Curadoria e tradução de Floriano Martins
Belkys Arredondo nasceu em Caracas, Venezuela, poeta, jornalista e editora. Publicou Sagita (1998), Abecedario roto (1999), De un grano de arena saldrá un pájaro (2001), Cóncavo (2005), a ras del vidrio (2008), El llamado de los grillos (2012), Cayenas (2016). Ejercicios de Vuelo (2021). Incluída em várias antologias, entre as quais se destacam: Cantos de fortaleza (Madrid, 2016). Toma tu copa de agua (Chile, 2024) e Azulejos (Venezuela, 2024). Em 2008, ganhou o 1º Prêmio Internacional José Rafael Pocaterra. Em reconhecimento à sua obra, foi premiada em 2012 pelo Círculo de Escritores da Venezuela com a Medalha Internacional de Poesia Vicente Gerbasi. Há cinco anos, reside na cidade de Nova York, Brooklyn.
CAÇAR ESCARAVELHOS
no virtual dos olhos abertos
há cabos indiferentes por onde corre a vida
um quadro ao ar livre com aviões de giz
uma flor amarela pintada no asfalto
onde amanhece cedo e anoitece tarde
quem poderia viajar em silêncio
caçar besouros
ganhar distâncias
reviver minha cidade de sua morte anunciada
torcer o pescoço do dia
LARANJAS
vi o de sempre
um espelho que torna minha casa grande
os ouros da lembrança,
pedaços de pão que indicam o caminho
e como Alice fui
vi o de sempre
um cartão postal com um coração caindo
meus ombros cheios do que circunda a terra
laranjas como o que brilha aqui
e silêncio aos grilos pelo dourado do turpial
para que volte o jardim e sua espessura
como a areia volta do mar.
AUSÊNCIA 1
a casa a olha
com olhos de menina amanhecida
a noite toda foi uma flor aberta
a noite toda
rangiu nas madeiras
soou nas janelas
envolta
depois de esgotar o corpo
tutelada pelo voo
descansa
AUSÊNCIA 2
de pé deixa-se habitar
pelo silêncio
deixa correr as águas
talvez se lembre do seu primeiro ocupante
outro parte
soa a geladeira
seu cric crac choca entre si
e o intangível da noite
lhe promete outro dia
AUSÊNCIA 3
um espelho torna a casa grande
junta assim o de dentro e o de fora
raio o torso do seu coração
com um pouco de amor
e vejo imóvel
desaparecer as paredes brancas
silêncio aos grilos
que gritam, que guincham
e se tornam sapinhos
com o fluir da água
O PESO DO PÁSSARO
queres um caminho limpo
a celebração das florestas
um amor para sempre
um piano para tocar
tens as tulipas de casa
todos os teus livros antigos
o cair e subir dos pássaros
pássaros tão sozinhos
tão eles mesmos
na orquestra do jardim
EU VOU A PÉ QUANDO ESCREVO
não é preciso inventar nada
tudo está lá sustentando
um perfil que se desvanece
passo pelo buraco de uma parede de pedra
dou tempo ao sagrado
encontro as cores de ser amanhã
a escuridão de ser noite
aqui nada se perde
a roda devolve tudo
CONTAR PASSOS
toda rosa diz
o que há tempo sabe
como se não soubesse
com sua cabeça de organza
toda
colada ao cinza
não volta a subir o que já foi percorrido
e um vidro faz a pantomima
a menina anterior
gagueja com os olhos ávidos
e a giesta das varandas
a torna transparente
A FONTE
respira o branco
do que ainda não conhece
e que está lá
esperando um nome
as lascas com cheiro trazem a chuva
uma força direciona o fogo para o centro
detém nas pupilas o que não se realiza
e mede o que está prestes a se quebrar
torna elástico o desejo



