“Cacique, o que caminha de mãos dadas com a comunidade, respeitando todas as lideranças (…) mulher, jovem, pajé, mas sabendo que o papel dele é representar seu povo”. Henrique Manoel e a militância indígena.

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por Sonayra da Silva Florindo Silvestre, historiadora

Henrique Manoel do Nascimento (1965) é cacique do povo Tabajara Tapuio Itamaraty, da comunidade Nazaré, em Lagoa de São Francisco (PI).
Teve uma infância marcada por dificuldades e começou a trabalhar ainda criança, vivendo da agricultura, caça e pesca. Desde cedo, enfrentou preconceito por sua identidade indígena. Sua trajetória de liderança iniciou-se nos movimentos sociais e no sindicato rural, sendo eleito vereador em 1997. Posteriormente, tornou-se cacique, assumindo a representação política e cultural de seu povo. Destaca-se na luta pelos direitos indígenas no Piauí, especialmente por território, educação, saúde e respeito à cultura, contribuindo para dar visibilidade aos povos indígenas do Estado.

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O senhor poderia contar um pouco sobre sua infância e sobre como foi crescer na comunidade indígena Nazaré, em Lagoa de São Francisco?

Bom dia, vamos lá. Eu sou o Cacique Henrique Manoel, do povo Tabajara Tapuio Itamaraty, nascido no dia 15/03/1965. Começando pela minha infância… Eu tive uma infância muito sofrida. Naquela época em que eu nasci, tive problemas demais de saúde. Naquela época não tinha medicina fácil, era curado mesmo em casa, de uma forma que tendia mais para uma reza. E assim eu fui crescendo. A minha adolescência, no meu crescimento, tive que trabalhar com 8 anos na roça com meu pai para tentar sobreviver e a nossa vida também mais era caçar, era pegar pássaro, era fazer gangorra, pescar, caçar pássaro e ir caçar abelha, isso foi na minha adolescência, para tentar sobreviver, porque a gente não tinha outra forma de vida, a não ser caçar alguma forma para sobreviver da mata e a gente também comia bastante frutas, tinha na mata, carnaúba, vários tipos de alimento que a gente pegava na mata, mas a fonte principal de alimento era da agricultura familiar e do peixe, né, e a caça. Era isso que ajudava a gente a sobreviver. Tive que começar a trabalhar muito criança com 8 anos. E aí fui crescendo, né, até aos 12, até os 12 anos, não vestia roupa, era apenas uma cuequinha, vestia alguma roupinha muito pouca, mas na verdade era só cuequinha, sentia uma infância muito sofrida, mas a gente superava, mas na infância a gente já sofria bullying. Era tratado como um cabelo de porco espinho, cabelo de índio, cabelo de porco, nunca fosse um índio, fosse um animal. Isso aconteceu demais e isso foi crescendo também até já adulto, eu era tratado, muita gente me chamava de cabelo de porco espinho, cabelo de índio ou cabelo de porco, mas é como quem a gente não existia, não fosse gente. E isso me doía demais, né? Porque a gente sabia que era indígena, meu pai muito cedo contou, começou a colocar para nós ainda crianças que a gente era índios codó cabeludo. A nossa história começa por aí: índios codó cabeludo. A gente, na verdade, era de Pedro II. Era uma comunidade. Nós era de Pedro II, a gente é pedrossegundense, porque depois foi que a comunidade passou a município de Lagoa de São Francisco, foi criado em 1994. E a gente antes já havia feito nosso autoconhecimento como codó cabeludo. E aí que a gente começa todo o nosso trabalho.

Em que momento da sua vida o senhor começou a se reconhecer ou ser reconhecido como uma liderança dentro da comunidade?

Tive que viajar para fora, São Paulo, para ajudar minha família. Meu pai construiu uma casa que a gente não tinha. Tinha umas casinha de palha, chamado de… era coberta de palha, casinha de palha de taipa com piso de barro. A gente na hora do almoço comia numa esteira no meio da casa. Então, com 18 anos eu tive que viajar para São Paulo para ajudar meu pai a construir uma casinha melhor. A gente chamava de cabana, nossa casinha. Nossa cabanazinha, né? Hoje pouco ainda existe, mas é muito pouco. Então, chegando de São Paulo em 89 comecei a entrar nos movimentos sociais, fazer parte do sindicato dos trabalhadores rurais ainda em Pedro II e também começamos a trabalhar a questão da emergência. E aí começa a luta como sindicalista. Eu fui convidado a coordenar um trabalho da frente produtiva de serviço, com 150 homens. Aí começa assim a liderança, como liderava este povo. E aí então que já começo isso muito novo na luta, com 21 anos. Tive que me candidatar em 97 a vereador, fosse liderança e fui eleito como vereador no primeiro mandato do município de Lagoa de São Francisco. E daí começam as perseguições. A gente começa a se reconhecer como indígenas mesmo, mas não era ainda um reconhecimento nacional. Mas dentro da comunidade, do município, a gente já se considerava indígena e por isso eu sofria muito, muito preconceito, discriminação. Pelo próprio prefeito, que me chamava de cabelo de porco espinho, de moleque, cabelo duro. E assim, mesmo assim, a gente foi superando essas questões. E graças a Deus, a gente começa a trabalhar realmente o nosso trabalho de resgate histórico da comunidade.

Como foi o processo de se tornar cacique e quais são hoje as principais responsabilidades desse papel?

Como é que se dá a escolha de um cacique? É a liderança que se destaca dentro da comunidade, então ele pode ser eleito pela comunidade para ser o cacique. Foi isso que aconteceu comigo, né? Como era liderança na época e aí fui escolhido a cacique. Qual papel do cacique? O cacique é o verdadeiro representante do seu povo, tanto na área política, como dentro da comunidade. É como que seja o vereador daquele povo. Então o papel do cacique é representar dentro da comunidade e fora, em busca das políticas públicas para o seu povo. Então o cacique é a maior liderança da comunidade e nada pode ser feito na comunidade sem autorização dele, sem o conhecimento dele. Mas também ele não pode fazer tudo sozinho, sem ter conhecimento da comunidade, ser de acordo com a comunidade. O cacique, a verdadeira liderança cacique, tem que caminhar de mãos dadas com a comunidade de acordo com todos, para que as coisas possam acontecer. Então esse é o papel do cacique. Cacique, o que caminha de mãos dadas com a liderança da comunidade, respeitando todas as lideranças que têm dentro da comunidade: liderança mulher, liderança jovem, liderança pajé, mas sabendo que o papel dele é representar seu povo, tanto dentro da comunidade como fora. Isso é o papel do cacique.

Quais foram os maiores desafios que o senhor enfrentou ao assumir uma posição de liderança indígena?

É conquistar o respeito da sociedade. Porque o primeiro passo que nós, como indígena do Piauí… passamos mais de 200 anos silenciados. Primeiro a sociedade piauiense dizia que não existia mais índio no Estado do Piauí. E de repente surge esse povo lutando pelos seus direitos. Isso foi a maior dificuldade nossa, fazer com que o pessoal entendesse que nós apenas fomos silenciados, não deixamos de existir. Isso era um papel nosso como cacique: fazer com que as pessoas entendessem que nós, povos indígenas do Piauí, sempre estivemos aqui. Não fomos exterminados, apenas fomos silenciados para tentar sobreviver. E aí também poder estar participando dos eventos, das atividades fora e dentro da comunidade, representando o seu povo. Quando a gente representava o que era indígena, muita gente ficava duvidando, né? Então, essa foi dificuldade que a gente enfrentou mais. Com a força dos encantados, a gente começa, começamos a trabalhar essa questão e hoje a gente é muito respeitado. Para que as pessoas entendam realmente qual é o papel da gente, como lideranças indígenas, como cacique. Hoje a gente tem um grande respeito dentro do Piauí, tanto pela liderança política como pela sociedade. Mas é muita luta, não foi fácil ser cacique. Mas no final se tornou muito maravilhoso, porque a gente hoje tem um respeito muito grande pela sociedade piauiense, tanto política como não política. E também me tornei conhecido, conhecido nacionalmente, né? Então isso fez com que a gente enfrentasse essa dificuldade, quebrasse esse preconceito que tinha contra a gente. Mas não foi fácil ser cacique, mas a gente superou essa dificuldade. Hoje, a gente não tem mais essa dificuldade dentro do Estado, porque a gente representa bem o nosso povo.

Na sua visão, qual é a importância de existirem lideranças indígenas atuando tanto dentro das comunidades quanto em espaços institucionais do governo?

A liderança é quem toma as decisões e procura resolver os problemas dentro da comunidade, é quem vai para a luta, quem toma decisões, a representabilidade da comunidade. Lutas pelo território, luta pelas políticas públicas, junto com as outras lideranças dentro da comunidade. E liderança dentro da política é importante porque é preciso que nós ocupe esses espaços para que possamos decidir o que é melhor para nós. Porque se a gente não tomar essas decisões de poder estar trabalhando as políticas públicas para os povos indígenas, deixar que só os outros decidam as coisas por nós, a gente nunca vai avançar nessa área, porque a gente é quem sabe o que que precisamos e o que que é melhor para nós, lutar pelo nosso território, pela nossa saúde e a educação diferenciada. Isso é uma das coisas que só quem entende são os povos indígenas. Quando se coloca de que é diferenciado, e que onde seja usado a educação e a saúde, sejam utilizadas respeitando nossos costumes, culturas e nossa forma de vida e nossos conhecimentos, respeitando também os nossos saberes, os nossos encantados. Para eles isso é difícil, mas para nós, só nós sabemos fazer isso. Por isso que é importante, a gente estar inserido dentro das políticas, defendendo as políticas públicas dentro dos órgãos governamentais, tanto municipais como estaduais e federais, porque é nós que sabemos o que queremos. Porque a importância da liderança é isso, poder tomar decisões, representar o povo indígena e saber realmente como trabalhar a questão das políticas públicas voltadas para os povos indígenas. Porque sem nós não funciona como deveria funcionar. Nós temos o lema: nada para nós sem nós. Então, nós temos que lutar e defender nossas causas, estar presente dentro do governo, da administração para poder defender nossas causas e nossas políticas públicas para nossos povos indígenas.

Quais são hoje as principais demandas ou dificuldades enfrentadas pelas comunidades indígenas no Piauí?

As nossas principais demandas hoje é a luta pelo território, porque sem terra nós não temos muito como lutar por nossas políticas. É claro que a gente já tem
defendido, né, temos hoje quatro terras tituladas pelo Estado, mas estamos lutando pelas nossas demarcações de territórios. Segundo vem a saúde, que já foi implantada. Terceiro vem a educação, porque da educação que começa a parte mais importante, que é trabalhar a questão cultural com nossas crianças e também respeitar nossas culturas, nossos saberes, nossa forma de vida. Então, é importante a gente ter isso com a mente. É preciso que haja respeito à nossa cultura, à nossa forma de viver e nossa crença também, que é acreditar nos nossos rituais sagrados que a gente usa para que a gente possa nos fortalecer. Então, a nossa maior reivindicações hoje é: terra, saúde, educação, cultura e respeito à nossa forma de vida. Claro, que também precisamos trabalhar muito a questão do meio-ambiente, questão de gestão dos territórios, questão ambiental. Isso é um ponto principal para que a gente possa viver bem. E é o papel dos povos indígenas, né? Defender nossa mãe natureza, nosso meio-ambiente. Então, são as nossas maiores reivindicações que a gente tem que fazer. Essas nossas causas hoje é isso. E respeito. Na verdade, o principal é o respeito. Não é fácil ser indígena hoje no Brasil, principalmente no Piauí. Peço que haja esse respeito, tanto nossa forma de vida, a nossa cultura, a nossa forma de ser. Ainda estamos enfrentando dificuldade, mas nós estamos lutando para que um dia a gente possa ter orgulho de ser. A gente já tem esse orgulho de ser indígena piauiense, mas é preciso que toda sociedade tenha conhecimento e respeite a forma de vida de ser de nossos povos indígenas. Então, a gente vai estar aqui à disposição para cuidar e vir.

Qualquer coisa, é só me procurar, tá?

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