas.
Afinal de contas, nos parecemos tanto
que tuas pegadas simulam as minhas
entre o barro lenhoso,
entre o esboço de nossos ancestrais.
A natureza nos envolve
como hera, e reconheço
a lua recitar em tuas pupilas,
Lágrimas me assaltam
na travessia de tua divindade;
se teu olhar é um sol de diamante
que estremece
a bondade na terra, minha voz
é uma rima afinada em teu rugido.
Namú, diz-me, o que diz a mãe terra
no silêncio de teus passos? Porque
também quero derramar a linguagem
dos deuses, quero brotar a vida diáfana.
Teu pulsar de espécie sombrinha
forja melodias do norte do México
ao sul da Argentina,
com cada traço adormecem os riachos,
mananciais onde redemoinhos
são covinhas abraçando minhas bochechas;
tu nadas nesses arremessos.
Eu os delato sobre meu rosto,
cada vez mais nos parecemos.
Talvez minhas cócegas sejam uma marola
que te acaricia quando
balanças sobre o chão,
e te banhas com o aroma do dossel.
Talvez teus arranhões na madeira
simulem versos, como as mãos
devotas que plasmaram estas linhas.
LINGUAGEM ARBORESCENTE
Uma alegoria do despertar
iridescente e alegre da alma Bribri,
as sementes, pecíolos, anéis,
frutos, raízes… das cavidades
vegetais, tão tatuadas em nossos
orifícios que Sibö nos deu vida
no broto de uma planta ikuö.
Desde o início, a alegria
fluiu através do sabor marmorizado
de tsirû (cacau) nas peles
de esquilos e macacos enquanto eles
testemunhavam a criação; nas sementes
os clãs foram depositados, ovais sorridentes.
Túbölwak, o clã do inhame, mais um traço
dentro do grande significado
que as plantas engendram,
exibindo a melancolia da celebração.
As túnicas do skû (mochila),
ájkö (bolsa) e kipö (rede) apitam, tecidas
com prismas de cabuya e cipó,
artesanato onde as vozes
de nossos ancestrais se alegram,
nosso conhecimento é tingido
pelo verde das árvores!, eclipse nupcial.
A alegria é ainda mais liberada quando
a chicha de milho perfura a garganta
durante o trabalho, em cada
cerimônia, uma bebida sagrada, símbolo
de celebração e vigor plantada no Bribri;
chamú (banana), alì (mandioca)
e dikö (pejibaye) também estarão presentes
no deleite dos tambores à mesa.
Uma apologia ao verdadeiro desfrute
da harmonia, o esvoaçar de nossos
cabelos indígenas entre as tenras
bocas das árvores como
uma simbiose entre abelhas e flores;
Assim, os Awá recorrem à sabedoria
do Grande Homem como remédio natural.
Mesmo no rito fúnebre Sulár,
nossos corpos são envoltos
no canto das folhas de bananeira;
a língua arborescente sempre rima
seus braços com a festividade
onde perfura um broto do legado Bribri.
DEVORADOR INFALÍVEL
Chamam-me de devorador infalível,
o presságio terrível no cume,
a alquimia nua na névoa,
ou simplesmente a flecha na têmpora.
Porque vou martelando, chicoteando,
e rasgando a espinha dorsal dos feitiços
escondida atrás do crepúsculo
gélido, a agulha do castigo.
Traço sombras nos primeiros
raios vivos, assusto cada tentativa
como quem persegue sua presa,
envolvo a agonia em torno das pedras.
Viram-me derreter na noite
de loucura, minhas mandíbulas engolindo
cada noite sem dormir sem retorno, cada olhar
que deixei cego, suas entranhas secas.
A cada passo ocular trêmulo
da lua, eu me inferi ao invertido,
dentro do inconsciente, congelado
no tempo, cavei um chão pedregoso.
Cavalgo o dorso sombrio
da escuridão, sou o lamento da morte
onde os pesadelos não florescem,
ataquei as tempestades e seu ajuste.
Quando tentaram me caçar,
voltaram com suas vitrines em ruínas,
comi seus ossos e suas feridas,
passaram com a febre de um enxame.
Entre os escombros encontrei o infortúnio,
ela me olhou, sucumbindo ao delírio,
não suportou meu rosto militar,
imutável, uma masmorra quimérica.
De minha caverna espectral saí
para beber cada poção enigmática,
uma rajada de vento a brincar
com meu peito blindado, semelhante feitiço.
Saí com minha zarabatana, atirando
espinhos em cada extremidade, devorando
cada minuto amargo, a minha tarefa
cósmica exauriu o sangue dos crânios.
Rendam-me, escapando de tornados violentos,
ileso como um búfalo,
sem medo de feras perigosas;
Eu voei acima da gravidade.
Talvez eu seja a turbulência
que te mantém acordado, que transborda
de cânticos ancestrais, uma horda
de vórtice sísmico, codeína catastrófica.



