2 Contos de Tere Tavares

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Tere Tavares, escritora e artista visual, residente em Cascavel, PR, Brasil, autora dos livros Flor Essência (2004), Meus Outros (2007), Entre as Águas (2011), A linguagem dos Pássaros (Ed Patuá 2014), Vozes & Recortes (Ed Litteralux 2015), A licitude dos olhos (Ed. Litteralux 2016), Na ternura das horas (Ed. Assoeste 2017) Campos errantes (Ed.Litteralux 2018), Folhas dos dias (Selo Ser MulherArte Editorial, 2020), Destinos desdobrados (Ed.Litteralux, 2021),  Diário dos inícios (Meatanoia Editora, Selo Mundo Contemporâneo Edições, 2021), Luz (Edição da autora, 2024). Conta com publicações em antologias, jornais e sites literários nacionais e internacionais. Integra a Academia Cascavelense de Letras, e o FotoClube Cascavel.

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Dos homens da gratuidade

Aportaram algum tempo depois da tormenta. Traziam uma loucura lúcida grudada no mirar ingênuo que jogavam nos trapiches. Algo desconhecido num primeiro instante, até que se descobrisse, de forma inacreditável, a profundidade. Levemente, contornaram as margens até que fossem vistos. Dominavam o que anteriormente fora fertilidade e crepúsculos, como pássaros sem pouso. À beira do rio salientavam a maestria dos personagens desejáveis. Talvez fossem lidos numa aldeia qualquer, num jardim de vagalumes e buganvílias, com os sons estreitos das erosões.

Na sucessiva estrela dos dias futuros retornariam com maior força para pensar. E aconteceu. Quando os marinheiros deram uma volta, num minuto sem tempo, o não resgatar dos barcos aliviou-lhes a fisionomia e os escrúpulos. O cais era o mesmo que regurgitava nas insônias da orla, como árvores impossíveis a desmentir o aparecimento do sobressalto, das vazantes imprevistas. Cravaram-se as estacas e demarcou-se o limite. Os dias embeberam-se de várzeas secas, na emergência de obscurecerem os juncos e amarrarem-se à terra.

Um ponto e logo avistariam a pesca a reluzir como veleiros sem hastes, no olfato dos pássaros famintos. Seguiam sem darem-se conta das lutas entre as luzes e os betumes, da guerra ou da paz, das permissões entre o dizer e o calar – os gumes das cítaras. A natureza sugava-os num emaranhado conhecido unicamente por ela. Lenta e científica. As polpas, os ventres de flores e incensos, purificaram-nos como algo lavado pelo sangue das matas desnudas.

Restou o indizível a colorir-lhes as arcas, e o que tivera sido um ritual, uma amostragem de signos, na verdade, fora um circuito do que nunca acontecera. E sumiram dentro do nunca. Porque nunca é tarde demais.


Só quem nasce pássaro fere o dorso com asas

Quando a incerteza lhe suga a umidade, a pele exala a sede dos passos, a descendência das colorações, das searas na erupção das sementes, o calor dos astros e o arrebol de raízes indizíveis, das fimbrias da terra. Como cascas para além das clausuras, vê-se, à mesa ligeira, um alvo minúsculo posto à prova.

É como o solo dos cardos apertando-se nos prados abertos a cada beijo fito nos mastros de ontem; como um tímido tumulto arfando sobre as tulipas. Desce desmedido o rosto de música vindo de longe, muito longe, estrada e casa. Em soluços ascende-se na inebriante presença do espírito absoluto. Parecer-se a algo para ser alguém, ser alguém para ser um, ou nenhum. E é calor perfumado e quase frio, orientando os arrulhos, o meio-dia que, aos poucos, o conduz ao silêncio que se diz e o dirá, se dará ou será, como se, ao olhar-se, revirasse a eternidade, ou tornasse as fábulas absolutamente reais, para prodigalizar cada segundo em magnífico ideal. Como um outro vindo de si para abrir trilhas e ver, depois, as manadas a pisar o mesmo pasto. Não necessitava adiar a urdidura do seu íntimo. A quem pertenciam afinal as trincheiras?

O fato de ainda respirar, a cinza das águas sempre obedientes à chama, ao cinzel corrosivo de uma alegria nunca sonhada, anunciavam-no qual aroma suspenso na língua silenciosa da erosão. Desocultava-se do encarceramento e simplesmente acontecia. Partindo os juncos, sem diminuir-se, no convexo da nuvem, como se tivesse livros na ponta dos pés, dando ritmos ao som das manhãs. Temia que lhe saísse, pela linguagem, o relicário da alma e fosse morar em drusas de névoa, em florestas irresistíveis, plenitudes, como se, ao dançar, se imobilizasse.

Vem para conferir a fome estonteante do traço, mas alguém lhe dá ciência do que está para além da cor e da forma. É a carne dobrada; o corpo desconexo que salta no escuro, dando-se ao tempo, à indeterminabilidade, à minimidade de tudo o que sente. Percebe e remexe, além do seu itinerário de ostra sem concha, a mina d’água cuja fortuna é somente escorrer dentro da sede: “Conheço-me só nessas gotas, nesses bilros conflitantes de borbulhas e membros doridos. Que acidez me cobre as feridas? Isento-me de tudo, sobra-me uma quase fuga ou desistência, o desencontro da sanidade para prosseguir como fui antes que me fosse infundida a perfeição das máquinas, o desagrado das gentes, os desenganos, a  impossibilidade a me cercar, tolher, bramir, submeter. Sou córrego e planta, vitória-régia, ninfeia, limo aguçado a porfiar-me de petúnias, voz clandestina, digna e repleta, que habitam as mãos nuas e cabisbaixas, solo a par do solo… colho a poeira, a dança no escuro, o que restou no desencarceramento da ternura, único círio cuja chama não se dissipa nem adormece, e vem banhar-me, isento de faces. O céu geme o meu silêncio, a metáfora inconclusa que de mim transborda”. 

Distraem-se a mente e os soluços nas denúncias do inverno, no perímetro do tempo que, colorindo-se de vácuo, sorvem a flor comunicante que não finda quando eclode, em secura de fontes e seivas, na biologia dos diálogos imperceptíveis, nas dores insistentes, como se lessem as pétalas e pintassem farpas nas tranças, num debrum oxidado de luas – matriz de ar e de crepúsculo. Ele é os desencontros pretéritos, esfumados em palavras invisíveis que a liberdade tece numa voz de elo, e, no calor difuso das geadas, descobre que o segredo é invadir a estranheza das coisas.

Ele planta as cores que não cabem na ânfora ao obedecer à sinuosidade do amor – no matiz gradual dos olhos, o pulsar do impulso de proferir-se, como se, em suas espáduas, tatuasse algum sentido inusitado. A sua alma é também o mundo – ninguém a difere do que é. Exceto a armadura de sonhos que jamais deixa de ser o lado em que nasce inteiro e seguro de si mesmo. Quando então acorda próximo aos caules do ocaso, à sincronia ardente e silenciosa circunscrita nas migalhas nunca proferidas, sorrindo seus reflexos à língua exangue d’água – para, e só assim, compreender que a descida é posterior à escalada.

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