3 Poemas de Francisco Méndez (Guatemala, 1907-1962)

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Curadoria e tradução de Floriano Martins

Francisco Méndez (Guatemala, 1907-1962). Inicialmente, foi professor, funcionário de escritório, caminhoneiro e secretário municipal. Ainda muito jovem, mudou-se para Quetzaltenango e começou a publicar nos jornais La Tarde e La Idea. De lá, passou a enviar seus escritos para o jornal El Imparcial, onde, algum tempo depois, trabalhou como editor-chefe por muitos anos. Pouco antes de sua morte, viajou pela Europa e Ásia. Pertenceu à Geração de 1930, também conhecida como Geração Tepeus. Faleceu na Cidade da Guatemala em 1962. Obras poéticas: Los dedos en el barro (1935); Romances de tierra verde (livro escrito em parceria com o poeta Antonio Morales Nadler, 1938); Alas (1949); Seis nocturnos (1951). A Universidade de San Carlos compilou grande parte de sua obra poética sob o título Poesía de Francisco Méndez (1975) com prólogo de César Brañas. Obras narrativas: Cuentos (prêmio no Certamen de Ciencias, letras y bellas artes, compartilhado com Raúl Carrillo, 1958); Contas de Joyabaj (1984). Em 1936 publicou a novela Vida de Artemio Lorenzo.


NOITE

Enquanto a chuva cresce na noite, enquanto reza
ave-marias desconhecidas e bate a cabeça
como uma Medusa furiosa contra o penhasco escuro,
meu coração medita. Meu coração, endurecido
por cochilar, meu coração aberto
e fixo e congelado como o olho de um morto,
torna-se uma cabeça pensativa, um fragmento
do meu pensamento atingido por um martelo,
e é como se a água caísse de um eco,
como a cachoeira muda de um rio seco
que insiste em ser laborioso e reto.

Uma cachoeira de morte que a vida carrega consigo.

Ela era boa, ela era simples. Tão refinada
que mesmo quando a chamei de Amada, um espinho a perfurou.

Se eu beijasse suas mãos, minha boca se enchia
de dor luminosa, e assim minha boca louca
sentia o movimento de uma estrela; se eu ouvisse
sua respiração, meu ouvido quase se dissolvia.

A presença da névoa, a ausência de pombas,
o perfume sempre a seguia.

Se eu umedecesse meus lábios com seus cabelos, era
tão delicioso, tão doce, como se eu os estivesse bebendo.

Eu bebia seus olhos, como limonada sem gás,
seus olhos imensos e aquosos que não cabiam no Nada,
e então minha sede se acendia
para preencher o dia com pássaros e mastins.

Ela tinha gosto de borboletas, e seu perfume era
como se a própria alma ou o próprio coração cheirasse.

Se ela sorrisse, havia lírios; se ela meditasse,
a água nos vasos tremia, por contágio.

A grama da chuva cresce, a noite cresce.
Seus galhos de aguaceiro negro são balançados pela noite.

E aqui, em seu recanto estreito, meu coração, enquanto isso,
cresce também, e o choro cresce sobre sua noite,
choro que ressoa nas janelas, que golpeia
com nós sombrios contra meus próprios pensamentos.

Penso em seus cabelos que caíam como chuva sobre minhas mãos
e libertavam vermes em meus ombros nus;

Penso em sua pele cor de cedro beijada pela névoa,
sua pele com veias como minas profundas
de minerais delicados ou águas tão remotas
que até mesmo carícias chegavam quebradas;

Penso em suas coxas firmes cobertas de canela,
seus pés que deixavam um rastro de suavidade no ar
e semeavam borboletas;

Penso em sua boca como se houvesse rosas
onde ela repousava, em seus seios pequenos,
menores que dois graus Celsius de sonhos,
cuja leve canela dava a sensação
de beijar a própria borda de um coração.

Por que está chovendo esta noite como se o mundo inteiro
espetasse-se com espadas afiadas de aguaceiro?

Por que a fuga é tão tênue, em meio à escuridão
de mil cavalos d’água se esfregando contra uma parede?

Por que a noite se desfaz, com um som abafado,
sobre a água, como farinha fina?

Meu livro cai no chão, sem vida. Meu cigarro
gostaria de ser uma estrela, mas estou despedaçado.

Vejo que é inútil insistir, que é incerto.

Sei que para ela sou apenas um homem morto
que não quer apodrecer, mas está apodrecendo;

um homem morto já apodrecido que continua a morrer.

Mãos nos cantos como se ensacassem sombras,
pés nos caminhos esponjosos dos tapetes.

(Ela era boa, boa. Meu amor a abençoou.
Ela comia meu pão de cada dia em seus beijos
e em seus olhos ambos víamos claramente
sem nenhum esforço a vontade de Deus).

Lá fora chove, aqui dentro chove, eu mesmo chovo.

Sou uma tempestade que também é um abismo.

E se ouvires um relâmpago como o rasgar de trapos grossos e úmidos, esse é o meu pensamento.


NOTURNO NÚMERO 3

Pergunto-me agora o que espero, o que busco,
o que estou fazendo aqui na noite, derrotado e humilhado,
observando meu coração gotejar, meu coração úmido,
solitário como o relógio de um morto;
por que, em vez de sentir meu fígado ou meus pulmões,
ou o peso da minha língua, agora quase como líquen,
ou o preenchimento furtivo do pensamento, agora
sinto apenas meu coração caindo na água,
caindo gota a gota, suando em uma parede,
brotando da parede escura de mim mesmo,
como se eu estivesse me derretendo pouco a pouco
e rolando na água e sufocando,
afogando-me em pedaços indefinidamente.

Pergunto-me o que vejo quando não vejo nada,
com quem estou falando agora que falo comigo mesmo,
o que preenche o vazio das minhas mãos,
por que meu cabelo cresce como se doesse,
como se suas raízes estivessem sendo arrancadas,
ou como se meu cabelo fosse um pedaço daquela noite interior,
congelada ou infinita, que continua escapando de mim.

Brasa do meu lado, iodo na minha carne crua,
velho buraco negro, ou gancho, ou lamento gélido,
meu coração habita dentro de mim, sozinho, esta noite.

(Quem chama em meio à fúria de suas batidas?
Quem passa em seus passos? Quem martela pregos sombrios?)

Esta noite meu coração habita dentro de mim, sozinho.

Esta noite um monge vivo caminha por salas e corredores,
um monge que também é uma alma perdida.

E enquanto o silêncio dói e a vida dói,
e a noite me fere como uma imensa ferida,
meu coração se torna uma pequena noite,
uma fenda que bebe a noite gota a gota.


O ENCONTRO DA ROSA

Durmo do mesmo lado que o teu nome…
MIGUEL ÁNGEL ASTURIAS

No lado das rosas eu gostaria de dormir
com um travesseiro entre os lábios,
na beira do ar, minhas duas asas
como janelas acima dos espinhos;
no lado mais profundo das rosas
onde Omar Khayyam foi feito de vinho
e Santa Catarina de Bolonha
devolveu as roseiras à morte.

Para fugir da tua beira, eu dormiria
junto à rosa triste
que brotou dos meus beijos, do tamanho
da água quando dorme, devolvida
à mineralogia dos anjos;

para fugir da tua ausência e do teu esquecimento,
eu trocaria meu coração por uma rosa
murcha, por uma pétala cega
onde mal caberia uma sílaba,
uma letra, apenas a sombra
da primeira letra do teu nome.

Dentro de uma rosa de Bengala
ou um verso de Saadi, eu dormiria
livre de amor, ou talvez apenas de amor,
fora do paraíso do seu nome,
tendo já conquistado o esquecimento que carrega espinhos
mais doces que rosas, o esquecimento
que é uma rosa negra por fora,
mas por dentro séculos de ternura.

Eu beberia seu coração amargo,
um frasco doloroso de esquecimento
para saciar minha sede, e beberia
seu nome, ainda mais amargo,
se eu adormecesse ao lado das rosas.

(O que aconteceu com os As do seu nome,
ontem açúcar e hoje penhascos?
O que aconteceu com a sua voz onde a aurora despontava
para os pobres pássaros canoros?
O que aconteceu com você, amada,
que caminha dissolvida na névoa e ao lado de paredes azuis
entre montes de areia?)
Quero deitar-me ao lado das rosas
varridas pelo vento impetuoso do esquecimento,
ao lado dos anjos que vigiam
com suas velas latinas sobre os ombros,
ao pé do mar; ao lado dos sonhos
agora apenas água para borboletas,
ao lado generoso do esquecimento
que apaga arestas afiadas e sabe
como rosas nascem de facas
e como um prego enferrujado sonha.

Quero deitar-me ao lado da noite,
no lado onde a noite é mais densa
do que a palavra não pronunciada;
mais noite do que a noite sem fim
do amor esquecido e inesquecível.

Deixa-me deitar entre corolas
de corações mortos, despojados de suas pétalas,
eu mesmo, desenterrado nas valas
onde meu coração se tornou um verme.

(Conto a longa noite das horas
na esperança de esquecer que sou o próprio esquecimento
em pé, que até o esquecimento me esqueceu.
Conto a longa noite das horas,
as longas contagens das horas da noite,
a contagem das horas da longa noite,
a noite em que conto as longas horas,
digo, quero dizer, estou dizendo

“Conto as longas horas da noite”
para não pensar em você, mas no seu esquecimento).

Quero dormir, quero sonhar junto à
água, das rosas que desabrocham
para não pronunciar as letras do seu nome;

mergulhando fundo nas águas
do sono, até a linha rosada
onde a agonia se transforma em rosas
surdo à tua voz submersa,
surdo à tua imagem de água se dissolvendo,
surdo ao meu coração cheio de peixes
e aos peixes vorazes do teu nome.

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