6 Poemas de Haydee Nilda Vargas (Bolivia, 1949)

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Curadoria e tradução de Floriano Martins

Haydée Nilda Vargas (Bolívia, 1949) nasceu em Igüembe, uma pequena cidade com nome guarani no Chaco, sudeste da Bolívia. Formou-se na Escola Normal Nacional de Sucre e posteriormente na Universidade Gabriel René Moreno. Lecionou na Bolívia e trabalhou na seção de suplementos do jornal El Mundo, em Santa Cruz de la Sierra. Começou a publicar poesia nas revistas Borrón (1997-1998). Em 1990, seus trabalhos foram incluídos na antologia poética Breve Poesía Cruceña II. Foi membro do grupo Litera Viva, que publicava a antologia anual Digesto, e contribuiu para a seção cultural do jornal boliviano El Mundo de 1996 a 1998. Em 2006, participou, juntamente com a escritora boliviana Blanca Elena Paz, do VII Encontro de Escritoras Rosalía de Castro, em Nigrán, Espanha. Em 2008, foi convidada pela escritora peruana Mara Lucy García para participar da antologia boliviana Escritoras de hoy. Em 2015, publicou na antologia de poesia do XIII Encuentro de Poetas en Red. Desde 2009, reside na Catalunha e colabora com a revista Hispano & Punto, publicada em Madri, promovendo a produção literária de seu país. Participa ativamente do grupo literário Universos Poéticos em Pineda de Mar, do Laberinto de Ariadna em Barcelona e do Club Lectoras del Maresme. Sua relação com os livros a apresentou a grandes poetas e incentivou sua própria escrita em um fluxo constante de sentimentos em contato com o mundo e a natureza. Alguns desses versos foram posteriormente reunidos no livro Caer al cielo.


A CASA

A casinha da minha infância
tinha um exército de guardiões.

Às vezes, em sonhos,
sinto as costas do meu zelador

ou ouço o choro do mais velho,
anunciando a procissão de almas atormentadas.

Em meus ouvidos, a voz do meu pai ainda ecoa.

Apesar do tempo,
sinto o carinho ressonante da minha mãe.

Seus ensopados, a carne grelhada
revigoram os sentidos com o hálito de uma fogueira
que se transforma em cinzas.

A casinha geme,
castigada pela chuva,
humilhada pela ausência,
e o sol de verão
incendeia o jasmim.

A romãzeira no pátio,
orgulho do meu pai,
talvez ainda esteja de pé,

do que tenho certeza

é da imortalidade da figueira,
onde meus elfos brincavam.

Um sorriso radiante
Toco a campainha de sentimentos
que espreitam
em algum canto da memória,

Espero que abram a porta,

segundos em voo,
momentos distantes em suspiros,
a flor de laranjeira inebriante
do limoeiro,
o pomar
da casa da minha infância

Ouço passos se aproximando
minha mãe aparece na porta,
eu a abraço,
um sorriso ilumina o dia.


FAMÍLIA DE SANGUE

Eu os vejo em meus olhos,
na cor da minha pele,
na estrutura do meu corpo
que interrompeu sua ascensão.

Eles vibram em minhas veias,
eles viajam com meus pés
que marcam os passos do meu pai
e traçam o sorriso e o cabelo da minha mãe.

Eu os vejo na casa dos meus sonhos,
quando a memória sorri,
eu aperto o silêncio,
para senti-los ou acariciá-los
com meus pensamentos:
filhos, irmãos,
sobrinhos, netos

todo o meu sangue em família.


PINTANDO A FELICIDADE

Você se tornou uma ponte sobre o abismo,
meus pés cruzaram para o jardim sonhado
em suas costas.

Do outro lado,
o céu em seus olhos,
agora penitente.

Eu te embalarei em meu ventre.

Quando chover,
espremerei a areia,
e teremos leite.

As dunas do silêncio desapareceram
com a brisa da aurora.

Vamos pintar mesas perfumadas,
delírios de sol em campos sem dono,
e deixar a morte nos invejar.


ENCONTRO

Ao seu lado,
decifrei
a brevidade,
o infinito,
os pulsos
da vida.

Seus olhos falam,
sem culpa ou glória.

Seu olhar
erradica o medo,
como os ciprestes,
que desafiam o céu,
buscando a chave,
misteriosa para o tempo.

O preço do momento
não se negocia
com ternura,
nem se negocia
com sua rendição no exterior.

Como a brisa ou o orvalho
que acaricia sem recompensa,
ele está na minha pele,
eu em suas mãos,
indefinidamente.


CAMINHOS

Você caminha em silêncio
no asfalto.

Você vagueia por cantos escondidos
com uma melodia crescente,
com sinos de alerta,
com partituras
em tons de arco-íris.

Seu manual de instruções
que expira como um suspiro
marca linhas retas.

Os caminhos têm curvas.

A geometria da experiência
não tem elevador de escada.

Mesmo que a sombra de seus passos
quebre a equidistância de ruas paralelas,
e um dia elas se encontrem em uma esquina,
você caminhará por linhas curvas, ângulos e vértices.


ESTÁ CHOVENDO

Um vento frio e furioso
espreita pelo buraco da fechadura.

Penso nas mulheres,
nas crianças,
nos homens sem-teto
que dormem na rua.

Gostaria que alguém lhes oferecesse um café quente
como este que tenho nas mãos.

Quando não se tem um teto sobre a cabeça,
percebe-se
que tudo é estranho,
que tudo tem uma fechadura,
e só a rua oferece
sua sinfonia de luas,
mesmo que a noite bata no seu rosto
e o tempo crave espinhos nos seus ossos.

Olho pela janela.

Está chovendo.

O vento não para,
sopra cada vez mais forte.

Vou me agasalhar bem
para que ninguém sinta frio na rua.

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