Por Sandra Santos Esteves
Minha vida em Salvador, é uma obra de autoria da escritora e professora soteropolitana, Camila do Nascimento Carmo, publicada pela editora Segundo Selo, em 2022, na mesma cidade sobre a qual ela escreve. O livro faz parte da coleção DasPretas,e já conta com seis exemplares disponíveis, além disso, editora possui como finalidade publicar apenas mulheres negras, de modo que assim contribui para o combate ao racismo na literatura e no mercado editorial brasileiro.
A obra é composta por 47 crônicas as quais detalham poeticamente o cotidiano da existência e resistência da autora na cidade de Salvador, ressaltando em variados momentos referências ao fluir das águas de uma escrita negrofeminina, a sua ancestralidade, a relação de sua fé com o axé, o percurso da vida acadêmica, aos amores e amigos, a saudade, e a cultura baiana.
Além da cidade de Salvador, os escritos de Camila Carmo são dedicados a algumas pessoas e sua terra natal, como: a filha de Ndandalunda, Lulu, Rebeca, Nilo e Niel, “ela”, Rafael Trindade, a cidade de Amargosa, para suas mães e Kiki, destacarei aqui algumas das crônicas que mais chamam a atenção durante a leitura da obra e que valem a pena refletir algumas de suas passagens.
Na primeira crônica intitulada “Todos os dias eu passo por Itapuã”, Camila rompe com o imaginário de qualquer indivíduo ao passar pela praça Itapuã; lotada de gente alegre, dançando e bebendo às sete horas da manhã de uma segunda-feira, ou seja, o que para muitos que passam ali haveria de ser um dia normal de trabalho ou estudos, aquele exato instante captado por Camila é descrito de forma poética e delicada sobre um povo que carrega dentro de si a alegria de morar em Salvador, em qualquer que seja o dia da semana.
Na quarta crônica, “Os vizinhos em festa e eu no quarto”, a autora retrata os dissabores de uma estudante em processo de mestrado, que, na tentativa de concentrar-se nos seus textos naquele domingo, em contrapartida, seus vizinhos estão em festa ouvindo a Turma do Pagode com canções de amor repletas de ressentimentos e culpas e, a partir dessas canções seu pensamento divaga nas músicas da banda em discordância com o sentimento de amar, já que para ela seu amar é outro, é um domingo em festa e, seu domingo não está sendo uma festa quando se trata de amar.
Diversos textos de Camila Carmo são dedicados a algumas mulheres que não se sabe se foram apenas amigas ou namoradas, são textos que falam de memórias, amor, dores, encontros e despedidas, a crônica “Tem gente que chega na vida” descreve a partida de uma dessas mulheres de sua vida, esse texto em específico não nomina quem é essa mulher que vai embora pela última vez deixando na sua casa um “silêncio ensurdecedor” deixando um bilhete sincero acompanhado de flores informando que não poderia ficar, tal atitude impacta tanto sua vida que define o título de sua crônica, na qual Camila também compreende que de fato o “amor é feito de ir e que tem gente que chega na vida da gente e até mesmo quando vai, fica”. (Carmo, 2022, p.35).
Um outro aspecto extremamente importante da escrita de Camila Carmo é a sua a resistência negro-feminina como forma de combate aos estereótipos racistas que desenham por e sobre o corpo da mulher negra na sociedade contemporânea, principalmente, as mulheres negras, periféricas e invisibilizadas. No texto “O desejo em sua atividade” a escritora lança perguntas sobre o que são mulheres construindo políticas de enfrentamento? (mulheres essas as quais incluímos ela aqui), como fazê-las existirem no exercício prático e cotidiano? Sua escrita acerca de tais mulheres, coloca-as em evidência, bem como responde ao leitor ambas as perguntas.
Conforme mencionado anteriormente, não só Salvador é homenageada por meio da escrita de Camila, a saudade de sua cidade natal Amargosa aparece em várias passagens do livro de diversos modos, como por exemplo nos textos: Ando bem meus amigos, Amarga e gostosa e A cidade está cheia de água. Em “Ando bem meus amigos”, a autora discorre a saudade que sente dos seus amigos de Amargosa quando se vê imersa no carnaval de Salvador.No poema “Amarga e gostosa”, os dias de festa são outros, é o frio junino, o licor e o forró que se fazem presentes, detalhes carregados de saudade quando Camila retorna para sua casa em Salvador. Por fim, em “A cidade está cheia de água” a saudade de Amargosa é diferente, se dá pela simplicidade dos seus dias chuvosos que exalam o cheiro de terra molhada, típica nostalgia de quem já morou no interior baiano.
Em “Sinto saudades” Camila Carmo escreve para uma criança que cresceu e espera reencontrá-la, nessa crônica a autora resgata as memórias vivenciadas com essa menina quando ainda era um bebê e, assim, vai delineando a infância desde o nascimento até os primeiros passos dessa menininha que encheu seu coração de felicidade ao nascer.
Portanto, percebe-se na escrita de Camila Carmo que, de fato, é um fluido de águas que marcam a imensidão feminina em uma cidade como Salvador, que se movimenta pelos seus festejos de carnaval, pelo seu axé, seu cotidiano de luta e resistência do povo negro, mas que ao mesmo tempo enfrenta de peito aberto o racismo, as desigualdades sociais, a violência, a invisibilidade e a desumanização dos corpos negros femininos e, para o/a leitor/a fica o convite de mergulhar fundo na imensidão da escrita de Camila Carmo em Minha vida em Salvador.
Referência
CARMO, Camila. Minha vida em Salvador. Salvador: Segundo Selo, 2022. 68 p.
Minibio:
Baiana, poeta, escritora e professora. Mestranda no Programa de Pós-Graduação em Letras: Linguagens e Representações na Universidade Estadual de Santa Cruz (2025); pós-graduanda em Linguística Aplicada na Universidade Federal do Sul da Bahia (2024); Graduada em Letras Português e respectivas Literaturas pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (2024); Revisora técnica da Revista Aprender – Caderno de Filosofia e Psicologia (UESB). Pesquisadora nas áreas de: literatura(s) brasileira(s), autorias negras e indígenas brasileiras contemporâneas, teorias da literatura, estudos culturais, filosofias e culturas dos povos originários, integrante do Núcleo de Estudos das Produções Autorais Indígenas (NEAI-UFBA) e Perifas (UESB). Atua no movimento Mulherio das Letras Indígenas. Organizadora da obra “Entre páginas e sonhos”, publicada pela editora baiana, Usina de Textos.



