5 Poemas de Johanna Carvajal Arboleda (Colômbia, 1993)

| | ,

Curadoria e Tradução de Floriano Martins

Johanna Carvajal Arboleda (Colômbia, 1993) é poeta e historiadora. Ela também trabalhou como gestora cultural, líder de workshops e professora, palestrante, escritora, editora, tradutora e membro do júri em festivais internacionais de filmes de terror e fantasia. Seus poemas foram publicados em importantes revistas literárias em vários países, em várias mídias online e em antologias nacionais e internacionais. Ela participou de vários encontros de poesia locais, nacionais e internacionais, incluindo na Colômbia, Equador, Índia e Reino Unido. No “Festival Internacional de Poesia Sangam 2022: Confluência de Poetas do Mundo” na Índia, ela foi homenageada por sua participação e trabalho poético. Alguns de seus poemas foram traduzidos para o árabe, vietnamita, francês, nepalês, italiano, bengali e inglês, e publicados em algumas mídias no Reino Unido, Índia, Bangladesh, Vietnã, Camarões, Egito e Espanha. É autora das coletâneas de poesia Ensoñaciones Grises (2018), Jardines de Ónix (2020), ದೇವಿಸಂಪುಟ Devi Samputa (publicado na Índia: tradução em canarês por H. S. Shiva Prakash, 2020), da antologia pessoal Fotografía del Vacío (2020), El llanto de las Sibilas (2023) e Maidens in Heaven (Reino Unido, a ser lançado). Atualmente, trabalha em sua coletânea de contos Medellín Espectral. Contos de aparições e fantasmas.


FIAT SILENTIUM. ET IN SILENTIO, JUDICIUM

Houve um tempo em que eu acreditava em coros.
Eu acreditava na corda tecida entre vozes,
na comunhão dos frágeis.
Mas o cântaro aprendeu
que nem toda água é limpa.
Eu não as nomeio.
Seus nomes não flutuam mais.
São pedras amarradas a peixes mortos
na poça do que eu calo.
Eram uma maré disfarçada de praia,
eram um casaco com veneno nas costuras.
Não quebraram meu rosto,
quebraram o clima onde eu floresci.
E essa é uma ferida
que não sangra,
porém muda a forma do vento.
Agora,
eu caminho com meus olhos interiores,
aqueles que veem o que fica por dizer.
Eu sei,
eu sei como o desprezo se disfarça de distância,
como a zombaria se torna um poema em outras bocas
enquanto algo ou alguém apodrece na exclusão. Mas eu não apodreci.
Eu vesti o barro.
Eu era uma urna selada com cinzas vivas.
Eu não cresci, me transformei em algo sem forma,
um rizoma sem necessidade de broto,
uma noite que aprendeu a não buscar o dia.
Não esperem uma flor.
Eu me tornei uma cifra.
Em uma língua selada que nenhum de vocês consegue pronunciar.
Em uma órbita sem retorno.
Em um abismo que não exige mais testemunhas.
Eu deixei de ser terra e me tornei um limiar.
E não tens chave.
Nenhum corpo.
Nenhuma absolvição.


GIACOMO LEOPARDI OBSERVANDO A LUZ DE UMA VELA

E enquanto ouço o vento
sussurrando entre estas árvores, eu
comparo aquele silêncio infinito a esta voz
e me lembro da eternidade…

Giacomo Leopardi, O Infinito

Na célula terrena de seu corpo dolorido,
Giacomo inclina sua alma em direção à chama,
não com os olhos – cansados de ver a matéria –
porém com a profundidade que habita por trás do pensamento.
Uma vela queima,
e em seu brilho mínimo
habita todo o mistério.
Não o consolo,
porém o sinal.
A cera geme lentamente,
como se soubesse
que tudo o que existe está morrendo
desde o momento em que nasce.
Leopardi contempla,
porém não indaga.
Ele sabe que a luz não responde,
apenas revela. Ele vê na dança do fogo
a pulsação secreta do cosmos:
uma vontade sem rosto,
uma eternidade sem testemunha,
uma divindade que não escuta.
A chama o atravessa,
como a dor atravessa
um coração ferido,
como o vento atravessa
um campo sem nome.
Por um instante,
o poeta é apenas consciência ilimitada,
uma faísca suspensa
entre o nada, o silêncio e a luz.
A vela não ilumina a noite,
ilumina a impossibilidade de superá-la.
E nessa impossibilidade,
Leopardi encontra a verdade:
o infinito não está no céu,
mas na quietude
de aceitar que tudo queima
e tudo cessa
sem razão alguma.


VARANASI

Caminhei por Varanasi como se estivesse em um sonho,
e o Ganges não era um rio, mas um espelho:
Vi um homem morrer cercado de flores,
e algo em mim também queimou, sem dor.
Fiquei sob a sombra da antiga figueira-de-bengala,
onde o silêncio repousava como um deus adormecido,
a terra cantava nomes que o tempo esqueceu,
e cada raiz murmurava um verso védico perdido na história.
O fogo falou comigo, na língua dos Rishis,
e o rio, ainda recém-nascido, ainda criança,
renovou e lavou a minha alma.
Os deuses desceram do céu
na forma de homens e mulheres,
e a cada passo deixaram uma luz que ainda hoje me queima.
Buda acordou sem se mover do centro,
enquanto Ashoka pousava sua espada sobre as flores.
As pedras contavam histórias em sânscrito,
e os templos respiravam como corpos repletos de amor.
A Índia era a memória revestida de incenso,
de um coração feito de ruínas e ouro,
onde o eterno se esconde em pó e sal.
A história não caminha em linha reta nesta terra:
aqui a verdade se transforma como uma mandala,
o real se dissolve, o invisível é tocado, desenhado,
e a alma é esculpida em carma.
Quem cronometrou o voo de um mantra?
Quem dominou o sol quando ele dançava em Kashi?
À sombra da figueira-de-bengala, o mundo se dobra.
Os olhos não veem, porém o coração se lembra:
a Índia não é um lugar, é um limiar secreto,
uma pergunta iluminada nas profundezas do ser.
Viajei para a Índia em busca de perguntas,
mas foi o silêncio que me encontrou.
Ele não falava em palavras ou mantras,
mas em olhares, cinzas e lágrimas.
Eu não entendia seus deuses,
mas eles falavam comigo de maneiras que eu não conseguia decifrar:
em uma vaca dormindo em meio ao caos,
em uma garota rindo desdentada, sem pressa.
Em um templo, eu sentia que o tempo não era tempo,
porém um fio fino preso à minha pele.
Shiva dançava em meu peito sem música,
e por um instante, eu não era eu.
Eu não era mortal.
Eu era terra, sombra, ar parado.
Eu era uma entre milhões de perguntas
que caminham descalças através dos séculos.
Fiquei sob a sombra da figueira-de-bengala,
e entendi que viver também é se render.


[PODERIA TER SIDO MUITAS OUTRAS]

Posso ter sido muitas outras, porém meu saco de pele e ossos carregava a alma de quem eu sou hoje. Eu poderia ter sido muitas, incontáveis…
Talvez eu pudesse ter nascido às margens do Nilo e passado a vida entre camelos e areia, visitado os jardins suspensos da Babilônia e bebido de seus riachos, tido a Acrópole a meus pés, ou cumprimentado Beethoven em alguma rua de Viena… Porém tudo isso me foi negado. Minha carne foi levada para um lugar onde o sol nasce forte todos os dias, e minhas bochechas pingam suor de sua saudação ardente. Poderia ter adotado o islamismo ou testemunhado a queda do Muro de Berlim, porém jamais fui nenhuma delas. Vinte e sete anos tentando entender as visitas de Deus em meus sonhos e sua constante necessidade de me dizer que as flores de cipreste ainda não secaram, vinte e sete anos testemunhando as figuras fantasmagóricas dos ausentes que foram para a montanha e nunca mais voltaram para casa. Eu poderia ter sido muitas, porém agora sou a voz furiosa que jaz no centro do mundo.


A LINHA INVISÍVEL

Ke amaro jilo hin drum o them. Na hin amen them, amen hin o drom.
Tradução do Kalderash Romani para o português:
Porque nosso coração é o caminho do mundo. Não somos da terra; nós somos o caminho.

O mundo foi dividido com palavras.
Nascemos antes das bordas.
Não éramos de um lugar,
porém de movimento.
Não carregamos um santuário,
porque o corpo é um altar
e o fogo, uma testemunha.
O tempo nos olha dos escombros,
porém não nos detém.
Sabemos que a história não está escrita na pedra,
e na pele que lembra.
Somos uma pergunta
que o mundo se faz
quando o silêncio cai.
Aqueles que não entendem o fogo errante,
é porque não olharam o mistério de frente.
Não pedimos terra,
porque a carregamos na memória de nossos pés.
Nem deuses alheios,
porque o Sol nos fala
em uma língua que ninguém conseguiu traduzir.
Cada geração é um eco,
uma linha invisível que pulsa profundamente.
Fomos perseguidos por chamas,
e também pela fumaça que atravessa paredes.
A dor não nos nomeia.
Nomeia o momento em que,
no meio da noite,
uma voz canta sem razão,
e só a escuridão escuta.
Somos nós que ouvimos o vento
quando ninguém mais acredita nos sussurros.
Somos nós que olhamos nos olhos do mundo
sem pedir permissão.

Deixe um comentário

error

Gostando da leitura? :) Compartilhe!