Curadoria e Tradução de Floriano Martins
Carla Bod (Cañada Rosquín, Santa Fé, 1994) é poeta e ativista cultural. Estudou Filosofia, Expressão Corporal e Comunicação Social. Publicou de forma independente Miseria y carcajada (2015) e o fanzine-objeto Últimamente es fin de mes todo el mes todos los meses (2023). Organizou inúmeros ciclos de leitura e recitais de poesia, entre eles o Rosa Rabia: festival que reuniu artistas de todo o país. Foi co-apresentadora do programa de rádio Sábado Ciclotímico e atualmente trabalha em uma agência de publicidade. Ganhou vários prêmios e menções que nunca recebeu. Atualmente mora em Rosário e, em agosto de 2024, publicou sua coletânea de poesias Alguien ahí que abrace este cuerpo, pela editora Astronauta Ruso. Gosta de cozinhar, flores e pós-punk. A poesia de Carla Bod é caracterizada por uma profunda exploração da intimidade, da memória e da materialidade da vida cotidiana. Ela também explora a complexidade das relações humanas e a forma como o espaço e o tempo se entrelaçam em nossas experiências. Por meio de imagens vívidas e linguagem evocativa, Bod captura a essência do que significa habitar um espaço físico e emocional, bem como as marcas que os relacionamentos deixam nesse ambiente.
ALGUÉM AÍ QUE ABRAÇA ESTE CORPO (fragmentos)
2.
quando a boca ou a língua
cortarem o ar
estarei do outro lado
esperando por um homem vivo
mais crédulo e inquieto
que corte meus espinhos
com a boca ou a língua
4.
somos o frio tenebroso
das palavras
nervos à flor da pele
pela fome de teu corpo
a sede
ou o tremor de teu púbis
miséria e riso
projeto insosso
/de homem romântico
14.
vou embora no domingo
e vou como quem vai
com o murmúrio de quem esvazia
uma casa para encher outra
na poeira pisoteada das coisas
no espaço estreito que resta entre nós
vou embora no domingo, querido
roço as súplicas para que não me habites
carrego as tuas mentiras às costas
certamente estarás
assombrando a casa onde
as minhas coisas deixaram
o branco
18.
uma melodia soa dentro de mim
não duvido mais
se este corpo não fosse meu,
seria pálido
não duvido mais
se este não fosse meu corpo
o amarias
29.
o peso dos objetos nesta casa
pode acomodar
o peso de uma vida
acomodar na miopia
o que nunca foi
uma imagem sonora
abre para ti o silêncio
e te devolve a este lugar
onde nunca estiveste
pela janela
subiste na árvore
quero dizer:
ver-te de sua copa
exila teu próprio nome
30.
eu me pergunto
o que meu corpo deixará para trás
nos cabelos que se enroscam em meus dedos
nos cabelos que bloqueiam o buraco da banheira
nos cabelos que decoram as golas de todos os meus vestidos
o que deixará para trás
nessa generosidade com a escova
em sua insistência de pétala seca
imprecisamente
eu os agrupo por tamanho
na cerâmica branca da pia
desenho com meus cabelos
um símbolo de dor:
teu rosto
31.
à noite uma febre repentina
me levou para a segurança
em meu coração, um animal ardente
poliu a pele um veludo vermelho e sensível
estou derrotada – eu te disse –
nos entreolhamos, incapazes de distinguir
o exterior do interior
51.
como um espaço vivo
afundamos
no corpo da noite
num devir de lençóis sujos
e cigarros
como um lugar de reminiscências
circulamos nas antiguidades
essa reprodução da carne
carne que se apressa a se deixar espremer
novamente entre os lençóis
buscando trégua
no dia
que nos revitaliza
como um solo habitável
onde as avós virão regar suas flores
onde as pontes crescerão para retornar
sempre



