Os mal-estares (12 poemas – ou nano contos)

| |

 Leonardo Almeida Filho (LAF) é paraibano de Campina Grande (1960), professor, escritor, reside em Brasília. Mestre em literatura brasileira pela Universidade de Brasília (2002), publicou Graciliano Ramos e o mundo interior: o desvão imenso do espírito (EdUnB), 2008, O livro de Loraine (Edição do Autor, romance, 1998), Nebulosa fauna & outras histórias perversas (e-galaxia, contos, 2014), Babelical (poemas, Editora Patuá, 2018), Nessa boca que te beija (romance, Editora Patuá, 2019), Grande Mar Oceano (romance, Editora Gato Bravo/Portugal, 2019 – Editora Jaguatirica, Rio de Janeiro, 2019), Tutano (poesia, Editora Patuá, 2020), Os Possessos (romance, Editora Patuá, 2021), além de contos, crônicas e poemas em revistas e jornais.

Enfim, de que nos vale uma vida longa se ela se revela difícil e estéril em alegrias,
e tão cheia de desgraças que só a morte é por nós recebida como uma libertação?

O mal-estar na civilização, Sigmund Freud

I
O abutre do menino
e de Santa Ana
por culpa de Leonardo
bica o fígado
expõe correntes
e ele, que finge não estar nem aí,
sonha com um charuto
enfiado no rabo
e a cara de prazer de Sigmund
dizendo que um charuto
nem sempre é só
um charuto.

II
Disse que esmaga
ratos com seu coturno
disse, sorrindo, que
quando ninguém vê
espeta os olhos dos cavalos
com alfinete
Amo a cegueira equina,
Nada como trotear às cegas
disse com a voz
suave, quase sussurrando,
aquela mesma voz de quando
sob seus coturnos,
esmagando ratos,
faz suas preces
contrito.

III
Emudeceu-se
murchou, secou
o que foi pântano
hoje é deserto.
Quando o marido a cavalga
fecha os olhos e suspira
pensa no rio
de sua aldeia, fluindo
fluindo, costurando peixes
arrastando árvores
e bichos mortos
lembra de suas águas turvas.

IV
Não fossem os espinhos
que saboreia na pele
imune às dores, aos rasgos,
aos lanhos,
e talvez não tivesse outro
motivo para viver
Encontrou
um caminho
que percorre solitariamente
ocultando as feridas sob
a camisa de mangas
compridas
que repousa sobre suas asas
impotentes.
Pensa ainda nas porradas que,
certamente,
virão completar essa estrada.

V
Chama todo homem que
a possui
de papai!
e todos eles adoram
fodê-la
chamando-a
filhinha!
Os olhinhos brilham
e piscam como asinhas
de beija-flor
e ela se abre em pétalas
quando chupa o dedo
e promete ser
boazinha.
Eles então se fecham
e lhe desferem alguns tapas
pra que a menina se comporte
é o que dizem
e eles e ela, nesse jogo,
fingem que acreditam

VI
Disse aos amigos
que foram nove tiros
nove tiros
nove tiros no veado
nove tiros com vontade
de matar
não errei um só
A boca se movia por ódio
babava, cuspia, espumava
Nove tiros na cara
daquela abominação
comemorava
respirava aliviado,
pois aquele veado
não o espelharia mais.

VII
Quando a esposa o flagrou
vestindo sua meia-calça
sentiu-se enviuvar
ele chorou, pediu perdão
ela, muito machucada,
disse que era tarde
precisavam dormir
abriu o armário
e escolheu uma camisola
de seda, a mais bonita,
e deu pra ele
que abriu um largo sorriso.

VIII
Tinha a mania de frequentar
banheiros públicos
para conferir o tamanho
dos paus
e compará-los com o seu
Colecionava armas de fogo
revólveres que o faziam vibrar
toda vez que limpava os canos
e se lembrava de alguns homens
do banheiro público
Nesses momentos, mordia
o lábio e suspirava
profundamente.

IX
Ninguém entendeu quando
ele se levantou
foi à cozinha
e voltou com uma faca
que cravou no pescoço
de Rex, esfolando-o,
o vira-lata preto
que se deixava penetrar
pelo cachorro do vizinho
numa brincadeira no quintal.

X
Ela nunca abriu as pernas
dizia o pai, orgulhoso
integrante da Opus Dei:
Minha filha é virgem
intocada por varão nenhum
comemorava
O que ele não sabia
era que a moça
toda noite
religiosamente
inseria o crucifixo de madeira
na boceta
e afogava o Cristo.

XI
Médico algum consegue explicar
o que se passa com ele
um mistério.
Desde que,
numa emergência,
foi parar no hospital para
que se lhe retirassem do reto
um peso de ferro entalado,
desses de academia,
ele mergulhou no silêncio
exibindo apenas o molambo
da língua paralítica.

1 comentário em “Os mal-estares (12 poemas – ou nano contos)”

Deixe um comentário

error

Gostando da leitura? :) Compartilhe!