Por Januário Sacavento
Em um cenário literário frequentemente dominado por narrativas de consumo rápido e estéticas realistas que buscam espelhar de forma literal as misérias do cotidiano, a poesia de Floriano Martins surge como um monumento de insubmissão. Publicado em 2026, seu livro Obra Prima da Confusão Entre Dois Mundos, pela Editora Primata, não é apenas uma coletânea de poemas, mas um manifesto vivo da permanência e da evolução do surrealismo na contemporaneidade. Dividido em três grandes seções estruturantes — “A Mais Antiga das Noites”, “A Ponte Encoberta pela Poeira do Tempo” e “O Mais Antigo dos Dias” —, o volume se propõe a rasgar o véu que separa a lógica racional do abismo onírico, convidando o leitor a habitar a instabilidade.
O título já antecipa o cerne da investigação do autor: a confusão aludida não é sinônimo de caos desordenado ou imperfeição formal, mas sim o ponto de fusão alquímica entre duas esferas que a modernidade tentou separar a todo custo. De um lado, temos o mundo orgânico, a precariedade dos dias, o lixo acumulado pela civilização, as contas a pagar e os corpos que suam na terra solta; do outro, ergue-se o reino dos mitos, das constelações, das divindades arruinadas e das quimeras que habitam a medula humana. Floriano Martins atua como o mestre de cerimônias desse cruzamento perigoso, operando através de uma escrita visceral, plástica e profundamente original, onde o verso livre se transmuta em uma coreografia de sombras e revelações.
Para compreender a densidade desta obra, é imperativo contextualizar a figura de seu criador. Floriano Martins (Fortaleza, 1957) é um dos intelectuais mais multifacetados e incansáveis da cultura brasileira atual. Atuando como poeta, editor, dramaturgo, ensaísta, artista plástico e tradutor, sua trajetória confunde-se com a própria história da resistência do pensamento mágico e surrealista na América Latina. Fundador da histórica Agulha Revista de Cultura em 1999 e curador de iniciativas continentais como o “Atlas Lírico da América Hispânica”, Martins construiu pontes indestrutíveis entre as literaturas de língua portuguesa e espanhola, tendo traduzido nomes fundamentais como Vicente Huidobro, Federico García Lorca, Jorge Luis Borges e Enrique Molina.
Sua tridimensionalidade artística — expressa na fusão constante entre a palavra e a imagem plástica — reflete-se diretamente em Obra Prima da Confusão Entre Dois Mundos, onde ele próprio assina a identidade visual, transformando o livro em um objeto estético total. Com dezenas de livros publicados ao redor do mundo, o autor traz para este volume de 2026 a maturidade de quem sabe que a arte não serve para explicar o tangível, mas para dilatar a nossa percepção e nos devolver o direito ao enigma.
O primeiro grande eixo temático que sustenta a obra é a completa dissolução de uma identidade estável. No poema “Uma Única Explicação”, o eu lírico clama de forma quase desesperada à sua interlocutora: Nunca me digas meu nome […] nunca me deixes saber quem sou. Essa recusa em ser rotulado ou fixado em um papel social, biográfico ou existencial reverbera por todas as páginas do livro. Em “Lapsos de Sombras”, o texto decreta com precisão cirúrgica: Nosso verdadeiro nome é deslize.
Para Floriano Martins, a existência não comporta uma essência imutável. O sujeito poético de seus versos prefere assumir-se como uma colagem de ausências, uma criatura mutante que absorve as vidas daqueles que o antecederam, como se lê em “A Mais Antiga das Noites”: Eu sou todo mundo que morreu antes de mim. A identidade, portanto, é tratada como um espelho partido. Cada fragmento reflete uma máscara diferente, e o papel do poeta é justamente o de trocar os números à porta dos camarins, permitindo que os personagens de si mesmo decidam quem os representará a cada noite. Ao mesmo tempo em que o autor escreve com uma autoridade imagética avassaladora, ele questiona se a palavra é capaz de conter o ser. A resposta é frequentemente negativa, o que o leva a celebrar o erro e o desvio como as únicas frestas possíveis por onde a alma pode se refazer.
Uma das armadilhas mais comuns ao ler a poesia de Floriano Martins seria tentar separar sua obra em gavetas estanques, isolando uma suposta vertente filosófica de uma vertente erótica. Em Obra Prima da Confusão Entre Dois Mundos, o autor recusa essa clivagem. O erotismo e a filosofia não caminham em paralelo; eles são a mesmíssima substância. A carne — manifesta em coxas que se acendem, seios que cometem perjúrio e línguas que calam o destino — é o verdadeiro laboratório onde se processam as maiores indagações existenciais do livro.
Em “Uma Blasfêmia Sensual”, o corpo nu é elevado ao status de traje sagrado, permitindo ao indivíduo adentrar o confessionário do acaso. Em sua reflexão metafísica sobre o tempo, a perda e o esquecimento não se dão no isolamento do pensamento abstrato, mas sim no ápice do contato carnal. No poema “Cedo ou Tarde o Mundo Passa por Aqui”, o orgasmo e a criação poética fundem-se em um pensamento cósmico: Selo teu destino em minha língua, vinho que regressa / à cena em que esmago uvas em teus seios espantados.
Para Martins, tocar o corpo do outro é uma experiência de conhecimento profundo, um ato de desobediência contra a apatia do mundo. A carne é o próprio solo onde a filosofia surrealista se materializa; pensar o mundo é, inevitavelmente, desejá-lo e mastigá-lo através dos sentidos.
Essa mesma recusa ao isolamento purista se estende, de forma brilhante, para o ponto de vista formal da obra. Floriano Martins opera um hibridismo radical onde o lírico, o narrativo e o trágico se mesclam de maneira indissociável. O leitor não encontra aqui fronteiras rígidas: o autor varia constantemente entre o verso livre e a prosa poética, fazendo com que uma seção puramente cantada subitamente desemboque em um fluxo de contornos narrativos ou em um tom de lamento trágico digno dos grandes mitos.
Essa flutuação estrutural é movida por uma série de truques de linguagem que são marcas registradas de sua longa trajetória poética. Martins lida com o texto como um prestidigitador consciente de seus artifícios: ele utiliza a escritura automática, os anagramas, as falsas pistas e os paradoxos não para ornamentar o poema, mas para desestabilizar a lógica cartesiana. Em “Teoria Brincando de Ocultar-se na Prática”, o título já entrega essa dinâmica lúdica e profunda de esconde-esconde formal. Ao borrar as distinções entre contar uma história, cantar um desejo ou encenar uma tragédia, o poeta cria uma linguagem movediça. A forma, portanto, espelha o conteúdo: o livro se recusa a ser uma estrutura fixa porque o próprio mundo que ele tenta captar está em constante metamorfose.
Outro pilar fundamental do livro é a desconstrução da linearidade temporal. O tempo em Obra Prima da Confusão Entre Dois Mundos não caminha do passado para o futuro de forma ordenada; ele acumula-se, dobra-se sobre si mesmo e desaba em escombros. Na prosa poética que abre o volume, “Sinete do Acaso”, o autor constata que a realidade perdeu o seu centro e que as terras estão repletas de menires, pilares antigos que anunciam o desamparo e a ilusão de uma feição de mundo que muda de aspecto a cada ascendência de um novo elemento.
Os poemas são povoados por uma atmosfera de ruínas: paredes manchadas, livros enraizados no chão, relógios de areia virados ao avesso e deidades putrefatas que permanecem impregnadas na cútis. Contudo, a ruína não é encarada com desespero niilista, mas sim com uma fascinação arqueológica. É no interior do escombro, no lixo que se perpetua, que a poesia encontra a sua matéria-prima mais honesta.
Coordenando essa mecânica de perdas e desabamentos está o Acaso, divindade maior a quem o autor delega a responsabilidade pelas injustiças e pelos milagres da existência. O acaso surge como um elemento desestabilizador que implode as tentativas humanas de planejar o amanhã ou disciplinar a vida através de dogmas ou folders de campanha política. Como bem define o texto, nada se realiza sem a hospitalidade do acaso e a ideia fixa de que o mundo sempre esteve à nossa espera.
Uma das características mais fascinantes deste livro é a sua estrutura em rede, tecida por meio de homenagens explícitas a pintores, fotógrafos, dramaturgos e poetas que compartilham com Floriano a mesma voltagem estética. Na seção central, “A Ponte Encoberta pela Poeira do Tempo”, cada poema funciona como uma lente que relê a obra de um criador.
No diálogo com Eugene Ionesco (“Graças a Ele Recomecei a Escrever”), Floriano reflete sobre o teatro do absurdo e a resistência ao vício estético de afirmar o tangível, lembrando que o real é pormenor semelhante a um roteiro inconcluso.
Ao invocar a fotógrafa Francesca Woodman (“Sombras Relidas em Francesca Woodman”), o poeta capta a essência da artista que dissolveu o próprio corpo, escrevendo: Sempre que arrancas de teu corpo a imagem do mundo / dali brotam cascalhos derivados de todos os delitos.
No tributo ao pintor cearense Antonio Bandeira (“Dentro de uma Paisagem Azul de Antonio Bandeira”), a poesia mimetiza o gotejamento e a explosão lírica das cores do mestre do abstracionismo, transformando a página em uma alcova de nanquins incertos e aquarela de ritos.
Essas referências — que passam também por Hilma af Klint, Austin Osman Spare, Leonor Fini e Radovan Ivsic — não são meras citações eruditas, mas sim encontros mediúnicos. Floriano Martins convoca essas almas irmãs para sentarem-se à mesa invisível de sua criação, provando que a tradição surrealista universal continua viva, comunicando-se por meio de tráficos de novas correspondências através dos séculos.
Não se pode fazer uma leitura completa de Obra Prima da Confusão Entre Dois Mundos sem se debruçar sobre as imagens que pontuam o volume. Floriano Martins, transportando sua maestria das telas para as páginas, cria composições visuais em preto e branco que funcionam como espelhos texturizados dos próprios poemas. As imagens presentes no livro não ilustram os textos; elas os desafiam.
JANUÁRIO SACAVENTO (Antares, 1959) é cronista anfíbio, patafísico de fim de semana e ex-aluno emérito do Lyceo Pytanga, onde obteve grau dez na nobre arte da cola criativa. Dedicou as últimas décadas a catalogar manuais cosmográficos invisíveis e a decifrar profecias de sineiros corcundas. Paira sobre ele a acusação de haver contrabandeado um manuscrito inédito do Conde Lotrak direto para os porões do Vapor Velox. Sacavento, no entanto, é um sobrevivente de três naufrágios tipográficos e colecionador de fitas K-7 borradas, atualmente exercendo o cargo fictício de diretor de resenhas do Boggo del Pallone.



