10 Poemas de Beira Lisboa (Venezuela, 1982)

| | ,

Curadoria e tradução de Floriano Martins

Beira Lisboa (Venezuela, 1982). Poeta, professora, editora, revisora, terapeuta. Formada pelo Instituto Pedagógico de Caracas, tem ampla experiência no exercício do magistério, desde o nível inicial até o universitário e em comunidades. É facilitadora de oficinas de escrita. Trabalhou em diferentes editoras e na promoção cultural. Fez pós-graduação em Estratégias de Aprendizagem, Orientação Comportamental e Literatura Infantil, além de cursos de extensão em Edição pela Universidade Central da Venezuela (UCV), Programação Neurolinguística pela Universidade Pedagógica Experimental Libertador (Upel), Escrita Criativa e Competências Especializadas em Escrita pela Universidade Metropolitana (Unimet) e pelo Instituto de Criatividade e Comunicação (Icrea). Fundadora do Fórum Latino-Americano de Educação Musical, capítulo Venezuela. Atua como terapeuta alternativa em centros de saúde. Ganhou o I Concurso de Contos Curtos da Unimet e do Icrea em Caracas e a bolsa para participar do XI Seminário de Literatura Argentina e Latino-Americana da Fundação Mempo Giardinelli, na Argentina. Desde 2020, dirige a Editora Beira Palabra. Em 2013, foi publicada sua plaquette de poesia Riberas de pan (Taller Editorial El Pez Soluble), com reedição em 2022 (Fundarte) e, em 2020, seu livro de poemas Urgente (Editorial Eclepsidra).


[A SAIA DE DEUS]

A saia de Deus
não foi lavada
Ninguém se ofereceu

Não é de seda
nem mesmo de rendas brancas
Brilha e brilha entre as manchas do próximo buraco

Se o zíper se abre
não é culpa de quem vê
o que não deve
Nem de quem tenta evitar a palavra nunca dita

A saia de Deus
está no Mercado Livre
Ouvem-se ofertas


[O PÁSSARO VOA]

O pássaro voa ao redor da praça
Seu voo
na verdade não existe
nem o pássaro

mas há algo a dizer sobre esses olhos desertos


AO NÍVEL DE UMA LÂMPADA SALIENTE

O abandono é meu
é uma casa
o lugar favorito a aventura

Recorro a ele como o confessor que não espera
Não precisa de absolvição, pois ele é seu pecado
E
como perdoar o outro em si mesmo
como dizer
—Fique tranquilo, aqui o abandono sou eu e eu te protejo


[NAS FUNERÁRIAS]

As funerárias não dão conta.
IMPRENSA

Nas funerárias
os celulares não funcionam
apenas a voz de Isabella que pergunta
Por que não respondem?
Não veem que é falta de educação guardar as respostas?

O homem tem fome
O homem fala alto
Mas o homem não sabe que está morto
Ninguém lhe disse

A sopa vai e vem A carne vai e vem A carne sempre fresca daquele que esquece
O choro de quem não chora.

Isabella tem sede.
Isabella não diz nada.
Isabella não sabe que está viva.
Apenas o homem
que ri e brinca:
Corra, menina, corra!
Ai, minha vida, não caia,
já que há muitos caídos à tarde.

De que servem os mortos se não choram?


BAR

Devastado, contava os relógios do guardanapo laranja que cobria a mesa, enquanto marcava o pulso com os dedos.

Lá fora, um frio esperava.

Era iminente. Hoje também não haveria sede.


[DEUS NÃO É CASUALIDADE]

Deus não é casualidade
Casualidade é encontrá-lo no cemitério
na fila
de entrada


[NO ESCRITÓRIO NINGUÉM FUMAR]

No escritório ninguém fuma
No bar ninguém fuma
No meu ventre
ninguém fuma

O que fazer, então,
com tantos pulmões?


[SE O PRESENTE É A CASA]

Se o presente é a casa
e quem está não é quem era

para onde abrir a boca
a fechadura


[GUARDE SUA GALINHA]

Guarde a tua galinha
no quarto
Coloque-a ao lado da cama

Deixe-a pular e ficar indisposta
porque não a deixas livre

Não peças a ela
para rezar ao lado teu
Não imite seu canto

Esconda-se em suas asas

Segure-se forte


[NINGUÉM OUSARIA]

Ninguém se atreveria a dizer
que entrar em um quarto de hotel
é uma façanha

Muito menos se ele não tiver placa
E permita ao teu corpo
apenas três horas de raio-x

com a esperança de que
quando abrires os olhos
—ou as pernas—
a luz volte


1 comentário em “10 Poemas de Beira Lisboa (Venezuela, 1982)”

Deixe um comentário para Freddy Aguirre Morales Cancelar resposta

error

Gostando da leitura? :) Compartilhe!