Elys Zils é poeta, artista visual, tradutora e editora. Publicou os livros de poemas Fragmentos de silêncio (2024) e a língua aprende a morder (2026). É editora da Agulha Revista de Cultura (2023), revista criada por Floriano Martins, e fundadora da Editora MamaQuilla, dedicada à publicação de literatura latino-americana.
Traduziu para o português Os elementos terrestres, da poeta costa-riquenha Eunice Odio, e Druida, da uruguaia Marosa di Giorgio, ambos publicados pela Sol Negro Edições. Em coautoria, publicou O surrealismo no Brasil: uma história subterrânea.
Sua escrita transita entre poesia, imagem e linguagem, explorando as relações entre corpo, memória, desejo e poder. Contato: [email protected].
engenharia do consentimento
na rua
mãos erradas
em casa
facas limpas
na igreja
silêncios ajoelhados
a família
passa o pano
uma engenharia
do consentimento
costurada na pele
há séculos
ensaiada
nascemos
marcadas
algumas
aprendem
a respirar
outras
confirmam
a estatística
língua da serpente
sabia
a língua da serpente
e das folhas
o corpo
aprendia
escutando
curava
mulheres
com receitas
sem carimbo
parteira
do que vinha
e do que ficava
ia
de casa em casa
aldeia em aldeia
como quem leva
água
sabia
onde doía
então
o mundo
vestiu batina
quatro séculos
acendendo mulheres
chamaram
de fé
a igreja
afinou os sinos
para que o fogo
soasse santo
gestão eficiente do corpo alheio
do corpo
aproveitamento total
coxas — uso contínuo
rabo — valor simbólico
pés — nicho fetichista
seios — função nutritiva
útero — investimento de longo prazo
cada órgão
indexado
cada desejo
terceirizado
o corpo entra
como ativo
ela
como despesa
quando pergunta
quanto vale
o mercado responde
— depende
do corte



