Curadoria e Tradução de Gladys Mendía
Daniela Camacho (Sinaloa, 1980) é uma poeta e tradutora mexicana. Vencedora do Prêmio de Poesia Joaquín Xirau Icaza, distinção concedida pelo El Colegio de México. Atualmente, dirige o La68, centro cultural localizado em Mérida, Yucatán, México. Nasceu em Culiacán, Sinaloa, México. Estudou Engenharia Industrial no Instituto Tecnológico y de Estudios Superiores de Monterrey e concluiu um Mestrado em Letras Latino-Americanas na Universidade Nacional Autônoma do México. Foi fundadora e fez parte do conselho editorial da revista El Puro Cuento. Em 2018, recebeu o Prêmio de Poesia Joaquín Xirau Icaza pelo seu livro de poemas Experiencia Butoh, publicado por Amargord na Espanha e Cosmorama Edições em Portugal. Viveu em Tóquio, Lausana, Cairo e atualmente reside em Mérida, Yucatán, México. Publicou em poesia: 2007 En la punta de la lengua, 2008 Aire seria, 2008 Plegarias para insomnes, 2012 Pasaporte, 2017 Experiencia Butoh. Publicou livros de arte em colaboração: 2014 Carcinoma (com o artista visual Christian Becerra) e 2014 Híkuri (com o artista visual Christian Becerra).
: tokio
(uma voz/ não temas a propagação
o deslocamento da crosta terrestre
só ocorre em geografias mentais)
14:46. uma cidade amamentada pela luz, um arquipélago, a aquisição da minha linguagem em desenvolvimento. a acústica dos elementos presagia uma catástrofe.
mãe
olha para o mundo estremecer.
olha para minha coluna vertebral, sua curvatura, tu que ainda conservas o significado da minha infância entenderás isto:
a brutalidade me descobriu sem instrumentos. fiz-me ao exílio sem mais apoio que o pavor, como se com isso pudessem ser prevenidos os desastres.
a esta hora, as aves mais belas são as mais desorientadas.
a esta hora, as éguas passeiam de um lugar para outro, olham-se os flancos, suam. não querem parir. quietíssimas as mais desesperadas: colo do útero dilatado, contração involuntária. nada pode protegê-las do medo? pela vagina expulsam água. os membros do potro fazem sua primeira aparição, os ombros, a cabeça, e uma vez que entra na vida, faz isso para cair de novo ao solo.
sob este cenário, eu sou uma zona de desmoronamentos. mãe, podes ver-me? ninguém soube nos dizer o que era realmente a distância. esta alteração, o sobressalto, todos os alarmes e um vai-e-vem, um balanço tão feroz, tão desumano. devo abandonar a casa, reunir-me com as outras mulheres, as vi sair com seus filhos nos braços. agora sei que não há investida mais violenta contra o corpo que uma ilha.
muito perto de nós, o óleo penetra na baía. reconhecemos o cheiro dos incêndios. as mãos unidas, o rosto como quem finge uma serenidade.
alguém diz:
¾o inverno não é uma estação propícia para morrer. nos elevaríamos ao céu desordenando a queda da neve. teríamos que plantar uma floresta em outra floresta.
quietude. casca de magnólias. fumaça branca. o arroz ficou espalhado em pequenas mesas familiares. diante de uma cidade às escuras, só resta esquecer-se dos olhos. parar os trens. procurar um lugar quente para dormir. avançamos com as cabeças cobertas e o assombro e a dúvida. poder-se-ia pensar que vamos ligados, de mãos dadas. poder-se-ia pensar que não temem o desaparecimento. jishin, digo a mim mesma, terremoto. as notícias dizem nove. magnitude. o poderoso e o devastador. ainda não toquei a margem do espanto, estou ouvindo as estrelas.
o coração de tóquio é um berço e minha mão acidentada o embala.
: ishinomaki
o epicentro do terremoto localizou-se no mar. a leste de honshu. prefeitura de miyagi, região de tohoku.
51 minutos depois, mandíbulas abertas. isto é o espanto. o tsunami atinge a costa oriental.
onda de 10 metros, isto é a abundância.
onda de 15 metros, isto é a devastação e a fúria.
onda de 30 metros, isto é a abundância e a devastação e a fúria.
homens e mulheres que iluminam a minha escrita estão sendo engolidos. animais e templos, árvores, janelas.
o desespero é uma falsa cerimônia quando se pode ver um navio aumentar sobre a água e encalhar numa escola e transformá-la em escombros. existe uma forma mais veemente de dizer: aqui termina a infância?
o desespero é uma falsa cerimônia: há mãos destinadas a ordenar antigas sepulturas. como se a vida de uma aldeia que descansa entre colinas estivesse ali para ser exterminada.
o imprevisto guarda um segredo de ave migratória: flutua na margem uma noiva em seu quimono fúnebre tecido pelas ondas. ninguém sabe se seu rosto se embeleza com a morte ou se são as conchas, a espuma acastanhada nas suas abóbadas imensas que os acalma.
há uma ilha no meio do rio que se adentra na cidade e de lá retumbarão os taikos. ishinomaki, a invadida por corvos, tanta avidez fará descer a primavera sem mais acidente que o brilho das azáleas, virá com seu nome de mar despedaçado e as crianças terão visões e seus olhos serão selvagens serão maravilhosos.
: onagawa
um homem ri mecanicamente. é isso a desesperança? contempla uma casca deformada que antes era sua casa.
um deslumbramento. encarniçado. uma cidade submersa. os pescadores se protegem com feitiços e alucinações. o movimento e a putrefação os rondam. nenhum licor os adormece. a temperatura das crianças que se afogaram desencadeia a febre neles.
da boca descomunal de uma sobrevivente: onagawa não existe.
minha islísima, quantos corpos são necessários para te acalmar?
: fukushima
Sob os fios de alta tensão e as centrais nucleares,
a pobre vida do homem.
BirgittaTrotzig
genpatsu-shinsai. falamos a língua do desastre: tremor de terra. fusão nuclear. o inimigo permanece invisível.
cotovias particularmente escuras, quase decompostas, como nascidas do sonho de um homem já contaminado, agitam seus temperamentos sobre a vala comum.
fissão de urânio enriquecido, era necessária a luz?
césio, plutónio, iodo radioativo. és um herói? um samurai?
alguém diz:
¾no interior das estrelas, a fusão detém seu colapso gravitacional. na crosta terrestre, os homens morreremos com o corpo desorbitado.
escuta, mãe, começaram a mutar as borboletas. seus olhos estão se deformando. herdam malformações em antenas e patas. seus instrumentos de voo tornam-se cada dia mais frágeis.
as reses alimentam-se de pasto envenenado. os cães morrerão de solidão ou de fome.
há alguém escurecendo este perigo.
quando acreditávamos que o terror deveria ser abolido, fomos assaltados pela dúvida. e se o medo fosse um presente da lucidez? um líquido fosforescente para regar as açucenas? flecha ou álcool que instigasse nossas feras?
então cavaríamos com mãos próprias para enterrar nossas córneas. tudo com a gravidade da última nevada.
então irromper na zona proibida por não saber como abandonar um esqueleto. há alguém escurecendo este perigo. levamos à boca trutas de montanha, beringelas, becqueréis de césio radioativo.
a esta hora, mãe, os deslocados estão sofrendo problemas mentais. e em seus pesadelos:
nenhum trem voltará a parar na estação de ōkuma.



