Cortejo, um conto de Deborah R. Cordeiro

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As gélidas orelhas de Virgínia sentiram o bafo da prima mais velha, Fatinha, que soprou pelo orelhão alguma coisa grossa como farinha d’água. Eram palavras secas direcionadas a Virgínia, colada ao gancho, afônica. Engolia as letras pelo pomo de Adão que lhe fez crescer na adolescência. Protuberância não herdada, desenvolvida. Ouviu com os olhos que se ritmavam de um lado ao outro. Procurava fugir do soco que a língua de sua prima lhe dava. A língua de Fatinha entrava pela boca de Virgínia e cavava um túnel no já escavado esôfago. A prima respirou e disse tudo de uma só vez, sem vírgulas.

As palavras eram jogadas com tanta imprecisão que se salvava meia linha, no mais possível otimismo. Esticou o chiclete seco em cinco minutos de chamada interurbana. Deu a notícia que já tinha recebido do seu tio Benedito, lá de São Bento, cuja informação tinha vindo de Maroca, a vizinha de infância de Virgínia. As orelhas, que antes eram frias, se esquentaram junto das bochechas e do peito, incendiado como uma ponta de cigarro.

Tão logo a ligação terminou, Virgínia caminhou em direção à porta de entrada do seu apartamento. Os pensamentos nasceram na cabeça e sumiram antes de atravessar a porta. Trouxe numa mão a maçaneta, fazendo a porta desencostar da parede e avançar novamente em direção à fechadura. Tramelou-se e destramelou-se, em seguida, sem forças suficientes. Semicerrada, permaneceu covarde. Virgínia não olhou para o apartamento antes de descer o primeiro lance de escada. Os degraus chiavam no atrito com a chinela de plástico, no arrastar dos seus pés chatos.

Nem um dia se passou além daquele. A não ser uma segunda-feira de sete dias, e mais outras duas dessa. Todo novo dia nascia e morria na mesma segunda. Sem nenhuma alteração que indicasse que a vida haveria de continuar.

O apartamento, sem ninguém a quem lhe pudesse pertencer, ficou às baratas que caminhavam livremente, e às bactérias, que se acumulavam sem êxito nas batatas chips largadas num pote de vidro marrom, permanecendo intactas. Sobre um banquinho ao lado da cadeira de balanço estourada com pontas de vime, um cinzeiro soprando cinzas com o vento que entrava pela janela do corredor.

Virgínia saiu de casa sem malas na mão ou bolsos largos que coubessem alguns poucos trecos. Saiu engolindo lava na saliva grossa, e congelando o que ficava pelas costas. Tudo era tempo passado no instante que chegava o próximo passo. E o outro.

— Vim só saber onde tá o corpo mesmo, Maroca — temeu estar demasiado velha e infeliz, assim como Maroca. Eu a vejo e ela me vê, pensou enquanto a vizinha, parada em sua frente, emprestava-lhe o próprio rosto para escarnecê-la.

O corpo metamórfico de Virgínia esperava uma resposta enquanto sobrelinhava o chão debaixo do sol da tarde, fazendo riscar uma sombra longa e triste. Se endireitou na claridade das vistas, apertando o nariz que apertava os olhos, repousando uma mão na testa, abrigando o rosto como uma aba de boné. Tonta na cabeça, apertou mais os olhos para se concentrar na resposta da vizinha.

— Só eu mesmo pra segurar esse defunto dentro de casa, e que seu pai me perdoe — fez o sinal da cruz. — Tá lá atrás, no quintal, dentro do tanque vazio coberto de gelo da peixaria do Ribamar. Vai lá e puxa o tampão de cima. — Maroca aumentou o tom de voz, garantindo que os vizinhos pudessem escutá-la. — Tem força pra tirar a tampa do tanque ou essa carcaça de macho não serve pra nada?

Virgínia não respondeu, causando desconforto na vizinha, que aguardava ansiosa pelo diálogo. Baixou a cabeça, levando o próprio corpo na diagonal, passando prostrada. Entrou na casa de Maroca sentindo que o teto a lambia, procurando alguma ferida ainda aberta. A casa cheirava a carvão queimado, mas era um incenso abaixo da televisão que queimava as antigas fotos penduradas na primeira parede da sala. Lá estava ele, o pai de Virgínia, rijo e emoldurado ao lado do falecido marido de Maroca.

Andou corpulenta pela sala, ouviu a televisão ligada em algum programa de auditório, caminhou pelo corredor dos quartos com móveis escuros e cama cheirando a pano retalhado de vó, alfazema e fumo de palha de milho. Levou o lastro da alquimia até à cozinha. Coberta de tricô, até o teto, abrigava em cima da mesa redonda de granito um bolo de trigo e bolo de goma, cobertos com pano de prato pintados à mão. O piso de cimento queimado e envernizado da cozinha deslizava ao ponto das formigas patinarem ao lado de Virgínia, em uma fileira indiana até o quintal. Caiu lá. Tropeçando no batente, se alarmou: não fechou a porta de casa.

A ânsia aumentava no toque da marcha, acelerando o coração contraído. Resolveu a dor momentaneamente, direcionando a tensão para o intestino grosso. Subiu-lhe aos nervos uma enorme vontade de cagar, e segurou. O conflito entre vazar e reter alcançou o ápice biológico, caindo-lhe a pressão. Virgínia parou no meio do quintal, colocando as duas mãos na cintura, olhando para os pés vestidos de chinelas gastas.

Poderia ir embora sem nada nas mãos, agradando a vizinhança. A guerrilha interna poderia ser tratada com algum acordo de paz. Em que paz, se estava ali, prestes a escavar um defunto? Seguiu até o tanque. Resolveu esperar alguns minutos. Bem que poderia ter sobrevivido nesse gelo. Imaginou a sua segunda vinda, como Jesus ressuscitado no túmulo aberto, ao lado de Maria Madalena, pensou. Enfiou os dedos na cisterna, fazendo o sangue circular para fora do intestino. Adormeceu os dedos. Teve vontade de entrar nua no tanque, como entrava no rio, e em seguida, fechar a tampa, anestesiando o cérebro, afoito, transgredido. Teve vontade de fechar o tanque com três voltas na chave. Dentro da própria cabeça, Virgínia se arrastou até chegar novamente à rua.

— Vá, minha filha, e vê se não volta. Perca o rumo daqui, viu? — Ponderou Maroca enxugando as bochechas de algum suor.

Virgínia saiu da casa de Maroca debaixo de vaias estridentes do povo que já acampava em pé nas calçadas, em cima das bicicletas, nas janelas escancaradas, e por dentro das mangueiras e cajueiros que arrastavam suas raízes grossas, quebrando o cimento e levantando o barro. Com uma lona azul embrulhando o corpo, Virgínia arregalou os olhos de curumim, olhou e não viu, ouviu e não escutou. Segurou os sentidos numa tela de TV chiando em cores de palha de aço. A presença da mulher carregando o corpo tum, tum, tum, e levantando a poeira laranja, irritava a plateia atenta, ao mesmo tempo que causava um frio terrível nas barrigas, não porque tinham medo, mas porque era possível assistir à história de Garimpo acontecendo, dava para contribuir com o fato, contar aos faltosos o relato, sorrir e chorar pelo fim do espetáculo.

Um corredor de gente — entre curiosos desconhecidos e conhecidos curiosos — malhava e gritava em coro. O céu limpo de nuvens recebeu as gaitadas e as devolveu para Virgínia, como um castigo divino. Sentiu o impacto das urradas típicas de boiadeiros nordestinos: deu uma golfada por cima da lona, espirrando leite e pão no chão argiloso. Parou e viu o seu vômito em cima do barro, penetrando-o sem pressa, furando com preguiça o tatame onde se jogara. Dali não passaria. Nem ela, nem o vômito. Nem seria para lá que o corpo iria.

Maroca surgiu resplandecendo o caminho pela multidão, tá tá, tá, batia palmas como se afastasse um bocado de galinhas.

— Xiu, xiu, vão, passa, passa logo. Tudim pra casa, suas carniça. E vê se levanta, Virgínia, teu tempo acabou!

Os risos e gritos deixaram de subir aos céus, e se abafaram no fechar da boca com as mãos. Alguns ficaram. Outros esperaram. Virgínia manteve-se prostrada. Cabisbaixa, fechou os olhos e sorriu com dentes largos: era a orelha do defunto que escapara da lona. Cobriu-o novamente. Virgínia levantou o corpo e o outro corpo, ajustou o embrulho de modo que pudesse arrastar até a estrada. Olhou para Maroca agradecida. Maroca não demonstrou ter entendido, mas apertou o terço. O fato é que o terço só ficava ali em suas mãos quando orava pela vida do seu falecido e amado marido. Virgínia caminhou com dificuldade até chegar na estrada, deu tchau pra uns moleques que ainda a seguiam com os olhos em bugalhos no cortejo.

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Era uma segunda quando retornou para o apartamento, empurrando um vaso com uma recém-nascida orquídea cara de macaco, e pintado recentemente de branco neve em toda a larga e desnecessária circunferência. Fincada na terra, uma placa: Fim. Umas datas embaixo das letras.

Arrastou o vaso. Colocou o elefante branco do outro lado da cadeira de vime. Jamais se viu tão cuidadosa com uma planta. Resolveu que deixaria embaixo da janela que dava sol de manhã, no corredor entre a sala e o quarto. Levou dois segundos até puxar o vaso com a ponta dos dedos, andando de costas e encurvada até à sala. Colocaria junto de qualquer outra coisa natural. Não tinha plantas no apartamento. Nem quadros. Ou fotos na parede. Ou gaiolas com passarinhos. Sem passarinhos. Estantes. Poucas. Muitas paredes beges, anteriormente brancas. Porta-copos. Cinzeiros e blocos de anotações. Não colecionava nada. Nem santinhos. Nem botões. O vaso se apresentava naquele espaço tal qual um caixão talhado à mão.

Chegava a brilhar enquanto era arrastado aos solavancos. Sujava o chão já sujo. Levantava a poeira do piso de lajota marrom. Permanecia branco e limpo. Não cabe aqui. Nada cabe aqui, que miséria.

Virgínia derrubou a bunda no sofá. Deixou o trambolho ao lado da mesa de jantar, oval. O vaso era oval. Pensou ter combinado. Ainda sem forças para concluir o que vinha lhe ocupando há dias, seguiu novamente até o vaso e colocou a mão na terra. Acocorada, observou a terra preta e adubada, sentiu a água, a terra e o fungo quando virou os pulsos agarrando um punhado e ergueu o braço. Jogou de cima para baixo, chovendo detritos na flor. Na testa, três listras iguais, indicando o trajeto dos dedos da mão direita que enxugava o suco derretido em sua face. Lambeu as mãos e arrancou o depósito das unhas, retirando os excessos. Lavou-se com a saliva. Era doce, o rio e a terra.

Voltou-se até a porta, fechando-a com preciso controle da mão na maçaneta, desta vez. A lentidão garantia uma breve despedida. Reviu tudo às pressas no zumbido de um telefonema, enquanto diminuía a distância entre a folha de madeira e o portal. Observou a sala espelhada em miniatura na lente do olho mágico, colocado ao contrário pelo dono do imóvel. Aos poucos, a sala afinava-se para entrar por trás da cabeça de Virgínia, que surgia deformada na imagem pouco a pouco, até sobrar no globo apenas o seu rosto derretido. Estava espelhada no cárcere. Respirou. O lugar, Virgínia não reconhecia, mas era familiar a sua estranheza.

Piscou, piscou, elevando a cabeça para trás, prendeu a respiração como quem controla o corpo. Quis falar, gaguejou o ar farfalhado na garganta. Rodou o corpo caçando encontrar um lugar. Nada. Tudo imaculado e estranho, como o vaso ao lado da mesa de jantar. Suspendeu as mãos para o alto, puxando o oxigênio com força. Espancou os peitos abastados. Enxovalhou o ar com as axilas arreganhadas. Desenhou o rosto todo para dentro, enrugando tudo até o nariz: tudo no centro da cara. Sentou-se ao chão. Acendeu um cigarro que também fedia enquanto se desintegrava. Enxugou as narinas abertas. Cansada do contorcionismo, chorou pingando rápido, sem sons de suplício. Caiu a ficha de Virgínia: Laila morreu!

Amargou a morte da sua cachorra até começar a novela das nove.

Ouviu ao longe um latido. É ela! Agitou-se, sonolenta, sem conseguir mover as pálpebras. Levou o vaso para o quarto, desta vez, colocando-o colado ao estrado de madeira do lado onde dormia. Deitou-se como criança sobre o colchão de mola estourada, pulou colada na colcha. Encolhendo os joelhos até a altura do umbigo, abraçou a canela, e meteu a cara no colo.

Laila! Laila, vem cá, vem cá, corre. Vou fumar um no muro! Sonhava o mesmo sonho há três anos, em sua última visita à cidade natal, quando enterrou seu pai e perdeu de vista a cachorra. Laila, quando viva, sabia que morreria matando S. Raimundo com uma mordida na jugular. E o matou com uma mordida na jugular, depois de ser jogada contra a parede num chute tamanho 44.

Foi vista pela última vez no velório, quando atravessou a sala de casa correndo até o portão do quintal que dava num terreno baldio. Vivia à solta no mato, sendo caçada por toda a vila de Garimpo, até o dia que Maroca a encontrou correndo na beira da estrada que dava para a cidade. Apanhou a escopeta e a fuzilou, cumprindo a pena de morte, impassiva à sombra oculta, em meio aos passantes.

Enquanto dormia, cresciam-lhe os caninos. Ou ela lhes fizera crescer. Suas orelhas moviam-se curiando as pancadas das portas das lojas na rua, descendo e subindo os rolos de alumínio, e o som dos freios de caminhões com mercadorias pesadas, além das buzinas distantes das motocicletas no fim da noite.

A casa acolheu o segredo compartilhado, engolindo os estilhaços das almas dos novos bichos da casa. Virgínia adormeceu velando a cabeça da cachorra enterrada na terra preta, dentro do vaso branco. Ninguém naquele apartamento havia ressuscitado.

Chegavam os dias de luto. E de paz.

A escritora maranhense Deborah R. Cordeiro, nasceu na cidade de São Luís Maranhão, em 1984. É mãe de Dimitri, Theo e Amelie, professora formada em Pedagogia pela UFMA, Mestra pela Unifesspa, Produtora Cultural no ramo de Saraus e Eventos Lítero-Musicais. Iniciou a carreira de escritora em 2023, com o livro de poemas intitulado Histérica: poesia de quem sobreviveu mulher. Em 2024, publicou o livro de poesia Puérpera: de mim, da letra e do que não foi dito, que foi lançado na FLIP deste mesmo ano e também na FELIS (Feira do Livro de São Luís).

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