Curadoria e tradução de Floriano Martins
Lizette Espinosa (Havana, 1969) publicou as coleções de poesia Donde se quiebra la luz (Eriginal Books, Miami, 2015), Por la ruta del agua (El Ángel Editor, Equador, 2017), Humo (Bokeh, Holanda, 2019), Lumbre (Plaquette, AlphaBeta, Miami, 2019) e Como quien nada teme (Summa, Peru, 2023), traduzido para o italiano como Come Chi Niente Teme e publicado pela Difelice Edizioni em 2025. Seus trabalhos em coautoria incluem Pas de Deux (2012) e Rituales (2016). Sua poesia aparece em antologias na Espanha, na América Latina e nos Estados Unidos. Ela colabora como editora em diversos blogs e revistas literárias e participou de festivais e recitais de poesia no Equador, Chile, Peru, México, Uruguai, Bolívia, Portugal, Espanha e Itália. Desde 2003, reside em Miami, onde trabalha profissionalmente com projetos de engenharia e topografia.
OUTRA CRIATURA DA ILHA
Parece que fugimos do centro da terra,
viajamos até a costa,
caminhamos por suas margens
até encontrarmos o ponto mais próximo da fé.
Para parecermos aqueles que buscam
ou aqueles que esperam,
pisar na umidade, naquilo que afunda
até encontrarmos as mãos
daqueles que construíram nossos lares.
Disseste para ancorar
e em teus olhos as velas pareciam se dobrar.
Disseste para esquecer, para semear, para se estabelecer,
eu vi os pássaros partindo para o oeste,
as crianças na areia encerando a madeira
que já haviam encerado antes.
Disseste para criar raízes, para se desvencilhar,
que uma estação não segue mais a outra,
uma rua é esquecida em outra rua.
Disseste de frente para o mar: tempestades acontecem
para ordenar as coisas,
eu vi as nuvens se reunirem no céu.
REENCARNAÇÃO
Éramos mãos,
despojamos o dia até sua exaustão,
e retornamos vestidas de pétalas e talos comestíveis,
espinhos que dilaceraram as línguas dos deuses.
Éramos filhas,
sementes caídas da cesta do pai,
mas agora
nos atiram ao fogo para extrair nossa fragrância.
Éramos palavras que não foram ditas.
CEMITÉRIO
Contorno aquela paz desconhecida,
Maio em meus olhos, ardente, ilimitada,
e ainda assim desolada.
Além do portão, clarezas,
a grama vibra sobre o solo árido,
rosas e anjos coroam o que foi esquecido.
Há um muro, um busto, uma mortalha,
uma lápide clama o nome que a fere
enquanto atravesso o portão do que permanece silencioso,
envolto em suas próprias mortes, ladainhas,
envolto em pausas, lentidão eterna.
E como é vivo o enxame de vozes
roendo a carne adormecida!
Rumo ao ritual, rumo ao nada,
a piedade me fita com olhos de alabastro.
TEMPLOS
Estas são as paredes que pulsam e respiram
que guardam a pira como homens.
Tantas mãos florescem na madeira,
e talvez tanta sombra no limiar,
murmúrios de outras vidas
que se intensificam como chuva.
Aquele que chega, chega e parte,
aquele que nasce, nasce e foge,
apesar das canções,
apesar da hera que abraça
a quietude dos ídolos.
Saíram para caçar, voltaram sem as armas,
o mundo estava cheio de animais estranhos.
Aquele que reza, reza
e queima.
BIG SUR
É a quebra frenética da pedra,
sua queda vertiginosa em direção ao desfiladeiro.
A onda crucial que desfoca a lente,
a curva que desaparece na névoa.
É o cervo, sua terra natal,
enquanto ele atravessa sem pressa o trecho de asfalto
diante da incerteza dos homens.
A silhueta de Jack à beira do abismo
contemplando a vastidão que o sustenta.
É o modo como a luz incide daquela ponte
para que eu possa celebrar minha completa insignificância.
HIBERNAÇÃO
Senhor, a casa se tornou um corpo
e agora é uma companhia estranha,
um país para hibernar
onde a vida é um pássaro
que não encontra lugar
e a sombra do homem mais próximo
é uma ponte para o abismo.
Não me deixes despertar,
o dia se tornou um rio sem fim
onde todos afundam,
não me deixes adormecer
sem uma prece subindo aos meus lábios.
Concede-me o esquecimento,
o retorno à semente e à sua minúscula terra,
permite-me a dor.
Porque lá fora, a noite é a noite mais escura,
e nela o mundo e seu delírio se dissolvem,
porque o canto da morte alcança meu pátio,
e minha boca está seca,
minha mão fechada,
como a folha que cai antes de ser levada pelo vento.
HERANÇA
Semeamos pouco na infância,
talvez tenhamos reunido resquícios ancestrais,
aquele distanciamento do outro e de sua necessidade.
Crianças que perpetuaram o medo de seus pais,
presas ao resistente arame farpado de uma casta,
para não trair
aquela antiga fidelidade à tristeza.
Que vinho é este que bebemos sozinhos,
e que enche nossas bocas de choro silencioso?
Destilar sua amargura gota a gota,
encontrar o frágil ossinho da linhagem,
e não saber como quebrá-lo.
UM SILÊNCIO EM VOZES ALTAS
Para Vivian Maier
O que o teu olhar não persegue,
o que a tua clareza não conseguiu salvar do cansaço,
permanece no tecido de outro tempo.
Imagens do homem preso em seu caos,
sua sanidade mínima.
O que a tua sombra não resgata permanece preso à sombra,
sentindo o infinito aqui tão perto,
neste claro-escuro de dias
que deixam sua marca e sua tristeza,
sem que talvez vejamos o que vemos,
e mal discernindo
aquele enorme silêncio que nos cerca.
Caminho pela Michigan Avenue atrás do teu sobretudo escuro,
tua mão possuída,
e há um segundo, há um gatilho.
EM UMA AMPULHETA
Esta queda quase imperceptível
onde outros corpos às vezes me sustentam.
Este instante de luz onde eu te reconheço
e caímos abraçados pelo mesmo terror.
Eu rolo, eu sei,
o tempo é outra coisa,
lá em cima, alguém desfaz vidas.
FUGA
Eu era a casa e o eco,
a rua,
a luz do poste nas minhas costas,
a amendoeira em flor
e a semente nos olhos do corvo.
Eu era a porta
e por mim todos fugiram.



