7 Poemas de Bibiana Bernal (Colombia, 1985)

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Curadoria e Tradução de Floriano Martins

Bibiana Bernal (Colômbia, 1985). Escritora, editora, promotora de leitura, gestora cultural e formada em letras e espanhol. Parte de sua poesia foi traduzida para o grego, italiano, inglês, francês, português, chinês e romeno. Criadora e diretora da Fundação Pundarika e da editora Cuadernos Negros, fundada há 19 anos. Autora de dois livros de poesia e de diversas antologias de contos e microficções. Prêmio Comfenalco de Poesia, 2003; Prêmio Governador do Quindío de Poesia, 2016; finalista do Prêmio Nacional de Poesia do Ministério da Cultura da Colômbia, 2017; prêmio de Escritor do Ano, Encontro Nacional de Escritores Luis Vidales, 2019.

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Contar com a presença de Bibiana Bernal é uma honra e um grande prazer. Bibiana possui uma perseverança, uma imensa busca por perguntas, cujas respostas se encontram na observação paciente de cada lugar onde colocou as mãos, o olhar e os sentimentos. Há um lá fora que seduz e encanta. Lá fora é a chuva, lá dentro é este lado da janela, o inverno e suas chuvas respiram no vidro, enquanto por dentro se sente um tempo em cativeiro. As perguntas emergem do degelo da memória. Todo esse lá fora, águas, rios, florestas, todo esse lá fora que a vida inevitavelmente leva. Em sua poesia, não há narrativa, nem figuras retóricas para denunciar ou criar dramas líricos. É uma biografia do mundo, tal como ele é, o esvoaçar das dúvidas entre o céu e o Éden. Removendo as máscaras sem perder o encanto. No entanto, tudo o que ela diz é possível; é uma ferida aberta, uma ferida doce como uma mudança, onde nem aqui nem ali ninguém diz seu verdadeiro nome. Toda essa realidade vem de fora. Deste lado da janela, só há tempo cativo. Longas esperas. Lá fora, água, vida, alegria. Lá dentro, tenta-se aprisionar a sombra do voo na concha das mãos. Bibiana nos fala de uma realidade tangível, sonora, aberta. Suas metáforas são sinais, pistas, formas entre o sensível e o espiritual; ela nos oferece um diário de bordo de sensações.

FERNANDO CUARTAS ACOSTA


INVERNO

Lá fora, a chuva.

Deste lado da janela,

o inverno respira no vidro, obscurece o tempo em cativeiro.

Lá fora, a água.

Cai sem respostas no asfalto, inundando de perguntas
os olhos que testemunham
o degelo da memória.

Lá fora, o rio,
                  se disfarça de rua,
                                                       leva o dia,
                                                                         os dias,
                                                                                           a vida.


BIOGRAFIA DO MUNDO

Tudo sugeria cegar as mãos,
acariciar máscaras,
escolher o tempo como única medida,
seu esvoaçar de dúvidas entre o inferno e o Éden.

No sonho e no voo,
Nós, como o único recurso do medo.

Tudo sugeria baixar o olhar,
cuspir os pés de Deus,
crer na semelhança, no próximo, no um mais um igual a mim, no esquecimento, no eu não sou,
no Criador e no tédio perpétuo.

Tudo sugeria encarnar o caos,
no passado que virá
para confirmar o que não sabemos, para refutar o pouco que aprendemos,
para desnudar o que não somos.


MUDANÇA

Deste lado,
não se ouvem soluços
nem passos no quarto.
Nenhum galho entra pela janela.
Não há silhuetas impressas na parede.
A qualquer momento, um cão vem me cumprimentar.
Nesta cama, nenhum abismo dorme.
A luz nunca se apaga no meu rosto.
Aqui, como lá, ninguém diz meu nome.


CREDO

Creio no homem,
todo-poderoso exilado,
buscador do céu,
criador do inferno.

Creio no engano,
seu único argumento.

Concebido por obra
e graça do relâmpago, nasceu da mentira virgem, sofreu sob o poder do instinto e foi despojado de sutileza.

Creio no homem,
em sua devoção efêmera,
em seu amor tecido com espuma, em suas palavras de ar perpétuo, em suas promessas de névoa,
em seu tempo sem memória, na fraqueza de sua carne,
e em sua eterna solidão, amém.


PÁSSARO DE PEDRA

Ser de pedra e acreditar-se pássaro
porque o vento espalha
a poeira das mãos.

Ver-se ave no reflexo,
embora imóvel no asfalto,
chamuscado pela luz das cinco horas.

Saber-se ninho
em um canto do dia moribundo,
incapaz de roer o ar.

Ser de carne e acreditar-se folha ou pena
e no fim do dia ser quem cai.

Ser um e acreditar-se outro e outro e outro,
até que a noite caia sobre si
e retorne à origem,
onde o barro não tinha rosto
e as asas não pesavam tanto.


HUIDA

A dónde ir
cuando no se habita ningún sitio.

De nada sirve desplazarse,
abrir y cerrar lugares,
si no cabemos por exceso de existencia.

Hacia dónde dirigir la torpeza de los pasos,
el temblor de las manos distraídas
y la mirada que estaba perdida
antes de abrir los ojos.

Cuál ruta elegir
si no hay preferencia por ningún abismo.

Qué tiempo urdir
ahora que todo se ha deshilvanado.
Dónde no buscarse, dónde, dónde.


FUGA

Para onde ir
quando não se habita lugar algum.

Não adianta se mudar,
abrir e fechar lugares,
se não cabemos devido ao excesso de existência.

Para onde direcionar os passos desajeitados,
o tremor das mãos distraídas,
e o olhar que se perdeu
antes de abrir os olhos.

Qual caminho escolher
se não há preferência por nenhum abismo.

Que tempo tramar
agora que tudo se desfez.
Onde não procurar por si mesmo, onde, onde?

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