6 Poemas de Conceição Rodrigues

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Conceição Rodrigues, graduada em Letras, especialização em Literatura. Leciona na rede pública de ensino. Menção honrosa no III Prêmio Pernambuco de Literatura com o livro de contos “Corda para nós”, e no IV Prêmio Pernambuco de Literatura; menção honrosa com o romance “323”. Trabalhou como assistente de Raimundo Carrero na Oficina de Criação Literária- UBE. Organiza e participa de antologias. Dá assessoria em produção textual em diversos gêneros e áreas.
Publicou em 2020 “Molhada até os ossos”, livro de poemas, pela Editora Patuá e em 2021 “Os dedos das santas costumam faiscar”, livro de poemas, pela Editora Patuá.


gatos rajados

são trovões desfilando nos muros
-intocáveis-
a lava engoliu a cidade e agora nos resta viver o inferno
as aves sobrevoam os beijos que não foram dados
recebem rajadas de ardor
uma agonia asfixiada estrangula minhas veias como o pôr do sol
fumávamos monóxido de carbono e nuvens coloridas
a lama deglutiu mariana as fábricas o trem os trilhos
o tamanho do seu pau não tem importância querido
o tamanho de qualquer dor não tem importância querido
dor é dor é dor é dor
a crosta terrestre as camadas da terra o dilúvio o solstício
quando mais fundo mais quente
mais fundo- digo
mais fundo- promete
eu arrefeço mas a profundidade não é suficiente
a catedral dos fantasmas badala toda meia-noite
e quanto mais amante mais trabalho e preguiça
o senhor dos espelhos não poupa ninguém
carimbados em nossa testa código de barras validade vincos
implorei ao senhor dos espelhos despir a túnica de são sebastião
o santo tem ombros mansos de cordeiro
carne macerada nas ervas sucosas
mais gostoso que chouriço e molusco
é bonito como a pedra que tranca o sepulcro de cristo
eu tenho muitos lábios negros e língua solta
línguas línguas línguas de secretos idiomas
tenho muitos arcos bestas balestras e alvo
e flechas e flechas e flechas que lambem da pele aos órgãos
o dia a dia é purgatório- será exibido em tela
o mundo acaba e eles gritam gozo



o meu eu lírico é um jeito cínico de falar sobre meus amantes nos livros

o que eu queria era dizer o contrário e me resguardar de minhas próprias mentiras
tenho algumas compulsões apesar da febre
é possível que albert camus trepe comigo esta noite sou capaz de beijar-lhe o plasma chupar o tutano do cérebro dos ossos tanto faz
nasci uma estrela decadente desde que fui feita de gases poeira cósmica e marie curie
é reconhecido meu direito às vaias em cartório
o manancial de lourdes os mistérios marianos
a primeira dor de maria foi lhe apresentarem as espadas da dor que lhe acompanharam a vida toda
a derradeira foi o protestante que disse que só jesus tinha importância e que maria não tinha falo e coisa e tal pensei sobre isso enquanto flutuavam os anéis de fumaça do meu cigarro invisível
acredito nas adagas furiosas nos punhais cortantes bem areados como os fundos das panelas que me ofereceram para esfregar
mas é claro que index é coisa ad infinitum por isso tatuei beije-me com os beijos de sua língua porque sua lambida é melhor que vinho
toda borda-abismo gozo de papoula africana
quero dormir uma madrugada inteira nos campos de arroz cambojanos
a moça em frente ao prédio se agarra ao pacote como uma recém-parida
se agarra ao filho
é claro que o domingo merece uma praia e um chope estúpido
os resistentes ganharam bala de borracha e cegueira
os estampidos da nigéria se ouviram por aqui no recife
e os venezuelanos estendem as mãos em nossos sinais- cheios de filhos- essas lebres de olhos andinos orientais qualquer coisa- já não bastam nossos índios?

em que trabalharão os policiais quando todos os pretos forem extintos?
um senhor muito distinto os chamou de vagabundos
os fardados oferecem cassetetes e sprays de pimenta
minha centelha já nasceu apagada
virou cinzas com a cinemateca a biblioteca a memória

o angolano é quem faz certo: vende contrabando
indígenas queimaram máquina caríssima dos pecuaristas
maria vive os tormentos da paixão assistindo telenovelas
há gentes nas filas esperando para roer os ossos
a síria se divide entre barricadas e milícias
e meu eu lírico da mais torpe pornografia se esfrega
nas mãos dos presidiários


palavra de santa

she had the face of an angel, smiling with sin
ac/dc

dou minha palavra
de bêbado
que as santas não usam
calcinha
por debaixo dos mantos
e vestidos

a minha especialidade
é sentir saudade
do que está acontecendo

dou minha palavra
de puta
que para ser perdoado
é preciso primeiro
pecar

as virgens desperdiçadas
fizeram nascer
um pé de mortos
no meio da minha sala

agora todos os dias
varro ossos
conto ruínas

sou tão donzela quanto
uma lápide
um tijolo
sofro de soco
no estômago
e frio na barriga

enquanto repouso no líquido amniótico


old fashioned

fumando embaixo
do chuveiro a ressaca
com o propósito de apagar
os sóis pois sou invejosa
terei de ficar em casa
enquanto todos são felizes

quando você molhar minha terra seca
nascerão gérberas margaridas crisântemos crisálidas
duas pernas enfiadas
na mesma calça de perna
o haxixe é mesmo do bom
não tive pena de jesus
embora ele não tenha
se inscrito voluntário
apagar as palavras que sobram
pelas brechas das folhas
é coisa mais trabalhosa

tive pena de magdala enrolando a seda
que chorou abraçando o bidê
em nome de raul
o bicho que matou o homem
alugou um ap debaixo da saia
depois foi com os pombinhos
virar símbolo da paz nas paredes como se fosse
qualquer loiro batendo continência
quem é que perdoa deus?

sidney magal disse que haveria flores antes de escapar
depositadas no velório da madrugada
e a amada de cara roxa e olho esbugalhado
jamais esqueceria que homem na vida é um só

há um silêncio monstro nas salas de autópsia
um cristal delicado quebrado pelo barulho
do dedo puxando o anel da coca-cola sapecando a garganta
antes de fazer tsss tsss já era ahhhhhhh
a tinta do piso desgastou tanto
de tanto que dançamos com as
almas arrastando bolas e sapatilhas de ferro
o amor que eu tinha costurou minha barriga de
arame farpado
eu não desconjuro
qualquer amor mandrágora
semente matadeira chá abortivo
sexo com borrachas
não desconjuro carcará desinfeliz chupa-cabra
bruxa bicha bala cólica
tampa de cerveja que foi morar
num pedaço de cimento até o mundo se roer

medusa decapitou o boy
que rezava pela glória da pica
as múmias permanecem cobertas de ouro -intactas


dois pulmões de plástico e um olho de vidro

meu marido me serve café com leite quente que recebo
[com sorriso
de petúnia quando o sol desponta para o sono
pensei em fornicar com um homem de barbas escuras
devo chorar por isso?
é bem certo que eu me entregaria em cima de qualquer obelisco
numa ala de hospital na cama da minha avó
e o homem de barbas escuras escorreria por minha pele
um ácido monogâmico que se liberta nas fronhas
os patinhos seguem graciosos nos lagos coloridos artificiais
joguei-lhes sorrisos mágoas pão e pipoca
sou pálida-pálida na mesa do necrotério
sou negra-negra na mesa do açougue
i´m not your honey baby
meu sangue escorreu por um buraquinho feito de pão de serra
agora é cachoeira esvaindo no tanque inoxidável
a minha existência desmaiou pelos canos
serviu de adubo ao solo que não reproduz
eu tenho dois olhos nas mãos mas estão cegos
você é um ciclope e tem pulmões de plástico


santa Brígida

-a 400 anos do fim do mundo
o demônio será deixado solto
no meio da nossa cidade:
santa brígida recobre a bola de cristal
e guarda as cartas de tarô
tudo por conta da imodéstia e da falta de fé
por isso o anjo derrocado reina
e crucifica-se
como quem faz miojo
um santo a todo minuto
no sudão em hiroshima no purgatório
na favela
a roda da tortura
gira-gira gira-gira gira-gira
a roda da tortura gira-gira
enquanto gememos

1 comentário em “6 Poemas de Conceição Rodrigues”

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