Curadoria e Tradução de Floriano Martins
Maribel Becerra Ibargüen nasceu com o murmúrio do rio e a voz do tambor no peito. Tem 23 anos e é natural de Chocó, terra onde a selva respira e a história canta. Atualmente, vive em Medellín, um lugar que a viu crescer entre a esperança, a luta e a arte. Estuda Direito, convencida de que a justiça também requer aqueles que a veem com sensibilidade, aqueles que acreditam que as leis devem ter alma para serem humanas. Sua vocação jurídica coexiste com uma paixão mais íntima: a poesia. Não se considera uma escritora profissional, mas escreve como se cada palavra fosse uma batida necessária do coração. Seu amor pela escrita nasceu do silêncio e da força do seu entorno e se tornou sua maneira de entender a vida. Maribel escreve com o coração aberto, com a verdade de quem viveu, com a doçura de quem sente profundamente. Seus poemas não são apenas versos; são caminhos para o autoconhecimento e a cura. Orgulhosa de suas raízes afro-colombianas, sua voz poética também é uma forma de resistência e memória. E embora seu nome ainda não esteja nos livros, sua voz já vive nas páginas do vento.
FERNANDO CUARTAS ACOSTA
E SE FICASSES?
Estar contigo era como fechar os olhos
e sentir o sol de verão de uma tarde de Buenos Aires tocar a minha pele.
Despertaste esse sentimento,
a sensação de que em algum porto escondido encontraríamos aventuras cheias de amor, mistérios e histórias para contar, e eu queria tanto vivê-las contigo.
Eu queria que ficasses todas as noites,
que me desses teus pensamentos e talvez,
talvez pudéssemos ter algo mais.
Eu queria que me abraçasses sem que eu esperasse,
que dançássemos um tango todas as manhãs,
eu queria tanto que a vida nos fizesse testemunhas de que esperar sempre vale a pena.
Eu te amei tanto que meu coração louco permanece ao lado do teu em meio às tempestades; eu digo, eu te amo,
ainda.
Desnude-se mais do que meus pensamentos, minha alma, até que a lua que cruzou nosso abril nos levou a portas diferentes,
só então poderíamos deixar Capricho, o remorso e o tempo perdido antes de nos conhecermos como estranhos.
E hoje,
busco em minha memória a última fronteira que cruzamos, para ver se te encontro,
e ali, de um canto, com todas as minhas forças, gritarei:
E se ficasses?
SELF
Há um lugar aonde ninguém chega,
nem o amor mais puro,
nem o ódio mais feroz:
chama-se self.
Lá,
onde o silêncio não é castigo,
porém um espelho.
Onde os nomes caem
como folhas secas,
e só resta a voz nua
que sempre falava.
Self é
o quarto que não é varrido,
o medo que ninguém abraça,
o nó na garganta
que não pede tesoura,
mas sim presença.
É olhar para dentro
como quem olha para um poço
sem esperar um reflexo,
e ainda assim,
sair de si mesmo.
Self
não é o que se vê,
é o que dói em segredo
quando tudo lá fora sorri.
É o que resta
quando a maquiagem da alma se esvai
e o coração, sem vergonha,
se deixa bater forte.
Self
é a pergunta que não é respondida,
mas é honrada.
É fazer um lar
com os restos do naufrágio. É aceitar que somos
também as rachaduras,
não apenas a luz que se filtra por elas.
Porque, no fim das contas,
não há jornada maior
do que retornar ao centro
sem mapas,
sem atalhos,
e permanecer.
O QUE O MAR NÃO DIZ
O mar nunca diz seu nome.
Não precisa.
Basta chegar,
e doer.
Veja como ele retorna a si mesmo
após cada despedida.
Como ele se quebra
sem medo
na praia.
Nós não.
Nos apegamos ao que dói
como se o naufrágio
fosse nossa pátria.
Talvez o mar saiba:
que não se cura escondendo-se,
mas deixando-se ver
quando tudo dentro treme.
O ECO DE TEU PRÓPRIO NOME
Pensavas que eras o sol
quando não eras mais que uma sombra.
Confundias independência
com arrogância.
E pensavas que o amor
era um luxo descartável,
uma vestimenta a ser trocada
quando não mais se adequava ao teu ego.
No espelho te olhavas
como se fosses o universo,
e os outros, satélites forçados
a girar ao teu redor.
Nunca perguntavas como o outro se sentia,
porque em teu mundo,
as emoções alheias
não fazem barulho.
Te achavas invencível,
superior,
indispensável.
E quando alguém te amava
com mãos trêmulas,
com olhos cheios de fé,
zombavas silenciosamente,
pensando: Eu não preciso deles.
Diga-me então,
com quem falas agora
quando a noite cai e o telhado
responde com um eco?
A quem mostras tuas conquistas
quando não há olhos sinceros
para verdadeiramente te celebrar?
Achavas que estar sozinho
era sinônimo de poder.
Porém o tempo
mostra
que aplausos na solidão
não soam iguais,
que ninguém te admira tanto
quanto tu mesmo te admiras,
e que… isso não basta.
Porque no final,
quando todos se cansam de te olhar de baixo,
ficas sem plateia,
sem diálogo,
sem amor.
E o mais trágico
é que nem percebes
que não sabes amar,
porque nunca aprendeste a ver ninguém
como igual.
LÚCIA
Ela nos viu dizer adeus.
O beijo amargo
que tinha tanto gosto de despedida.
Éramos dois loucos,
feitos merda,
por dois babacas
que não sabiam amar.
Dois loucos complacentes
andando
por onde
seus pés os levassem.
Lúcia…
Esplêndida como a noite.
Seus olhos imploravam por companhia.
Eu sei o nome dela e me lembro:
ela disse que se chamava Lúcia.
Seu cabelo era curto,
na altura dos ombros,
com cheiro de creme para cabelo,
como um jardim cheio de rosas.
Um perfume que acalma,
que traz paz.
Ela estava linda,
e o que vestia,
ainda mais,
porque Lúcia era isso.
O orgulho, porém…
o orgulho nos consumia.
Ela não podia falar-me dele,
e eu, dela, não podia.
Nos deixamos levar,
e entre gemidos,
nasceu um beijo inesperado.
Não a vi mais
desde aquela vez
que a beijei,
e ela me beijou.
Eu estava louco.
Indeciso.
Ela ia e vinha,
como amores fugazes
que só vêm de passagem
para deixar rastros
em corações partidos.
Não a vi mais…
mas se a vires:
Ela é loira,
de rosto comprido,
sorriso esplêndido,
olhos azuis de princesa.
E naquela noite…
ela usava salto preto
e um vestido vermelho.
E por precaução,
o nome dela é Lúcia.


