Déborah Radassi: diálogos que atravessam a experiência com a TV e a pulsação criativa

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Por Aristides Oliveira

Jornalista, mestre de cerimônias, atriz e artista da dança. Jornalista, com Pós Graduação em Dança Educacional pela Faculdade CENSUPEG de Joinville e em História e Cultura Afro-brasileira. Trabalhou por mais de dez anos no Jornalismo da TV Cidade Verde, onde hoje está à frente do projeto “Presença Preta”, um espaço de conversa para reflexão e troca sobre a vivência, cultura e protagonismo das mulheres negras. Atualmente, é Mestre de Cerimônias do Cerimonial do Governo do Estado, apresentadora dos principais festivais de cultura do Piauí e embaixadora da Expofavela-PI.

Por muitos anos acompanhei o trabalho de Déborah na TV como jornalista. Seu grande diferencial é que, além de marcar uma presença ativa em pautas importantes na capital (Teresina-PI), ela transita em várias linguagens artísticas, seja na dança ou cinema e dedica-se a fortalecer o debate sobre o papel das mulheres negras na história do Piauí.

A partir do videocast Presença Preta – exibido na TV Cidade Verde e disponível no You Tube – Déborah demarca o pioneirismo em trazer o primeiro programa dedicado ao protagonismo das mulheres negras no Estado. O impacto desse projeto precisa ser debatido e difundido para que outras iniciativas desse porte se tornem uma prática na TV aberta no país.

Déborah conta muitas histórias valiosas, como a sua relação com o jornalismo e o amor pelos livros. Encosta aí e lê esse papo. Tenho certeza que você vai aprender muito com ela.

Que lembranças vem à memória quando você traz para o presente as primeiras experiências que vivenciou na TV?

Em 2011 me formei em Jornalismo. Antes de entrar para a TV, trabalhei por dois anos como assessora de comunicação de um partido político de direita — um lugar com ideologias completamente opostas às minhas. Foi ali que eu aprendi, na prática, o que é ser imparcial. Tinha dias em que eu escrevia textos que não representavam o que eu acreditava, mas era meu trabalho. E isso me ensinou muito sobre separar opinião pessoal de compromisso profissional.

Curiosamente, essa experiência me deixou ainda mais preparada para o que viria. Quando entrei em um dos maiores veículos de comunicação do estado – TV Cidade Verde, percebi que aquele ambiente era exatamente como eu imaginava: intenso, rápido, desafiador.

A correria do hard news, o encanto de ver uma informação se transformar em imagem, o contato com pessoas e histórias de todos os tipos… tudo isso me alimentava. Passei por praticamente todas as funções dentro da emissora — produção, edição de texto, reportagem, apresentação e, por um tempo, coordenação de projetos especiais. Mas o que mais me marcou não foi o trabalho em si, e sim as discussões de pauta. Eram verdadeiros embates (falo no sentido leve!). Levava comigo minha vivência de mulher preta, artista e periférica, e penso que isso moldava o meu olhar. Queria trazer para o telejornal pautas que falassem sobre cultura, cidade, meio ambiente, diversidade, até polícia, tema que eu não gostava de me aproximar por ser muito delicado… Ou seja, assuntos que mostrassem o lado humano da notícia.

Como boa capricorniana, decidida e também teimosa, eu defendia até o fim com convicção as pautas que julgava necessárias. Tive sorte de trabalhar com chefes e chefas que sabiam ouvir e entendiam meus argumentos. A gente sempre tentava encontrar um meio-termo, algo que fizesse sentido editorialmente, mas que também fosse verdadeiro com o público que mais precisava se ver ali: o povo comum, as pessoas que vivem a realidade que eu conheço.

Um episódio que me marcou foi durante uma série especial sobre os 200 anos da Independência do Brasil. Percebi que, mais uma vez, a história estava sendo contada apenas pela perspectiva do colonizador. Nenhuma menção à contribuição e à luta do povo preto. À época, eu era editora de um quadro semanal de cultura e decidi propor uma matéria sob o olhar das pessoas pretas. Com a ajuda de pesquisadores, historiadores e professores, contamos a importância do Piauí na Independência do Brasil a partir dessa nova perspectiva. A reportagem foi ao ar, e eu tive a certeza de que estava no caminho certo.

Você está em contato direto com o público e faz a apresentação de artistas em grandes eventos pelo Estado. O Festival de Inverno de Pedro II seria o mais conhecido por mim. A partir da sua participação nessas realizações culturais de grande porte, você acredita que o Piauí faz parte de um circuito a nível nacional ou ainda estamos distantes desse momento?

Em junho de 2025 aconteceu a 19ª edição do Festival de Inverno de Pedro II. Desde 2023, tenho a honra e a alegria de apresentar o Palco Opala, o palco principal do evento. Foi o primeiro grande festival da minha trajetória, e a primeira vez que estive diante de um público que já chegou a mais de 20 mil pessoas. Tive contato com grandes nomes da música brasileira como Vanessa da Mata, Demônios da Garoa, Ritchie, Maria Gadú, Eduardo Lages, Xande de Pilares e tantos outros artistas piauienses que fazem nossa cena pulsar.

Lembro que, muito antes de estar ali como apresentadora, eu era parte do público. E sempre me perguntava: esse festival faz parte do calendário nacional dos grandes festivais? O que falta para que ele esteja nesse mapa? Então, saio da frente do palco e vou para os bastidores, vou à procura das respostas baseada no termômetro de presença total dos artistas no evento. Observava a energia de cada um dos artistas, a forma de interagir com a produção e tratamento com o público e com o próprio evento. Eu não tinha como comparar este festival de inverno com os demais, pois eu não consigo ainda, viajar para conhecer outros festivais pelo Brasil. Acompanho muito pela tv, e, comparando o que vejo com o que vivencio em Pedro II, posso afirmar: o Piauí resiste na busca por esse selo, o de ter festival carimbado no passaporte do público brasileiro. O festival de Pedro II é peculiar, é tradição manter o palco principal numa praça que fica tomada de gente.

Vou fazer um combo de perguntas: queria saber mais sobre sua história e formação em teatro, dança e cinema. Em que projetos esteve envolvida nesses últimos anos? Como é ser artista num Estado que a busca por formação de plateia ainda é um desafio?

Esse conjunto de perguntas ativa muitas imagens ao mesmo tempo, rs. A dança foi o portal de entrada para o mundo das artes. Comecei aos 16 anos, ao ser aprovada em um teste para o corpo de baile de um programa de TV local. Eu nem sabia que tinha talento. Fui descobrindo o meu corpo enquanto dançava como gente grande em um programa que entrava nas casas de todo o Piauí.

A partir de então, ganhei uma bolsa de estudos de balé clássico na Escola de Ballet Helly Batista, à qual sou grata até hoje. Lá fui bailarina do corpo de baile, professora, e também dançarina árabe — outra paixão que fui descobrindo pelo caminho. E, então, todos os movimentos da vida foram me conduzindo a novos desafios.

Comecei a fazer teatro como atriz convidada no Coletivo Piauhy Estúdio das Artes, lugar onde posso dizer que me formei como artista do teatro. Com muito amor e dedicação à dança e ao teatro, surgiu a oportunidade de atuar no cinema. Fui aprendendo a atuar no próprio set de gravação. Até hoje, realizei quatro filmes sob a direção de Cícero Filho.

Ultimamente, as consequências de saúde do corpo não me permitiram continuar atuando na dança, mas consegui me dedicar mais ao cinema. Gravei o filme Babaçu Love, com estreia prevista para 2026, ao lado de Whindersson Nunes, Lailtinho Brega e tantos outros artistas. Também participei do documentário Mundo Amapá – A nova fronteira da Amazônia, para o Governo do Estado do Amapá para a COP-30. Nesse trabalho, percorri de norte ao sul do estado. Atuei como experienciadora, pesquisadora e autora do livro que dá origem à série de seis episódios. Como divido meu tempo com o trabalho de mestre de cerimônias do Governo do Estado – uma função que exige dedicação exclusiva – vou tentando encontrar brechas para continuar respirando a arte.

Sobre formação de plateia, desde que me entendo por gente, falamos sobre este assunto. Nós, artistas, sempre reclamamos da dificuldade de formar um público assíduo que valorize a arte local. Mas, afinal, que tipo de plateia buscamos? Essa formação de plateia é comparada a qual outra plateia? O público está sempre em movimento; nunca é o mesmo. À medida que o artista muda e amadurece seu propósito de fazer arte, ele acaba capturando outro público, atravessado por novas realidades sociais e políticas. Fazer arte não é fácil, nunca foi! Mas, se uma obra consegue alcançar o maior número possível de pessoas, então o caminho está certo. E quem não quer ter recorde de público em suas obras?

Formar plateia, talvez, não seja convencer alguém a gostar do que fazemos, mas criar pontes possíveis entre a obra e a vida das pessoas. É um exercício constante de escuta, de adaptação, de coragem… Porque fazer arte é também aceitar o risco: o risco de não agradar a todos, de provocar incômodo, de gerar perguntas em vez de respostas, e por aí vai! Penso que não podemos considerar o tamanho da plateia, mas pela potência do encontro que a arte é capaz de produzir.

Como você analisa a presença das mulheres no jornalismo piauiense? É uma área em que os homens predominam ou temos avanços no que se refere a ocupação feminina no setor?

Pensar o jornalismo piauiense é acreditar que o futuro pode ser agora. Ainda é perceptível como, até hoje, os homens dominam o jornalismo enquanto proprietários dos veículos de comunicação. Muitos deles ocupam os principais cargos de decisão como direção e coordenação. Enquanto as mulheres, em sua maioria, permanecem em subcargos, frequentemente com salários mais baixos.

Nos últimos cinco anos, no entanto, venho percebendo mudanças importantes.

Vejo cada vez mais mulheres atuando como repórteres, apresentadoras, chefes de redação e diretoras de jornalismo. Essas mulheres sempre estiveram lá: trabalhando nas redações, sustentando a rotina da notícia e lutando diariamente por reconhecimento. O que muda agora é a visibilidade dessa representatividade, que começa, ainda que lentamente, a ganhar espaço.

A virada de chave aconteceu, sobretudo, durante a pandemia. Em um dos períodos mais desafiadores da história recente, muitas jornalistas estiveram na linha de frente da informação. Mesmo correndo riscos, foram às ruas, estudaram dados, ouviram especialistas e traduziram a complexidade da Covid-19 e de suas consequências de maneira mais direta, humana e sensível. Elas se tornaram a ponte entre a informação técnica e a vida real das pessoas.

Falar sobre a presença da mulher no jornalismo já é, por si só, uma pauta necessária. Mas falar da mulher PRETA no jornalismo é entrar em outra camada dessa discussão. Ainda percebo que muitos veículos não demonstram uma preocupação real em garantir espaço para mulheres pretas. Não apenas pelo que elas representam simbolicamente, mas pela responsabilidade histórica de reparação e pela potência transformadora de suas vozes.

A presença da mulher preta no jornalismo traz muitas reflexões… Amplia os pontos de vista sobre temas sociais, políticos e culturais, contribui para o enfrentamento do racismo e, sobretudo, ajuda a construir novas narrativas na comunicação. Narrativas mais plurais. A desigualdade racial tem raízes históricas profundas no Brasil e, claro, no Nordeste. Pensar o jornalismo feminino piauiense do presente e do futuro passa, necessariamente, por reconhecer essas mulheres, abrindo espaços reais de decisão e compreender que diversidade não é concessão.

A cada dia que passa percebemos uma série de mudanças na forma como as pessoas lidam com os meios de comunicação. Seja com o impacto que as plataformas de streaming provocam sobre a TV aberta ou na compra de mídias físicas (como livros e CDs, por exemplo). Para você, aquele velho hábito de assistir jornal, novela ou programas em gerais na TV em casa estão com os dias contados? Como percebe essa dinâmica nos dias de hoje?

Estava pensando sobre isso esses dias. Raramente ligo a TV quando estou em casa. Passo, no máximo, três dias por semana em casa e, quando ligo a televisão, geralmente é para acompanhar alguma notícia extraordinária ou recorrer ao streaming para assistir a um filme ou a uma série específica. Na maior parte do tempo, vou para os livros.

Fico pensando se esse meu comportamento é tão diferente assim do de outras pessoas que também levam uma vida corrida fora de casa como a minha. O que mudou, na verdade, é a forma como nos relacionamos com o conteúdo. Já não sigo com tanta facilidade o roteiro de uma novela, nem me prendo a uma programação fixa. Prefiro escolher o que assistir, quando e como.

Não acredito que essas novas possibilidades de streaming vão exterminar a TV aberta. Pelo contrário, vejo esse momento como a abertura de novas formas de pertencimento à mídia. O nosso leque de conhecimento se amplia, assim como as possibilidades de escolha. Hoje, o público não é mais passivo; ele transita entre telas, linguagens e formatos, na busca da identificação.

Mas uma coisa é certa: a televisão precisa, urgentemente, inovar. Precisa pensar o tempo todo em propostas diferentes para continuar ocupando um lugar afetivo e significativo na prateleira de escolhas do telespectador. Não basta apenas informar ou entreter, é preciso dialogar, provocar e acompanhar as transformações do mundo e da gente, sem perder a identidade com a chegada da inteligência artificial.

Sei que é uma leitora atenta e sempre tem um livro por perto. Que leituras recentes te marcou e como concilia o hábito pelo amor aos livros em tempos de imperialismo digital?

Sou apaixonada por livros. Vou te contar uma história.

Recentemente, ministrei uma palestra sobre racismo em uma escola municipal de Teresina, para crianças do ensino infantil, entre 6 e 9 anos. Em determinado momento, uma dessas crianças me perguntou de onde surgiu a minha paixão pela leitura.

Lembro que minha voz embargou e eu comecei a chorar — assim como estou agora, enquanto respondo a você. Quando eu era criança, sonhava em ter uma biblioteca. Queria muitos livros, queria senti-los, cheirá-los, tocá-los. Mas a condição financeira dos meus pais não permitia isso. Muitas vezes estudei sem ter os livros paradidáticos que a escola solicitava. Essa ausência foi se acumulando dentro de mim como uma dor silenciosa, mas persistente. Talvez minha paixão pela leitura tenha nascido da falta. Da ausência que virou desejo.

Para preencher esse vazio, comecei a criar meus próprios livros. Recortava folhas de caderno, grampeava, escrevia histórias, poemas, pensamentos… Pareciam pequenos livros de bolso. Ali, sem perceber, eu já estava criando meu próprio caminho de leitora e autora.

Quando comecei a trabalhar com a dança, aos 16 anos, com os cachês, passei a comprar livros. Lembro da minha primeira viagem com a companhia de dança para Fortaleza. Com o dinheiro que tinha, comprei alguns livros. Um deles guardo até hoje: “Declaração de Amor – Canção de Namorados, de Carlos Drummond de Andrade”. Li tanto aquele livro que cheguei a decorar quase todos os poemas. rsrs.

Desde então, nunca mais parei. Passei a comprar livros sempre que podia, a ganhar outros, e me esbaldava em leituras. Hoje, tenho uma pequena biblioteca com mais de 300 livros, dos mais diversos gêneros: biografias, poesias, romances, pesquisas. Nos últimos meses tenho lido os seguintes livros: “O Pacto da Branquitude”, Cida Bento – O livro analisa de forma profunda como os privilégios raciais são historicamente mantidos no Brasil por acordos silenciosos que beneficiam as pessoas brancas.  O outro livro é “A contagem dos sonhos”, Chimamanda Ngozi Adichie, é um romance maravilhoso que entrelaça histórias de amor, deslocamento e identidade, que reflete sobre os impactos do racismo e do colonialismo na vida contemporânea.E no momento estou finalizando o livro “A loteria do Nascimento – A filha do porteiro termina universidade, mas não alcança filho do rico”, de Michael França e Fillipe Nascimento, que mostra como a origem social determina oportunidades no Brasil, revelando que esforço individual não basta para superar desigualdades estruturais.

E por gostar e querer que todos tenham a oportunidade de conhecer novas leituras, criei um perfil no instagram intitulado @leituraem1minuto. O desafio é falar do livro em apenas um minuto. Estou curtindo muito!

Umas das iniciativas mais incríveis que acompanhei como espectador foi te ver realizando o projeto de videocast Presença Preta. Fazer entrevistas com personalidades que fazem a história contemporânea do nosso Estado é urgente. Me fala como tudo começou. Queria saber dos passos que deu na criação desse trabalho e qual foi o impacto dessas entrevistas na reconstrução da sua leitura sobre a importância das mulheres negras no Piauí.

Presença Preta é um dos projetos mais lindos que eu tenho. Sempre tive o desejo de conversar com mulheres pretas na televisão. Nos encontros diários com mulheres pretas representativas do Piauí, eu ouvia coisas extremamente importantes. Cada conversa era uma aula. Elas diziam coisas pertinentes, que me faziam, a cada encontro, me reconhecer e me afirmar ainda mais como mulher preta. E então veio a pergunta: por que não falar sobre tudo isso em formato de videocast? A partir daí surgiu a parte mais difícil, e também a mais bonita do processo: definir a quantidade de episódios, que acabou se consolidando em seis, além de escolher os temas e as convidadas. O universo foi generoso, e tudo se encaixou perfeitamente.

Abrimos a temporada com Sônia Terra, abordando o tema “O lugar da mulher preta é onde ela quiser”. Em seguida, recebemos a empresária e modelo Vanessa Vasconcelos, que falou sobre empreendedorismo e a mulher preta. O terceiro episódio trouxe um tema delicado e necessário, “A solidão da mulher preta”, com Halda Regina. No quarto episódio, falamos sobre “Expressões Raciais”, com a pesquisadora Francisca Nascimento, e encerramos a temporada com Assunção Aguiar, discutindo “A hipersexualização do corpo preto”.

Foram temas profundos, ricos em dados, experiências, vivências e apropriação de conteúdo. As convidadas são mulheres representativas e fundamentais para a história preta que estamos construindo no Piauí. Sem contar que são amigas e tenho o mais profundo respeito. O projeto conta com a produção de Mariah Santos, uma mulher sensível, atenta e com uma escuta generosa para o audiovisual, sobretudo para o conteúdo.

O projeto deu tão certo que se expandiu: chegou à televisão aberta, sendo veiculado na TV Cidade Verde. Posso afirmar que este é um dos primeiros programas da TV aberta a dedicar cerca de 50 minutos por episódio exclusivamente à discussão de temas raciais. O Presença Preta rompe barreiras e mostra, de forma honesta, direta e leve, o quanto o racismo precisa acabar e o quanto o diálogo é uma ferramenta poderosa de evolução.

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