Curadoria e tradução de Floriano Martins
Poeta, ensaísta e crítico literário dominicano. É doutor em filosofia pela Universidade do País Basco, professor da Universidade Autônoma de Santo Domingo e membro correspondente da Academia Dominicana de Línguas. Foi professor e pesquisador visitante na Universidade de Orléans, França, onde sua antologia de poesia, Revés insulares, foi publicada em edição bilíngue pela editora Paradigme em 2015. Foi assistente de ensino na Universidade Estadual do Novo México. É também autor das seguintes obras: Sueño escrito (Prêmio Nacional de Poesia Salomé Ureña, 2002), Los pliegues del bosque (poesia, 2008), Piel del aire (poesia, 2011), Oficio de arena (microficção, 2011), Soberanía de la pasión (ensaio, 2012), Prácticas de sueños (poemas em prosa, 2014), El imperio de la intuición (ensaio, 2013) Escrito en el vacío. Máximas, Aforismos e Provérbios (2017), El lince y el arco iris (microrrelatos, Huerga & Fierro, Madrid, 2019), Ritual de las ideas (artigos, 2018), El ojo de Ion: poesía y filosofía (Prêmio de Ensaio de Funglode, 2020), Octavio Paz: temporalidad y soledad (ensaio, Banco Central, 2021), La intemperie (poesia, Isla Negra, Puerto Rico, 2022), Todo es aire. Antología poética personal (Huerga & Fierro, 2023), El huevo roto y la razón (Huerga & Fierro, 2025), entre outros. Editou e coeditou diversas antologias de poesia dominicana, tanto no país quanto no exterior. Foi o diretor fundador da revista País Cultural, publicada pelo Ministério da Cultura. Atualmente, é diretor da revista In-Arte da Faculdade de Artes da UASD, além de professor dessa faculdade e da Faculdade de Ciências Humanas há mais de 25 anos.
A VOZ DO CARACOL
Escrevo sem escrever
Finjo escrever
para ouvir a voz do caracol
Escrevo que escrevo
Escrevo como sonho
Ouço o sangue dos meus pais correndo
e acordo que escrevo
É hora de silenciar
para que a escrita possa falar
PÁLPEBRAS COLADAS
Costuradas
Com as pálpebras coladas
Vamos ou caminhamos
Com máscaras faciais
Como figuras mascaradas
Ao som dos sinos
Assim
Chocando
Uns com os outros
Caminhamos sem estar
Sozinhos
Apenas com a fumaça podre
Entre as cinzas e o veneno
Nos trancamos
Todos dentro
O mesmo medo
Este horror de beijar
Mudos e respirando pela metade
Saímos
Para procurar o alimento que nos mata
Em busca de antídotos
Contra uma saúde de nada
O isolamento do corpo vale seu peso em ouro
Não custa nada voar na alma
Aqui
Neste espaço de fumaça
Nenhum tempo aquático
Nos revela.
BRILHO DOS INSTINTOS
Agora entendo que o mundo se possui
HUGO VON HOFFMANSTAL
Da minha varanda arejada
Respiro
Dia e noite
Um ar visível
Que dissipa o ruído
Em quarentena
Música e livros
Cantam e falam
Silêncio
Acordo e sinto meu próprio cheiro
O ar passa e não passa
A vida permanece e não permanece
O corpo se ergue
E o coração permanece adormecido
Da casa do vento
Nada se sente
Apenas o brilho dos instintos.
JARDINS DA INSÔNIA
Durmo como um gato
Voo baixo sobre o rio
sobre os jardins da insônia
Há um aqui
que desmorona
Uma música
que se desvanece
entre luzes e alfabetos
O tempo canta
e sua queda
desperta os relógios e seus espelhos
Do meu quarto flutuante
e paredes abertas
a noite é um labirinto
um eco abafado
Entre torres, praças, lojas
Livrarias, mercados, farmácias
Hospitais, postos de gasolina, lojas…
Vejo uma única baforada de fumaça
dissipar-se diante dos meus olhos.
SILÊNCIO E PALAVRA
As palavras voltarão a existir
Só o silêncio será silêncio
quando se tornar palavra
O silêncio fala
Sua música é
Diz o que canta
Significa o que silencia
O silêncio nunca mais será silêncio
As palavras se transformam em fumaça
e à fumaça
devolverá seu silêncio.
CÉU SILENCIOSO
Durmo sozinho com um olho aberto
e um pé cruzado sobre o outro
Assim acordo e adormeço
com um olho preso à insônia
Um corpo sem vida
Em um sono profundo, a luz
e um céu silencioso de fumaça
me despertam
Como um bom soldado
uso armas invisíveis
Peito a peito
Deixo-me cair na insônia.
SILÊNCIO DAS NUVENS
Caminho atrás
Da lua
Sob a noite
Em meio
À minha sombra
Que se reflete
Nos meus olhos
Caminho sem caminhar
Contra a luz
E em contra-espelho
Alongado
Meu corpo como um rio
Mede a hora
Que é inventada
É recriada
E é desenhada
No crepúsculo
Caminho como um sonho
Neste quarto
Onde
Só se ouve o silêncio das nuvens.
O VOO DO NADA
Tempo para matar as horas
Horas para matar o espaço
O tempo permanece
O nada voa
É o dia de criar as horas
É o tempo de silenciar o tempo
O sangue flui sem passar
e o que escrevo agora
num instante
se tornará tempo
O sol é breve e não me toca
Ele foge e mata o tempo.
ILHA NO AR
Ninguém é mais solitário do que um ilhéu. O habitante de uma ilha está isolado porque a água o separa do mundo. O ilhéu é mais compassivo do que uma pessoa do Mediterrâneo porque não conhece o continente. Sua experiência de vida é cercada, isolada. O mundo é uma ilha. O ilhéu se alimenta do espaço: ele tem sede de viajar e voar. Ele nasce com asas e carrega um barco no coração. Uma ilha não tem fronteiras e seus habitantes se alimentam do sal do mar. Uma ilha é um pássaro cercado por asas por todos os lados. Cada ilha é um ponto que navega e flutua no Cosmos. Todos nós somos ilhas. O mundo é uma ilha. O mar é uma ilha rodeada de terra. O sol é uma ilha no céu com o seu lago, a lua. Tal como as estrelas, que são olhos no céu, as ilhas são arquipélagos de sal e areia. Uma ilha é a metáfora da viagem, da contemplação do possível, do sonho de Thomas More. Todos os mares nascem e morrem em ilhas.



