Curadoria e Tradução de Gladys Mendía
Sofía Crespo Madrid é uma poeta e tradutora nascida em Valência, Venezuela, em 1995. É formada em Filologia Hispânica pela Universidade de Salamanca, onde obteve uma bolsa de colaboração (2017-2018) no Departamento de Literatura Espanhola e Hispano-Americana para estudar a obra de Rafael Cadenas. Fez o Mestrado em Educação na Universidade Complutense de Madrid, com especialização em Língua e Literatura. Publicou dois livros de poesia, Tuétano (La Poeteca, 2018) e Ayes del destierro (Libero, 2021). Participa em antologias na América Latina e na Espanha, como Última poesía crítica. Jóvenes poetas en tiempos de colapso (Lastura Ediciones, 2023), Matria Poética: una antología de poetas migrantes (La Imprenta, 2023), entre outras.
[EU PERTENCIA A UMA CASTA DE MULHERES SOFRIDAS]
Eu pertencia a uma casta de mulheres sofridas, seduzidas pelo musgo e pelas vozes do estrondo.
Em nosso sangue corria a enfermidade do esquecimento e aprendíamos a tecer no ar, embora para ninguém. Todas sabiam o significado de partir e de partir-se, por dentro. Todas guardavam pequenas baratas nos cantos.
Mas minha raça era de outro tipo. Sabíamos falar uma língua sem ossos. Eu concebia o amor dentro das cavernas, entre a umidade e o assobio.
Eu não podia partir-me. Então já não pertencia e nenhuma mulher me pertencia. Tive que abandoná-las a todas.
NO PÁTIO DAS ESCUELAS MENORES
Marmóreo gemes Fray Luís quantas vezes diga-me
se soltaste um uivo desde tua cela para tua cela
se te sentias sozinho e sem ninguém
a não ser teu amor por algumas palavras
de uma língua estrangeira.
Quantas vezes diga-me te sustentou
cada chamada ao céu negado
se teu fôlego apodrecia atrás de cada pai-nosso
se murmuravas beije-me com os beijos de tua boca
diante de uma cruz murcha e já muito tarde.
Digo-te Fray Luís digo-te
eu também burlarei os caprichos desta vida
com quanto teme e quanto espera,
pois Deus é um nome
para a ordem oculta
em sonho e esquecimento
sepultado.
DESCONFIANÇAS
eu me sento à mesa e escrevo
com este poema não farás a revolução
não dormirás a fome
com estes versos não deixarás de ser estrangeira
não viverás o tempo aos goles
nem acordarás na data do passaporte
com este poema não negarás a revolução
nem alcançarás a palavra inocente
com estes versos não te despedirás de ninguém
nem beijarás tua mãe
não terás asilo na nostalgia
não conjugarás presença ou espera
eu me sento à mesa e escrevo



