Sara Pardo Del Río, Jornalista (Colômbia)
A paz é aquilo que resiste a ser enquadrado; a paz não reconhece partidos políticos, a paz não é comunista, tampouco de extrema direita. A paz é que cada família possa ter um prato de comida quente na mesa, a paz é que uma criança não vá para a guerra, que os homens não sejam silenciados e que um estudante não precise reivindicar um passe estudantil para o transporte público. A paz não entende de fenômenos de ultrarriqueza; a paz entende a humanidade como todo aquele que possa ter direito ao trabalho, direito de sonhar, direito de votar sem distinção de gênero, direito de amar a quem lhe der na telha.
A paz não entende de injustiças nem de raças; a paz deveria ser que cada mulher vista o que bem entender no Irã, no Iraque ou na Palestina. A paz é que os sionistas deixem de viver no passado e que os muçulmanos entendam que o mundo já não entende nem compreende o seu machismo irracional. Pode ser que eu seja muito progressista, mas não aguento mais um Che Guevara de Rolex, nem um fascista brincando de casinha enquanto bate na mulher e fode um gay que depois ele tem que matar se acabar se apaixonando. Então… Como você me diz para votar em uma direita para a qual convém a ignorância e o silêncio sistemático do seu povo, ou em uma esquerda que deixa os cubanos sem luz quando esquentam o peixe ou que escraviza os chineses em fábricas nas quais não têm tempo nem para urinar? Como me dizem para acreditar em bipartidarismos absurdos que propõem a paz e a politizam como instrumento de campanha, como se fosse um prêmio que se deve ganhar e não um direito que nos corresponde?
A paz não entende de ideologias, ou não deveria. A paz deveria ser que cada um possa ser milionário sem sujar as mãos de sangue. A paz deveria ser poder falar sem que exista um Videla que te mande calar a boca em uma manifestação ou te faça desaparecer, ou uma Falange que com dois tiros silencie os poemas de García Lorca; tampouco deveria ser os falsos positivos na Colômbia, e muito menos o tráfico de pessoas no México.
Vai ser, então, que a paz é um prêmio que coloca muitos de nós para correr como cachorrinhos com fome, implorando ao dono do estábulo que nos bate por um pouquinho? Como a paz pode ser um partido político, se quando há um terremoto os ricos e os pobres perdem a sua casa, ou na guerra qualquer um dos dois lados perde um filho? Como me dizem o que devo ser para poder ter paz em um mundo que faz dinheiro colocando na guerra as crianças alheias, homens que quiseram amar alguma vez, músicos que são mortos com o mesmo violão com o qual cantam e protestam?
Mas o que vocês vão entender de paz, se começam a dar credos e santos de poder aos mesmos que lhes presenteiam com a guerra?




Texto IR-RE-PRO-CHÁ-VEL! Para ser lido e relido toda vez em que titubearmos em nomear e denunciar a atrocidade e a vergonha das guerras.