Uma Linha Aberta com o Ensaio de Júlia Studart

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Por Januário Sacavento

Wittgenstein e Will Eisner: se numa cidade suas formas de vida, de Júlia Studart. 1. ed. São Paulo: Lumme Editor, 2006. 44p. 

O livro traça uma linha tensa entre as novelas gráficas de Will Eisner e o movimento com a linguagem proposto por Ludwig Wittgenstein. Júlia — cearense de Fortaleza, na época ainda graduanda em Comunicação pela UNIFOR, depois doutora em Teoria Literária na UFSC — não faz comparação ilustrativa. Ela parte da segunda filosofia de Wittgenstein: linguagem não é figuração do mundo, é uso. Formas de vida e jogos de linguagem. E transpõe isso para a cidade desenhada por Will Eisner, sobretudo em Avenida Dropsie e no ciclo de Nova York. A ideia central, que ela resume numa epígrafe que se tornou famosa nos trabalhos que a citam, é olhar do lado de dentro da experiência para dizer da cidade, trazendo essa compreensão para o lugar do ordinário, do comum, do contingente, do que passa pelas relações do cotidiano, do dia-a-dia, do uso.

Para Júlia, Eisner faz exatamente o que Wittgenstein propõe nas Investigações Filosóficas: não procurar uma essência da cidade lá em cima, no urbanismo monumental, mas descrever como as formas de vida revelam-se no rés-do-chão — nas linhas de sinuosidade, nos desvios, nos incidentes.

O livro abre com Machado de Assis e a Rua do Ouvidor — a defesa da viela contra o alargamento de Pereira Passos. É a mesma defesa wittgensteiniana do ordinário contra a linguagem ideal. A cidade, como a linguagem, não se corrige, se habita. Eisner chamava quadrinhos de arte sequencial entendida como contrato de leitura. Júlia lê esse contrato como um jogo de linguagem: o leitor aprende a regra no uso, não no manual. Cada prédio, cada goteira, cada placa de Avenida Dropsie é uma regra em uso. A cidade não é totalidade, é mosaico de territorialidades. É onde entra a noção de lugaridade — cada corpo organiza seu Umwelt, seu entorno de exigências. A vizinhança, em Eisner, é o espaço por excelência dessa negociação.

É um ensaio curto, mas muito à frente do seu tempo em 2006. No Brasil, Eisner ainda era lido quase só como mestre dos quadrinhos. Júlia foi uma das primeiras a lê-lo como filosofia da linguagem, arquitetura e antropologia urbana. Em 44 páginas ela evita o jargão acadêmico pesado e faz filosofia com imagem. O gesto de aproximar o filósofo mais anti-metafísico do século XX do quadrinista mais interessado no cotidiano do Bronx é de uma intuição feliz. É um livro que inaugura — sem alarde — o que hoje chamamos de virada espacial nos estudos de quadrinhos.

Justamente por ser um mini-ensaio, ele sugere mais do que desenvolve. É um livro-trampolim: abre um canteiro de obras e deixa para o leitor construir.

Após este livro, Júlia Studart se firmou como ensaísta e também como poeta. Na área ensaística, Livro, segredo e infâmia (2007), Arquivo debilitado – o gesto de Evandro Affonso Ferreira (2012), Logomaquia (2016), dentre outros. Ela seguiu muito na linha aberta em 2006: cidade como jogo de linguagem, arquivo como ruína, imagem intermitente. Os livros de 2006 e 2007 integram uma trilogia que viria a ser concluída em 2012 com o estudo sobre Evandro Affonso Ferreira.

No livro # 1, o ínfimo é a cidade ordinária. Wittgenstein serve para dizer: não procure a essência da cidade no plano urbanístico, procure nas formas de vida que se desenham no uso — o boato na Rua do Ouvidor, a goteira de Eisner, a vizinhança. A fenda no ler-olhar é aprender a ler o desenho como se lê uma frase. No # 2, o ínfimo é a figura do infame. Ela investiga três casos de desaparecimento do autor em favor da criatura mínima: as absolutas insignificâncias que ganham contorno de vida em Evandro Affonso Ferreira; o poema-abandono “Os três mal-amados”, de João Cabral de Melo Neto; e o projeto inverso, por excesso, de Gonçalo M. Tavares em O Bairro, querendo escrever a partir de senhores que dão nome aos livros, O Senhor Brecht, O Senhor Juarroz… Ou seja: # 1 pergunta como uma forma de vida vira linguagem na cidade; # 2 pergunta como uma vida ínfima, secreta, infame, força uma outra forma de ler. Nos dois, o gesto é wittgensteiniano: o sentido está no uso do resto, do que a história oficial chamaria de detalhe. É por isso que a própria Júlia pôde, depois, organizar Conversas, diferença n.1 (2009) como extensão natural dos dois. Em seguida, no livro # 3, ela retoma o autor que já aparecia como exemplo no # 2 e transforma o ínfimo em método: o arquivo que não guarda, que falha, que debilita. Depois dele a autora muda de chave — vai para Nuno Ramos por Júlia Studart (2014), Logomaquia (2016) e os trabalhos com Manoel Ricardo de Lima.

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JANUÁRIO SACAVENTO (Antares, 1959) é cronista anfíbio, patafísico de fim de semana e ex-aluno emérito do Lyceo Pytanga, onde obteve grau dez na nobre arte da cola criativa. Dedicou as últimas décadas a catalogar manuais cosmográficos invisíveis e a decifrar profecias de sineiros corcundas. Paira sobre ele a acusação de haver contrabandeado um manuscrito inédito do Conde Lotrak direto para os porões do Vapor Velox. Sacavento, no entanto, é um sobrevivente de três naufrágios tipográficos e colecionador de fitas K-7 borradas, atualmente exercendo o cargo fictício de diretor de resenhas do Boggo del Pallone.

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