Curadoria e tradução de Floriano Martins
Áurea María Sotomayor (Porto Rico, 1951) é poeta, ensaísta, antóloga e tradutora. Obteve seu doutorado em literatura latino-americana pela Universidade de Stanford e possui um Juris Doctor pela Universidade de Porto Rico. Foi professora de Literatura Latino-Americana e Caribenha na Universidade de Pittsburgh e na Universidade de Porto Rico, das quais se aposentou, é especialista em temas de Direito e literatura, gênero, poéticas ambientais e poesia. Foi cofundadora das revistas culturais porto-riquenhas Posdata, Nómada e Hotel Abismo. Sua obra poética e crítica foi publicada em importantes antologias e revistas e foi premiada por seus livros de poesia e crítica. Participou de fóruns, simpósios e festivais internacionais, como o Encontro Ibero-Americano de Poetas, Fundação Vicente Huidobro (Chile, 1994), Feira do Livro de Guadalajara (1998), Festival Internacional de Poesia (Lima, 2013), 3ème Congres des écrivains de la Caraïbe (Guadalupe, 2013), Feira do Livro de Buenos Aires (Salão de Poesia, 2017), Feira Internacional de Quito e Universidade das Artes (Guayaquil), Feira Internacional do Livro em Caracas (2014), Havana (Casa das Américas, Casa Dulce María Loynaz), Casa José Asunción Silva e Universidade Javeriana (Bogotá), Salão de Honra da Universidade Católica do Chile, Centro de Escritores Chilenos (com Carmen Berenguer) e várias universidades nos Estados Unidos. Participa em várias antologias: Poesia, relâmpago maravilhoso (2022), Ojos de par en par. Antologia de poetas hispânicas (2021), Isla escrita. Antologia da poesia de Cuba, Porto Rico e República Dominicana (2019), El cuerpo del poema (2018), Fórnix de Poesía (2013), Poésie portoricaine du XX siècle (2009), entre outras. Publicou em revistas e jornais: Sibila (Sevilha), Mandorla (EUA), Casa de las Américas (Cuba), Papel Máquina (Chile), Blanco Móvil (México), Agulha Revista de Cultura (Brasil), Nuruberger Zeitung (Alemanha) etc. Seus poemas foram traduzidos para o inglês, alemão, francês e português.
O CORPO CORRUPTÍVEL
Seu corpo fugitivo para sempre.
FEDERICO GARCÍA LORCA
I.
Entre a cana tripla encolhida,
na cavidade de suas curvas,
a Memória se diverte.
Os extremos obstinados
de sua luz libadora
dançam em pontas duras.
A ótica do coração imantado
mede a ascensão harmônica de suas fibras
até alcançar a sétima
sensível e musical
que desafia o solo.
Conta a história do lúcido Ícaro,
a escala de sua luz,
o voo gravitado.
E se dobra no silêncio de seu Orfeu.
Encantada, a sinuosa
em suas nostalgias,
relembra a rota do grande pássaro
de asas untadas e cerosas.
Estas sentem
como a dor se entorpece,
como o sentido se agudiza.
E ainda assim, voa.
A razão o invade.
A maldição olímpica lembra.
O coração percebe o sol,
já muito próximo.
Desce, abolido no fogo,
o projétil humano.
Cai no mar.
Desinventado o lugar
de implantação de seus dedos.
As raízes,
enxertadas em suas omoplatas,
já para sempre derretidas.
II.
Acima,
além do sol
e da sombra,
transcendida a morte vertical,
a fronteira irrisória
da sobrevivência e da insônia,
além do cérebro amoroso
que dirige sua rota,
pode-se ouvir o corpo corruptível
murmurando os mitos
de seus dias felizes,
o desenho precoce desaparecendo
entre seus dedos ceifados pela luz,
os sonhos trocados por moedas.
A realidade,
já certa, se aproxima.
Dói ver-se
o corpo segmentado.
Enumere os gestos
que compuseram seu dicionário físico:
o lugar que se recusou a reproduzi-lo.
O tempo corrói seu perfil incompleto,
o olhar saqueia
o ciclo recorrente de seus deslizes,
a decomposição quase iminente
da raivosa jugular
que conduzia o palpitar.
O corpo corruptível,
cantando suas pintas vermelhas,
as formigas,
dinamizando cada membro,
desenham cílios móveis
à beira de seu abismo,
as moscas reluzentes
alimentando sua gula irreverente,
velando os contornos,
o costume esquecido de seu corpo.
O relógio mima a permanência
de seus cabelos,
para sempre brilhantes.
III.
Divirta-se, Memória.
E na graciosa solidão de seu ofício
persiste em permutar
as chaves de seu corpo,
e nas sábias flexões
de seu anel
perpetra a elegia
e exercita a tática:
sua obsessão de anfisbena.
O cadáver perfumado
reduz-se a esperar
os martelos da mão mestra
que selam sua memória,
suprimem a chave de seu nome,
consumem as próprias chamas
da cremação,
polam até brilhar
a miséria de seus ossos
com o falso diamante de sua caveira,
sufocam a boca úmida
já para sempre detida em um batimento cardíaco.
IV.
E oculte-lhe, Memória,
a paz como castigo.
Para que desconheça
e jamais se contemple
no espelho mágico
destes,
seus fogos fátuos.
BOCA SEM COMISSURAS
Quando virei à direita, o dia estava nublado. O vento movia as árvores e, de repente, um rosto. Virava a roupa cinzenta, as feições de pedra, o torso de osso, a expressão brusca de uma boca sem comissuras. Não sabia se se aproximava da ponte sobre a qual já caminhava. Apenas observei rapidamente o rosto estupefato sem olhar, observando a falta de luz e o som inaudível dos tecidos balançando ao vento. Em seu rosto, a fúria e todos os mares, a despedida seca e aquilo. Perder a calma é entrar na loucura. É fácil.
O TUTU ESCANDALOSO
O equilíbrio se quebra sobre aquele tecido que se estica naquele lugar escuro em que os olhos se erguem em paixão voyeurista. As ondas sobem como se o Fujiyama mudasse de local. Altero a cor do guarda-sol que me segura ternamente pela mão para que o equilíbrio legítimo do pé sobre a corda não vacile. O sapato tem uma sola dividida que facilita a travessia. Posso dar cambalhotas e manter a compostura. Ou me encantar com as luzes que estão acima da tenda. Recolho o tutu escandaloso e me surpreendo com as mãos presas ao equilíbrio do guarda-chuva, conduzindo-me por uma corda sedosa de papel quebradiço com cheiro de eucalipto. Os pés aderiram, como faria uma vítima presa pela saliva de sua aranha. Com passos de minueto, deslizo sobre a superfície, a corda azul que agora se inclina, estando você longe.
FLAMA ALIVIADA
Mas algo irredutível palpa a intuição que entreabre um fato. E a réplica sobe com o estrondo com que o arco cai ao se abater sobre o corpo do intérprete. Então, algo além da música se abole. No entanto, você pode ouvir essa maneira inestimável de fazer silêncio. Como o vento paira sobre um rosto que ri e o roçar do ar passando pela epiglote supõe todo o ruído. A distância é toda a sua paciência e o esboço de um desejo a mais intensa degustação. Não há extremos nem caminhos nessa travessia cifrada pela lentidão. Um espaço em branco ou um suspiro dobra o tempo constelado de poças selvagens, salvas talvez por aquele andar na ponta dos pés sobre a proximidade das coisas. Lá se consome a chama, aliviada pela evaporação. Sente-se o ar roçando o tremor. Demarcar esse território impossível, assim como sugerir suas coordenadas, beira a perda. Assim em tudo. O que se diz não se deixa viver e o que não se diz não tem possibilidades de viver.
O PESO
Quando o vento sopra, as areias se elevam.
LEONARDO DA VINCI
O pesado e o leve se acoplam no ar.
Eles se equilibram, assim como um nadador habilidoso
busca o ponto de equilíbrio do seu corpo
quando se lança na água.
O sol ilumina sua extensão,
o ar o empurra levemente e roça sua nuca,
as pernas querem afundar
o coração que guarda seu torso,
mas aqui ele permite que ele se eleve,
balançando para sempre sobre o rosto.
Assim, permanece balançado pelo ar
forjado na imobilidade desta água
sem que a gravidade lhe estremeça
o semblante
e o arraste para o fundo.
O ÍMPETU
O peso não muda por si mesmo, enquanto a força é sempre fugaz.
LEONARDO DA VINCI
O ímpeto resulta da união da força
com a direção precipitada de seu movimento.
Tanto ardor leva que divaga no ar de seu sonho
a forma que o impulsiona.
E hesita no momento de seu impacto.
Se a força é o desejo do voo,
o ímpeto é o projeto de uma linha
afundando no tempo que não tem
ou no instante que prevê demais.
Todo o seu movimento é um paradoxo
que clama de repente,
um braço separado do seu torso,
uma volta irracional que se desprende da sua asa.
O objeto recebe o impacto, mas não se comove
no sentido em que esta palavra o previa.
Há uma distância entre o movimento e o impacto,
uma vingança sutil dessa força enlouquecida,
uma distância que a desmorona gradualmente
porque cai por seu fim.
Isso é chamado de peso.
IN MEMORIAM, EM 18 DE OUTUBRO DE 2024.
Quando se olha pela mira de uma arma (como um drone), a figura aparece envolta em gazes. Não se vêem os seus olhos nem a sua expressão facial. Esses olhos ou essa expressão correspondem ao alvo que se foca. Só se vê, quando se pensa estar a olhar, os movimentos que envolvem a gaze. Assim, o que se vê torna-se uma figura fantástica, sinistra, ameaçadora. Não sei se o que vemos quando olhamos pela mira desse drone faz parte da intenção de “criar” o inimigo, torná-lo outro, para que, ao não reconhecê-lo, ao não olhar para seus gestos mais profundos e sutis nem para seus olhos, ele não nos afete. Só sei que a figura me atraiu quando eu assistia ao noticiário. Fiquei fascinada quando ele pegou um pedaço de madeira e, com o coto — ou a mão ensanguentada —, o jogou contra aqueles que o miravam. Ele não atacou a câmera, mas sim o outro que estava ao seu lado. Aquela figura envolta em gaze, ofuscada pelo olhar artificial do drone, sabia que aquele o mataria. Ele murmurou algumas palavras antes de morrer: “Sempre há outro”.



