7 Poemas de Eliana Maldonado Cano (Colômbia, 1978)

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Curadoria e Tradução de Floriano Martins

Eliana Maldonado Cano é doutora e mestre em Literatura. Sua pesquisa concentra-se nas formas poéticas quéchuas na obra de José María Arguedas e nas novas relações entre memória, identidade e trauma no mundo andino. Suas publicações incluem: Sob a Pele (Hombre Nuevo, 2007), Luas de Sombra (Sílaba, 2010), Rumo ao Pacífico (Cuadernos Negros, 2015), Cartografia da Chuva (La chifurnia, 2016), O Poço da Infância (Pigmalión, 2018), Aquelas Mulheres em Miniatura (Pigmalión, 2019), Pássaros Que Não Existem (Lima Lee, 2020) e Wayrayaripay/O Som do Vento (Valparaíso, NY, 2024) em versões trilíngues (quéchua, espanhol e inglês). Outras obras publicadas incluem Eles Escrevem em Medellín (2017), Poesia Colombiana do Século XX Escrita por Mulheres (2014) e Histórias que Não São Histórias: Experiências de Leitura e Escrita em Medellín (2014). Seus livros foram apresentados na Espanha, França, Colômbia e Peru, entre outros lugares. Seus poemas foram traduzidos para o inglês, francês e português.

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Conheço Eliana Maldonado desde que ela era estudante na Universidade Nacional. Ela trabalhou comigo na rádio da mesma universidade no programa Taller de Luna. Sua poesia é profundamente vivencial; por meio de uma linguagem clara e simples, ela comunica suas dificuldades e sofrimentos, revelando sua alma, vestida com as vestes da linguagem. Eliana viveu momentos difíceis em meio à violência e à injustiça, entre o desenraizamento e a renovação constante. Eliana é cheia de caráter, galanteria, coragem e ternura. Seu trabalho adquiriu uma forte ligação com as raízes quéchuas, como os sons do vento, a poesia em quéchua, o Wayrayaripay, uma atividade que ela desenvolve atualmente. Poesia traduzida para o inglês, quéchua e espanhol, sempre em projetos impactantes, acredito que seu trabalho seja digno de consideração. Ela enviou esta amostra para esta edição. Vale ressaltar que Eliana trabalhou como promotora de leitura em diversas bibliotecas, atividade que escolheu independentemente de sua carreira profissional.

FERNANDO CUARTAS ACOSTA


[ENTÃO A DOR SE FUNDIU]

Então a dor se fundiu com as raízes da árvore
e se entrelaçou com a terra.
Uma Cesta das trevas foi levada
para onde não podia ser aberta
e as palavras brotaram novamente para tecer outros mundos possíveis.


[NÃO, NÃO ESTOU TRISTE AGORA]

Não, não estou triste agora.
Estou sozinha, sim.
Os seres de carne e osso fugiram do deserto que restou.
Os pássaros partiram para o mundo acima, e
As rãs mergulharam entre os nenúfares para se agarrar às suas raízes.
Nem mesmo a onça ficou comigo.
Somente a árvore que entrelaçou minhas raízes às suas
me acompanha e é por isso que não estou triste.
Das folhas mais altas, consigo ver o céu
e um condor ocasional se afastando apressado.
A montanha se abriu do lado esquerdo
e o amaru levou tudo.

Não, não estou triste agora.
A terra decidiu por nós e nos exterminou.
Por que existem seres belos que destroem?
Não estou triste, não.
Algumas árvores permaneceram de pé comigo
e nós povoaremos a terra de outra maneira.
Triste, não.
Sozinha,
sozinha
e em silêncio.


[ESTOU ARQUEANDO AS COSTAS]

Mantenho arqueadas as minhas costas.
Lamento pelo filho que partiu em uma manhã sem sol,
sem me cumprimentar, sem me segurar, sem me escolher.

Apenas se foi para o mundo inferior para seguir brincando
com as almas que nunca chegaram a ser nomeadas. Talvez tenha
sido melhor assim, este ar infecto teria lhe corroído
as entranhas. Por que trazê-lo para um mundo onde o outro
é uma ameaça? Ele partiu com bom vento, bom ar,
digo ao ar, enquanto abraço o espaço vazio de meu
abdômen.


[SOBREVIVI A DUAS GUERRAS]

Sobrevivi a duas guerras,
mas não saí ilesa.
Uma bomba destruiu minha mão direita, e escrevo lentamente esta página.
Uma bala atravessou os dois pés, e estou sentada. Levaram
tudo e todos que contaram uma, duas,
cem vezes, até sentirem-se seguros.
Sobrevivi a todas as guerras que o dia traz, e ainda estou sentada
aqui, com a esperança de que ninguém dispare contra
meu rosto as gotas de sua garanta.


[AGORA QUE NÃO TE LEMBRAS DE NADA]

Agora que não te lembras de nada, eu te devolvo as memórias. Tuas mãos tremem quando me olhas, ou quando olhas sem medo. Suspeito que a névoa em teus olhos seja mentira. Ainda sorris quando vêm contar suas histórias. Tive que ordenar à mulher de branco que os impedisse de entrar. Eles esperam do lado de fora como na fila de um circo, alguns engolindo em seco, outros fumando. Uma mulher veio pela terceira vez vender café. a noite é longa, ela sempre diz. Não sabe o quanto odeio esses homens.


[PAI, JÁ DERRUBEI TODO TIPO DE PAREDES]

Pai, já derrubei todo tipo de paredes e tetos, usando mais as unhas do que os dedos. Tenho as mãos em carne viva e é impossível ver as cicatrizes antigas. Velho, não serei eu quem vai recolher os escombros e jogá-los na sarjeta da vida. Uma coisa é cavar furiosamente, outra é juntar pacientemente o que sobrou da estrada. Lá fora, eles ainda tomam café e riem. Estão esperando.


[TUDO ESTÁ PLANEJADO]

Tudo está planejado.
Eu me levantarei quando a Hidra estiver no zênite.
Caminharei em direção ao Cruzeiro do Sul.
Os pássaros estarão em seus ninhos, e a coruja,
que a essa hora vira a cabeça para a
esquerda, não me verá passar.

Só temo o murmúrio no peito,
será incontrolável, e aqui, neste vale,
os ecos ressoam fortes.
Não levo mais bagagem que a pele e
um par de pálpebras.

Emergirei na segunda onda que
quebrar pela manhã.

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