Curadoria e tradução de Floriano Martins
Vicente Gerbasi (Canoabo, Venezuela, 1913-1992). Poeta e ensaísta, filho de um imigrante italiano, mudou-se para a Itália e concluiu o ensino médio em Florença. Ao retornar à Venezuela, trabalhou por algum tempo como publicitário, mas logo se dedicou à literatura com profunda vocação. Entre 1926 e 1941, foi membro destacado do grupo e da revista Viernes, ao lado de importantes poetas da época. Integrou o corpo diplomático de seu país por muitos anos, representando-o em diversos países das Américas e da Europa. Entre seus livros de poemas, destacam-se: Vigilia del náufrago (1937), Liras (1943), Mi padre, el inmigrante (1945), Los espacios cálidos (1952), Círculos de trueno (1953), Por arte del sol (1958), Olivos de eternidad (1961), Poesía de viajes (Prêmio Nacional de Literatura 1969), Retumba como un sótano del cielo (1977), Los colores ocultos (1985), El solitario viento de las hojas (1990). Em 1982, recebeu o Prêmio Cognac de Poesia pelo melhor livro do ano e foi nomeado Professor Honoris Causa na Universidade Simón Rodríguez de Caracas.
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O tema do nacional na poesia e na arte em geral sempre moveu apaixonadas discussões em todas as partes do mundo. Durante os últimos anos adquiriu um extraordinário interesse no continente americano pelo fato de que cada um de nossos países quer começar a fundamentar uma verdadeira tradição no campo da arte. Outro dos motivos pelos quais tanto nos preocupa este tema constitui o fato de que sendo nosso hemisfério um mundo virgem e iluminado pelo sol dos primeiros dias da criação, ou seja, um mundo que oferece grandes possibilidades expressivas ao artista, não tenha conseguido, senão através de uma que outra exceção, expressões artísticas realmente autóctones.
Ao falar deste problema queremos nos referir à América Latina e não à América do Norte, quer dizer, anglo-saxônica, porque esta possui uma fisionomia completamente distinta da nossa.
Não nos explicamos como um mundo tão rico em aspectos como o nosso, tão misterioso e alucinante, não tenha ainda podido dar artistas que o expressem integralmente. Talvez no México os pintores tenham se aproximado disto e, na Venezuela, Rómulo Gallegos na novela, e, no Peru, o grande poeta César Vallejo, e, no Chile, Pablo Neruda, Rosamel del Valle, Humberto Díaz-Casanueva e outros. Na Colômbia, Rivera e García Márquez.
Nosso mundo americano, com sua áspera, desolada e diabólica geografia, com suas enfeitiçadas selvas, com seus rios mortais que arrastam ouro e diamantes, com suas montanhas inchadas de fogo, com suas planícies de solidão, com suas roídas costas, é um maravilhoso caos que dá profundidade e força à alma de seus moradores.
Do continente americano, sem dúvida alguma, são as regiões equinociais as que possuem maior poder de sortilégio, já que estas terras se encontram ainda em seu estado original, e porque aqui a natureza conserva o domínio absoluto de sua magia primogênita.
[…]
São contados os casos de poetas venezuelanos que tentaram expressar de forma essencial os fenômenos e elementos de nossa geografia. Muitos dos que quiseram fazer uma poesia interpretativa do nacional caíram no elementarmente nativista, criollista, decorativo, descritivo e muitas vezes demagógico.
Isto se deve, creio eu, ao fato de que caíram no chauvinismo ou, melhor, no provinciano e paroquial.
[…]
É necessário e iniludível que nossos poetas e nossos artistas em geral penetrem na essência misteriosa de nossa terra, ou seja, na alma venezuelana, e a expressem, mas sem esquecer os complexos fenômenos de nosso tempo e a evolução dos problemas estéticos.
De minha parte creio que está mais próximo de uma expressão genuinamente nacional um surrealista verdadeiramente dono de vivências venezuelanas do que um poeta de barrocas formas angelicais que nada têm a ver com nossa terra nem com nosso tempo.
Quando me refiro ao surrealismo o faço simplesmente para indicar uma das novas correntes poéticas. A poesia já tem ido um pouco mais além desse fenômeno de entre Deux Guerres.
VICENTE GERBASI / “Lo nacional en la poesía”, texto apresentado pelo poeta ao receber o título de Doctor Honoris Causa da Universidade de Carabobo. Valencia, março de 1984.
DOCUMENTO DOS SENTIDOS
Aqui está um propósito alucinado,
mais um passo em direção à beira do abismo,
em direção às profundezas selvagens da música,
onde uma pastora dorme cercada pelas ervas do ano:
fazer o relâmpago brilhar sobre os materiais da sombra,
iluminar os cogumelos nos cantos da floresta,
despertar a água em seu silêncio de serpentes azuis.
Aqui sou um habitante do som, da umidade, dos ossos,
em um mercado escuro,
onde maçãs e pinhas se derramam,
onde o olho da sardinha brilha.
Eu havia deixado meus pais para trás, colhendo bolotas no crepúsculo,
vestindo espantalhos com uma luz distante.
Meus filhos vieram das sombras, pastoreando coelhos,
colhendo estrelas na grama.
Onde eu estava quando descobri a música
que faz as flores do dia transbordarem como em um espelho? Minha idade dera início a uma caçada ao veado sob as palmeiras,
guiara o enterro de um camponês
em direção ao lugar lúcido das cigarras.
Para onde eu ia, cruzando as noites de bambu
e a luz dos falcões?
Entrei na cidade ouvindo os sinos,
olhando as janelas abertas em um mês claro.
O perfil resume os arcanjos,
desperta estátuas no crepúsculo.
A cidade depois da chuva
é o espelho escuro dos mendigos.
Eis um propósito alucinado:
fundar um espaço de luzes, de besouros, de rostos
no documento dos sentidos.
PENUMBRAS SECRETAS
Encontrei a desgraça ao amanhecer,
em um cavalo sangrando
com a cabeça ligeiramente caída na grama
e os gritos da minha irmã de dois anos
que havia passado por uma cirurgia abdominal.
Senti um pouco de sangue nas mãos,
uma dor triste como a de uma cabra abatida,
uma pele deixada a secar sobre pedras.
Caminhei pelo ar frio das últimas estrelas
onde galos dispersos habitavam,
e senti a minha própria presença
em uma árvore iluminada nos fundos da casa.
O dia acolheu o cavalo ferido
com as lágrimas da minha irmã nos olhos.
O dia confinou-me a cantos escuros.
Continuei a ser um homem triste que espanta as moscas da tarde
ou desenha uma igreja rodeada de aves marinhas.
BOSQUE DE MÚSICA
Meu ser flui em tua música,
uma floresta adormecida no tempo,
entregue à nostalgia dos lagos do céu.
Como posso esquecer que sou uma melodia oculta
e tuas sombras austeras a voz dos mistérios?
Interroguei o ar que beija as sombras,
ouvi tristes fontes perdidas no silêncio,
e tudo eleva meus sonhos à música celestial.
Vou com as fontes que te visitam à noite,
que dão vida às flores em tuas sombras azuis
e me revelam o vago sofrimento de teus segredos.
Teu sono de vagalumes é astronomia lenta
que gira em meu sussurro de folhas ao vento
e dá asas aos suspiros das almas que escondes.
Morreu aqui o caçador, ao pé das orquídeas,
o caçador nostálgico inebriado por tua magia?
Oh, bosque: tu que sabes viver em solidão
para onde vai o suspiro profundo na noite?
NA PROFUNDEZA FLORESTAL DO DIA
O simples ato da aranha tecendo uma estrela no crepúsculo,
o passo elástico do gato em direção à borboleta,
a mão deslizando pelo dorso quente do cavalo,
o perfume sideral da flor de café,
o sabor azul da baunilha,
me detêm nas profundezas do dia.
Há um brilho côncavo de samambaias,
uma ressonância de insetos,
uma presença cambiante de água nos cantos pedregosos.
Reconheço aqui minha idade feita de sons selvagens,
de luz de orquídea,
de um espaço quente de floresta,
onde o pica-pau cura o tempo.
Aqui o pôr do sol inventa uma pedra preciosa vermelha, uma constelação de vagalumes,
uma queda de folhas lúcidas em direção aos sentidos,
em direção às profundezas do dia,
onde meus ossos selvagens se encantam.
HÁ MUITAS MANEIRAS DE ESTAR MORTO
Não quero explicar por que meus olhos
conseguem ver este castelo coberto de hera
muito verde-escuro e solitário
sob as estrelas das corujas,
nem por que meus olhos conseguem se demorar
para observar a neve cair por tanto tempo,
até cobrir todos os mortos
e deixá-los lá com suas vestes
de cores diferentes no gelo.
Meu pai foi enterrado nos trópicos,
em Canoabo, e seus olhos, portanto, não congelaram,
mas talvez tivessem a ver com coisas
bem diferentes do frio,
sem dúvida, com cobras que perfuram a terra
e sibilam na praia dos mortos
como na margem de um lago
de juncos distantes e relâmpagos.
Há diferentes maneiras de estar morto,
mesmo que estejamos vivos em meio aos planetas,
com o rosto como a Terra
fotografada de Gêmeos 13,
vendo nossos próprios olhos
cercados por ossos,
um pouco acima dos dentes;
contemplados nos olhos dos peixes
que nos observam nas peixarias iluminadas.
Há muitas maneiras de estar morto,
e sempre nos é possível pegar nosso crânio
e colocá-lo para descansar à beira da sepultura,
ou levá-lo para o grande salão de baile,
como talvez Hamlet tenha feito,
enquanto Ofélia colocava um véu de luar nevado,
ah, de luar nevado entre as bétulas.


