Da voz à letra: o reconto de Korõ do povo kamakã do sul da Bahia

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E a minha provocação sobre adiar o fim do mundo é exatamente sempre poder contar mais uma história. Se pudermos fazer isso, estaremos adiando o fim.

(Ailton Krenak, 2019)

Sandra Santos Esteves

Mestranda em Letras: Linguagens e Representações pela Universidade Estadual de Santa Cruz

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Percorri meus olhos nos livros da minha biblioteca pessoal em busca de uma obra que fizesse referência, mesmo que mínima, a alguma narrativa mítica sobre o povo kamakã, uma das etnias que também faz parte do povo pataxó hãhãhãe, habitantes das seguintes cidades no Sul da Bahia: Camacã, Itaju do Colônia e Pau Brasil. E, num insight, me recordei da valiosa Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional de 1986, organizada pelo antropólogo brasileiro Eduardo Batalha Viveiros de Castro. A revista reúne 104 mitos indígenas, recolhidos das oralidades indígenas brasileiras e escritos pelo etnógrafo teuto-brasileiro Curt Nimuendaju.

A narrativa a qual será aqui analisada trata-se do reconto “o herói Korõ”, o qual embora tenha sido escrito por Curt Nimuendaju (1883-1945), anterior ao registro etnográfico a história foi narrada pela indígena Jacinta Grayirá, em 1936. A anciã além de ser uma exímia narradora, também era conhecedora da língua kamakã e das tradições do seu povo. Dessa maneira, com o intuito de reafirmar que “a palavra indígena sempre existiu” (Graúna, 2013, p. 54) os recontos não apagam a oralidade, embora escutá-los a partir dos narradores indígenas propicia uma experiência que somente os ouvintes podem verbalizar para nós, leitores. A arte de narrar, ou melhor, contar histórias ancestrais, é inata as anciãs e anciões indígenas, conforme Kambeba (2018, p. 40) “não se faz narradores ou contadores de histórias na aldeia, eles já nascem sabendo narrar, porque aprenderam com a vivência dos mais velhos e com a experiência do conhecimento da mata”. Portanto, mesmo que registrado por Nimuendaju, foi de boca a ouvido, ou seja, trata-se de uma voz ancestral cujo fio entre a oralidade e a memória não se rompeu, tornando-se, assim, uma memória mais antiga do que possamos imaginar, e agora cabe a nós, saber escutar.

Antes de iniciar as apreciações da narrativa, o desejo de escrever este ensaio parte de uma perspectiva de que o direito à memória de um povo é o principal alicerce para que as futuras gerações tenham acesso a história dos territórios que habitam por meio da Literatura, e foi histórias como as contadas pela Jacinta Grayirá que escutei na minha infância através das conversas com minha avó dona Olga Maria do Amaral. Ademais, a escrita deste ensaio também é um gesto de assinalar a preciosa relevância que possui as narrativas orais indígenas, em especial, a de Jacinta Grayirá, pois, enquanto educadora e pesquisadora de Literatura, nascida e criada em Camacã-BA, cidade que entre outras do sul da Bahia, infelizmente, devido às expulsões impostas pela colonização aos povos indígenas se fragmentaram em sua memória. Camacã, mesmo carregando em seu nome, a referência de um povo que hoje luta pelo acesso e direito ao seu território pouco celebra a relevância da oralidade de Jacinta Grayirá, anciã, mulher, indígena e kamakã.

Retomando a questão analítica da narrativa, o reconto “o herói Korõ” desde o seu título já evoca certa curiosidade: quais batalhas Korõ enfrentou para tornar-se um herói presente na memória do povo kamakã? Dito isso, recorro a um breve resumo a respeito do conto. A narrativa se passa em diversos espaços da natureza, o primeiro embate ocorre no terreiro da casa do casal, o Urubu e a Cotia. O segundo conflito acontece na casa de uma mulher localizada em uma caverna na serra que à sua frente havia um despenhadeiro que divisava em outra serra embocando em um grande abismo. O terceiro embate se sucede em uma casinha na mata onde morava a Centopeia. O quarto e penúltimo embate ocorre em uma trilha onde os indígenas caminhavam para buscar mel, todavia, nessa trilha habitava em um buraco de um velho cupinzeiro, o sapo. Por fim, a quinta e última batalha de Korõ acontece nas proximidades de sua casa contra Cururu, o irmão do sapo.

Os espaços narrados no reconto apontam para intrínseca relação que existe entre Korõ e seu território, isto é, as densas matas, as quais na época em que foi contado a história, o povo kamakã, habitava também a região da Mata Atlântica do Sul da Bahia. Contudo, a floresta ainda não havia sido totalmente destruída pelas monoculturas, como podemos perceber atualmente, visto que restou apenas trechos remanescentes de vegetação nativa. Levando em consideração tal relação, Korõ conhecia todos os caminhos que o levavam aos outros personagens do reconto, portanto, as andanças de Korõ, muito nos diz a respeito das andanças e resistência do povo indígenas do sul da Bahia, pois, segundo os estudos historiográficos de Maria Hilda Baqueiro Paraíso (1976), a “pacificação” forçada sobre os indígenas neste período (1924/934) durante o processo de povoamento da reserva Caramuru Catarina Paraguaçu aconteciam constantes “fugas para pescar” no Rio Pardo, já que as populações indígenas eram iniciadas na cultura “branca” e colocadas sob permanente vigilância aglomeradas em grandes galpões (Ribeiro, 1970, apud Paraíso, 1976).

Além da sua astúcia e coragem, o herói Korõ desmonta para os leitores a falácia dos jesuítas de que o indígena não era digno de confiança. Tal apego a esta concepção ressoa de maneira tão perigosa, que, entre as primeiras obras literárias brasileiras que tematizaram o ser indígena, os autores agarram-se tanto a este estereótipo que o herói mais conhecido e replicado nas aulas de Literatura é o Macunaíma de Mário de Andrade, e que bom que hoje temos registrado as oralidades indígenas sobre o demiurgo Makunaimã, do povo makuxi, o qual sempre existiu. Prosseguindo os aspectos do comportamento de Korõ na história, o herói confia totalmente em Mosquito, sendo assim, é Mosquito o verdadeiro sábio da narrativa, é ele que tudo vê e conta para Korõ. No primeiro conflito narrado entre Korõ e o Urubu, de pronto, ele declara para o Mosquito

— “Está bem”, disse Korõ, “vou até ele! Por que ele está fazendo isto ao meu povo? Ele há de pagá-lo!” (p.41).

No terceiro embate com a Centopeia ele diz:

— “Desta forma ainda matarão toda nossa gente! Eu mesmo vou lá!” (p. 42).

 Diante disto, a coragem e a força de Korõ engata a história de maneira cadente, envolvendo cada vez mais o leitor em descobrir o que irá acontecer na batalha seguinte. Com este ritmo, a história desdobra-se em cinco ciclos os quais englobam quatro personagens animais e uma personagem humana, cujos papéis sociais na história são de atuarem como tricksters[1]. O desejo de vingança do Urubu, da mulher, da Centopeia, do sapo e de Cururu desperta no leitor o medo do que poderia acontecer com Korõ todas as vezes que ele vai até as casas dos animais com o intuito de proteger seu povo da extinção por parte destes personagens, esta percepção decorre também da/na luta e perseverança das lideranças kamakãs atualmente, o saudoso cacique Merong afirmou diversas vezes “Se me matarem na luta, me transformarei em adubo para fazer germinar mais lutas pelos direitos indígenas para retomarmos nossos Territórios” (Merong, 2024). 

A narrativa aparenta na leitura ter sido escrita em quadros/cenas, contudo, é a circularidade da história, em especial no que tange aos espaços narrativos, que evoca o movimento com o qual as histórias orais indígenas sempre foram contadas. De acordo com os estudos de Sá (2012) em torno das narrativas orais indígenas amazônicas coletadas por Koch-Grümberg (1872-1924), também etnógrafo alemão, o recurso da literário da repetição causa um efeito quase que hipnótico no ato da leitura. No caso do reconto “o herói Korõ” as repetições textuais e imagéticas a partir do momento que o narrador diz: “o Mosquito contou”, provoca, de fato, um efeito cativante todas as vezes que o Mosquito vai ter com Korõ, bem como aponta para pluralidade de vozes animais que discorrem ao longo da história.

O único elemento da natureza que Korõ utiliza para enfrentar seus adversários é o fogo, peça narrativa bastante presente nas cosmologias míticas indígenas. Por se tratar de um espírito, outro reconto deste elemento escrito por Daniel Munduruku (2011) para explicar a origem do fogo advém da perspectiva guarani, o qual, conforme o autor, em tempos antigos os guaranis não sabiam manusear o fogo, pois, o espírito estava sob o poderio dos urubus que conseguiram se apossar das brasas da grande fogueira que era o Sol. Na mitologia guarani, é o herói Nhanderequeí e o pequeno cururu que salvam a brasa e aprendem a conservar o fogo.

Outra explicação dada a respeito da origem do fogo é a partir da literatura oral do povo mawé gravada no Purati, um remo sagrado repleto de grafismos e símbolo da identidade cultural do povo saterê mawé. De acordo, Yamã (2007) antigamente o fogo não existia e por esse motivo os mawé não sabiam de que forma poderiam cozinhar seus alimentos. Para a mitologia mawé, é Ihaignya-Hakúp ou “o homem do fogo” que presenteia o jovem Ain Membyt com uma brasa após reencontrá-lo na floresta. E, conforme Yamã (2007), foi através da curiosidade de Ayn Membyt que as pedras de fogo localizadas no oeste do território mawé ainda existem.

Para o povo kamakã o significado do fogo é ritualístico e espiritual, algo que pode ser observado por meio das pesquisas historiográficas sobre eles. Conforme Aguiar (2002), nos ritos fúnebres dos chefes de família, eles eram enterrados com seus corpos pintados, sob a posição de cócoras em buracos cavados nas matas, junto aos corpos deixavam enfeites de plumas, armamentos, bebidas e outros utensílios pessoais. Nestes túmulos, eram plantados algodoeiras e bananeiras, as fogueiras eram acesas até que o fogo se dissipasse. Em seguida, as sepulturas eram encobertas com folhas de palmeiras e ofereciam carnes ao morto, e somente após as bananas nascerem e serem escondidas no período de uma lua, o qual era o tempo do luto, a viúva do falecido poderia casar-se novamente.

Notamos até aqui que a construção do reconto “o herói Korõ”, se entrelaça harmoniosamente com a cosmologia de outros povos originários. Ademais, faz-se necessário destacar, que embora o Brasil registre mais de 391 etnias alguns povos nunca se encontraram, mesmo com seus ancestrais habitando este território há milhões de anos. Desse modo, o reconto ancorado na oralidade de Grayirá evidencia os ensinamentos ancestrais calcados nas tradições, do Sol, da Lua ou do Sonho, e, com efeito, foi aprendendo “a ler os ensinamentos registrados no movimento da natureza interna do ser” que a heroína Grayirá repassou seu conhecimento ancestral, convicta de que para o indígena “toda palavra tem espírito” (Jecupé, 2020). Que a história contada a Nimuendajú por Grayirá seja um convite para escutarmos de um modo mais atento e sensível as vozes indígenas que apontam outras formas de colocar-se em alteridade, ler e sonhar outros mundos, adiar o fim do mundo e segurar o céu, como evocam hoje, para nós, Kopenawa e Krenak.

Referências:

AGUIAR, Edinalva Padre et al. Recortes de Memória, Cultura, tradição e mito em Vitória da Conquista e região. (Memória Conquistense n°6), Museu Regional de Vitória da Conquista/Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, 2002.

ALBERT, Bruce; KOPENAWA, Davi. O espírito da floresta. Tradução de Rosa Freire d’Aguiar. São Paulo: Companhia das Letras, 2023.

BONNICI, T.; ZOLIN, L. O. (Org.). Teoria literária: abordagens históricas e tendências contemporâneas. 4. ed. Maringá: EDUEM, 2009.

FIOROTTI, Devair; FLORES, Clemente. Panton Pia’ – A história de Makunaima. Boa Vista: Wei, 2019.

GRAÚNA, G. Contrapontos da literatura indígena contemporânea no Brasil. Belo Horizonte: Mazza Edições, 2013.

JECUPÉ, Kaká Werá. A terra dos mil povos: história indígena brasileira contada por um índio. 2. ed. São Paulo: Peirópolis, 2020.

KRENAK, Ailton. Ideias para adiar o fim do mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.

MERONG KAMAKÃ MONGOIÓ. Justiça pelo guerreiro Merong Kamakã Mongoió. Centro de Documentação Eloy Ferreira da Silva – CEDEFES, 2024. Disponível em: https://www.cedefes.org.br/justica-pelo-guerreiro-merong-kamaka-mongoio/. Acesso em: 16 jul. 2026.

MUNDURUKU, Daniel. Contos indígenas brasileiros. São Paulo: Global, 2021.

RIBEIRO, Darcy. Os índios e a civilização: a integração das populações indígenas no Brasil moderno. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 1977.

SÁ, Lúcia. Literaturas da floresta: textos amazônicos e cultura latino-americana. EdUERJ, 2012.

VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo. B. Mitos Indígenas Inéditos na Obra de Curt Nimuendaju; Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Nº 21, 1986. p. 65-111.

YAMÃ, Yaguarê. Sehaypóri: o livro sagrado do povo Sateré-Mawé. São Paulo: Peirópolis, 2007.


[1] Trata-se de personagens ambíguos e contraditórios muito presente nas narrativas míticas.

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