Uma foto deles na minha cela – Poema de Roger Guzmán (El Salvador, 1981)

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Curadoria e tradução de Gladys Mendía

Roger Guzmán (San Salvador, El Salvador, 21 de julho de 1981). Fez parte do ateliê de poesia da Casa do Escritor quando era dirigido pelo escritor, músico e jornalista Rafael Menjívar Ochoa (San Salvador, El Salvador, 17 de agosto de 1959 – San Salvador, El Salvador, 27 de abril de 2011). Obra publicada: Un sitio sin lugar (Editorial Equizzero, 2010); Me ahogo, me ahogo, ahogo (Projeto Editorial La Chifurnia, 2015); Óxido, pena y verdugo (Zeugma Editores, 2016); ¡Ay, ay, ay! ¡Uy, uy, uy! (Projeto Editorial La Chifurnia, 2017); En este agujero innumerable (Estro Ediciones, 2021).


UMA FOTO DELES NA MINHA CELA

—E antes, o que você queria ser?
—Quando? Antes de ser integrante de gangue das Maras?
—Sim
—Queria ser integrante de gangue das Maras
Texto baseado em reportagens sobre as gangues em El Salvador,
especialmente sobre “El Directo”.

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Tenho uma foto deles na minha cela
com seus olhos de desastre no lodo
conectados uns aos outros
através da insaciável carniça
São os dentes do roedor o medo
são nossos rostos colados ao lodo
são nossos instintos de besta tonta
de homo sapiens, de animal extraviado
Tenho uma foto deles como um prego
que me fixa às pernas daquele que já
não tem pernas, daquele que perdeu
os braços e os olhos e sofre
com medo do fantasma de seus restos
com medo desta foto que aprisiona

I

Vou à igreja com meu punhado de versículos bíblicos e
minha camisa por dentro, sem pensar ou
talvez pensando que tenho uma fotografia deles na minha cela porque
a gente procura a família, porque a gente precisa dela
por alguns minutos, uma ligação de vez em quando, todos os dias porque
somos um monte e temos que matar gente lá fora, queimar
ônibus, gente, de repente causar um caos e
minha fotografia nas notícias e a fotografia deles na minha cela, fazer
alianças sem vontade de me meter em problemas
A gente procura um jeito, pensam eles, temos que trancá-lo, e eu
já estou fora, mas eles pensam: tem que pegá-lo, uma patrulha
eu me escondo e fecho a porta porque eu estava na igreja com meu
punhado de versículos bíblicos e apontaram a arma pra mim, me
condenaram por coisas que não fiz, fiz coisas, fiz
outras coisas, mas não fui condenado por elas e sim por algo que não fiz, e eu
enfiei uma caneta num doido, por isso poderiam ter me processado, mas
não fizeram, e apontaram uma arma, os filhos da puta me
apontaram uma arma e teriam preferido me matar

II

Feri o “filho da puta” porque ele não me tirava as letras e queriam
me matar porque ele não me tirava as porras das letras e nós
brigamos e eu o feri e ele foi parar no hospital, mas não me processaram, eles
tinham luz verde, iam me matar cedo ou tarde, eu sabia
que iam me matar enquanto eu ainda servia, lutar
pra eles acabou, pra mim restam algumas coisas das quais
me arrependo, algumas coisas que fiz, algumas
que permiti que fizessem, aconteceram tantas
coisas ao meu redor, várias coisas assim
como as que sim, eu fiz
pelas quais sim, eu poderia ter sido condenado
como as que sim, eu fiz

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