Curadoria e Tradução de Gladys Mendía
José Ángel Cuevas (Santiago, 1944), um dos poetas chilenos mais importantes das últimas décadas. Estudou de 1965 a 1972 no Instituto Pedagógico da Universidade do Chile, onde se formou como Professor de Filosofia. Prêmio pela trajetória no Festival de Poesia La Chascona, Fundação Neruda, 2017. Algumas de suas principais obras incluem Efectos personales y dominios públicos (1979), Introducción a Santiago (1982), Proyecto de país (1994) e Maxim (2000). Sua poesia foi antologiada em Adiós muchedumbres (1989), Restaurant Chile (2005), Canciones oficiales (Ed. UDP, 2009) e Ex-Chile (2021).
Esta cidade é muito grande e
está à beira
da tristeza absoluta
RAINER MARIA RILKE. Carta, de Paris
INTRODUÇÃO A SANTIAGO
Céus escuros atravessam Santiago, via Conchalí
Pombas se desprendem dos telhados
(Sonho que estamos em 1920 e como um balão de Natal
A Virgem vagueia em direção a Cisterna.
A Cordilheira está ali, coberta de neve,
mas eu sou um pobre diabo da Plaza Brasil,
um que dançava boogie ao vento nos cafés.
Minha casa derrubada sob um mar de gravatas
penduradas nos mastros: Rosas com Teatinos
Gath y Chávez abre suas portas)
Alessandri dispara utopias na Población.
Ouçam a noite extensa sobrevoar apartamentos numerados,
a água retida dentro das camas.
E carros perdidos.
Outros viveram às margens dos rios
sentados no Deserto de Atacama, mas eu
vivo no alto da Plaza Bulnes
e ouço o murmúrio dos bairros ao entardecer
As Ovalle Negrete vão e vêm;
eu penso em tudo o que existe entre Mapocho e Franklin,
(Balmaceda morreu naquela casa em Amunategui
e O’Higgins partiu para o exílio caminhando por San Pablo).
Velhas canções percorrem a cidade durante o dia;
eu penso nos cinemas.
torres altas cobrem o adobe
Dois morros verdes
E uma mulher, que eu amo.
Às sete horas a luz de mercúrio se acende
A noite cai,
e eu gostaria de voar do Paradero 15
ao morro Renca, minha alma
Atravessar o Gasômetro, trens
pela Exposição
dar a volta a caminho de Pudahuel
voltar ao centro.
Todos morreremos um dia
mas o Mapocho nunca cessará seu curso.
Vejo blocos danificados passando
pelo meu antigo bairro Panamericana Sur.
Não sei o que dizer
Sentado nas escadas, os cortiços passam
a ponta da igreja Santa Ana
como uma nuvem sob a lua cheia.
(Eu iria de Matucana a Brasil, Santo Domingo
faria uma cidade perfeita: carros correriam em suas linhas
todos vestidos de escoceses
e as portas com suas mãozinhas de ferro
batendo do outro lado da vida
minha alma está na Avenida Portales
às sete da noite montada em uma nuvem
de biscoitos).
Ah, mas Santiago da República caiu.
Gastou-se Vivaceta
Independencia também está a caminho da morte
Nunca pavimentaram Quinta Normal
Nem San Ramón.
A cidade ficou estreita para tanta multidão.
Tudo ficou lá
San Pablo, Santa Isabel
(quem sabe tudo não seja depois uma vila
nas alturas), e nos amemos nos elevadores
e possamos ver o mar do último andar de San Borja.
Até 32, dormia-se em Santiago
com a janela aberta, havia confiança pública.
Agora temos terremotos, bondes, governos na mente.
A seca de 68
11 de setembro de terça-feira.
Para onde quer que você olhe, há colinas
e quando alguém morre
ao fundo da Avenida La Paz, uma colina pontiaguda
espera por você.
Gloria ao Deus das ruas
Senhor, faça com que a Pila Cementerio 26 letrero rojo passe logo
e nos envie algo para comer aqui e agora.
Estamos tão cansados de esperar.
Sim, sou de Santiago
Aqui nasci em um dia de primavera
perto de Bellavista
E vivi em Rosas com Teatinos
Joguei na Plaza Brasil tardes inteiras.
No 57, partimos para Quinta Normal
O trem 201 corria para o Porto
como uma rua iluminada.
Da Ponte Carrascal
eu via o horizonte.
Era noite.
O Sputnik passou além da Estação
Tudo está dentro de mim agora.
Depois fomos para Las Condes
Meus irmãos olhavam para o Manquehue
Em Portugal 1334, fiz minha primeira casa
Ano Setenta.
Fui pai em um 4º andar da Villa Olímpica
Foi quando começou o Estado de Emergência.
Fomos para o final de Santa Rosa
O lugar mais pobre do mundo.
Agora estou debaixo de uma laranjeira e ouço
o silêncio do campo na madrugada.
O rio Maipo que segue em direção ao mar.
Concidadão:
Pare em qualquer um dos 77
Edifícios do centro
e respire
montanhas de quartos
subindo para o céu.
(Quantas janelas se elevam
e em cada uma cabeças negras olham, quando
é meio-dia na Alameda).
Oh multidão,
zumbes, eu ouço você bem.
E embora a Torre Santiago Centro
possa cair a qualquer momento
o sol sempre se põe em suas janelas
o sol morre ali
como no Bar Unión, atravessa
as garrafas de 3/4.
O Centro é pequeno, por que
não dizer?
(Mas eu gostaria de vê-lo novamente, descer
para o Centro, passear
em frente à Falabella.
Mas não.
Seu rosto não está grudado nas vitrines
nem no Waldorf
com seus sapatinhos amarelos.
A vida já passou;
Doze mil pessoas por hora em Ahumada
Máquinas digitaram o dia inteiro. Escuto
passos na Alameda
Com calças cinza, cabelos penteados para trás eles vão
os coletes azuis que controlam a vida da cidade
com seus punhados de telefones
A Alameda produz efeitos divergentes
na minha pobre alma.
O metrô uiva sob a terra
(apertado junto com todos, as estações voam,
eu me pergunto: quero alguém aqui, eles?
Sim, eu os quero, eu digo para mim mesmo:
São eu mesmo com a cabeça baixa).
O metrô uiva sob a terra,
eu trabalhei entre os uivos
e também uivei
do Café Haití, mandei beijos
para as mulheres que passavam em direção a Huérfanos.
Alguns caíram sob o estrondo
e andam por aí desempregados e tristes
com o rosto comprido.
Mas em relação aos Edifícios
Eu sei que estão cheios de vida por dentro
são mais do que uma casa abandonada.
Eu respeito os Edifícios,
andar por andar.
Mas o que acontece nos escritórios
de manhã cedo eu me pergunto?
O Paseo Ahumada não me importa
nem as fontes de água
O alumínio
(embora eu tenha passado uma noite lá encolhido
sob o silencioso
céu do Burger Inn).
Não me importam as Galerías que atravessam Agustinas
Duas quadras adiante
e tudo volta a ser Chillán Viejo.
Concidadão que está no Paseo Ahumada
Não olhe para o chão
Olhe para o céu.
Superlotado de táxis berrantes.
Barulhos da multidão
sobre minha alma
por 24 prestações é meu um Philips Personal Stereo, e meu
1 1/2 galão de Ballantine Tatung Dynamic.
Julio Iglesias $ 180 Hoje.
um rio de sumptuosidades
o ar cheirava a mortos
Todos passavam tremendo
até o Chez Henry fechou, e você
não chegou.
De pé nas balaustradas do Unicentro
eles se olharam e se amaram, seus olhos
de brinquedos e bolos.
Amor, encontramo-nos nos Gobelinos às Sete?
Frente ao Il Bosco à noite chove a cântaros
alguém canta um bolero.
Há aqueles que têm medo do Centro,
aqueles que deixaram seus pulmões no Centro
Mulheres que no meio da Plaza de Armas
deixaram suas cabeças.
Ai, como é difícil, Senhor, atravessar a Alameda ao meio-dia
Eu sonho com as casas de Quinta Normal
abrindo portas,
a uva preta rola pelo tempo
Caminhando pela San Diego
entre camisas penduradas
Da Bolsa de Comércio ao Zeppelín
zona de tristeza.
(Uma manhã nos anos sessenta
no final do inverno
Vi Neruda
Na esquina de San Diego e Alameda
Distraído.
Os veículos passavam
Todos caminhavam em uma confusão infernal
Neruda com a cabeça erguida
olhava para algo
Não sei. Talvez a Torre Entel
O Banco do Estado.
Mas de repente
sem dizer a ninguém
ele tirou as mãos dos bolsos
Abriu um lindo par de asas verdes
e partiu por Nataniel
em direção ao Oeste
Depois nunca mais o vi).
Eu estava lá quando Santiago chegou a Tobalaba
e a Gran Avenida era uma fileira de Chalets brancos
na época de Don Pedro Aguirre.
Em volta, Santiago,
continua sua vida como sempre.
Recoleta com Einstein
Em pé na San Pablo com Samuel Izquierdo.
O leiteiro passa,
os salões de beleza abrem
Tudo parece prestes a cair.
Setenta por cento das casas são precárias
Nunca foram estucadas as muralhas
em Jotabeche
Nem em Cautín com Balmaceda
Pensem nisso.
De pé na Plaza de Armas
um rumor vem do Mapocho:
batidas distantes do espírito
velas de casa simples, se ouve
A Bandeira, Lo Hermida, La Victoria
com sua fogueira de acampamento
Como no início do mundo.
Obrigado, animita, pelo favor concedido.



