5 Poemas de Valentine Penrose (França, 1898-1978)

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Apresentação e tradução de Floriano Martins

Valentine Penrose (1898-1978) alcançou imenso reconhecimento graças a uma narrativa impactante dedicada à vida de Elizabeth Bathory, a condessa húngara do século XVI que se mantivera sempre jovem graças a seus banhos com sangue de virgens capturadas e mantidas no calabouço de seu castelo. A narrativa, saudada por Georges Bataille, inspirou vários filmes. Valentine escreveu outras narrativas, marcadas quase sempre por um cenário de lesbianismo, além de poemas, desenhos e colagens. Agnés de La Beaumelle observa que ela era uma figura escandalosamente bela e excêntrica do Surrealismo, celebrada pelos retratos de seu marido Roland Penrose e seus outros amigos, destacando ainda seus escritos poéticos, impulsionada por sua paixão boêmia pela natureza e seu interesse pelas ciências ocultas e filosofias orientais, que a fariam viajar e adotar temporariamente, entre outros, o hinduísmo. Sua poesia está sedutoramente repleta de uma altíssima voltagem de erotismo, com pitadas que adentram os domínios do ocultismo, bem como do misticismo feminino. Igualmente sua colagem enreda-se por um cenário mágico bastante fértil. Há nela uma combinação entranhável envolvendo poema e colagem, com destaque para o livro Dons des féminines, de 1951. Outros livros publicados são Herbe à la lune (1935), Sorts de la lueur (1937) e Les Magies (1972).


[ONDE ESTÁS QUE RECOMEÇAS]

Onde estás que recomeças
teus cabelos como um ramo
sustentando os globos e as copas?

A flor de sol murcha
eu te ofereci as rendas verdes
e saltaste até o único coração necessário
sem girar ou vacilar
sem erro
quieta

em meio ao sangue da luz.


A FRANCESCA

Mãos doces não-me-esqueças no gatilho dos fuzis
luto e me prosterno
diante dos mortos em teus cabelos como foices
tu, cantora dos ossos profundos de marinheiros dos soldados


[CUIDADO COM AS MULHERES CUJAS IRMÃS SÃO BELAS]

Cuidado com as mulheres cujas irmãs são belas
Cuidado com as putas cujas amantes são belas
no gentio onde nossos olhos
trocam seus olhares
estéreis


[VAMOS AOS CONFINS ONDE O SOL É FRIO]

Vamos aos confins onde o sol é frio
Onde seja impossível ingressar na paisagem
Das coisas que virão desconcertadas umas firmes outras
Eles falam conjeturam
Nunca houve nada tão enfeitiçado. Adeus minha bem amada
Tua mulher de clamores está na paisagem
Adeus, Ruiva.

*

Vem dormir comigo no leito desses ancestrais
Onde foram forjados os brios de tua beleza viva.
Regressa, oh absorvente. Ante os véus de tuas ancas
Onde me ajoelho
Como ninguém antes rogou
Eu rogo a ti que me deixes dormir e misturar-me com os tempos.

*

Oh Ruiva! Isto que saboreamos da feliz forma vivente
Esta morte abundante esta noite conjurada
Demasiado estendida hoje para minha solidão.


NOITE

Retornará a noite de inverno
Para estender-me a teu lado.
As fachadas beberão austeras
O clarão de lua e sua luz
Será expulsa de nossos beijos e braços.

O quarto jaz solitário com as cortinas baixas
Jazes tu sozinha com os olhos baixos
O clarão de lua é o clarão de teus braços
A noite traz sua nave imperturbada.

1 comentário em “5 Poemas de Valentine Penrose (França, 1898-1978)”

  1. Que beleza!

    Mãos doces não-me-esqueças no gatilho dos fuzis
    luto e me prosterno
    diante dos mortos em teus cabelos como foices
    tu, cantora dos ossos profundos de marinheiros dos soldados

    !!!!

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