Curadoria e tradução de Gladys Mendía
Marvin S. García Citalán (Quetzaltenango, Guatemala, 1982). Poeta, editor e gestor cultural. É diretor do Festival Internacional de Poesia de Quetzaltenango e da Asociación Metáfora. Publicou os livros: No somos los mismos (Catafixia Editorial), Solamente el cielo (Vueltegato Editores) e El tiempo no se vende (Editorial Casa de Poesía/Editorial Universidad de Costa Rica). Seus textos aparecem em antologias do México, América Central, Colômbia, Cuba, Chile, Espanha, República Dominicana e Guatemala. Participou de diversos festivais e encontros de poesia na América Latina. Escreve colunas de opinião para meios de comunicação de Quetzaltenango e da Guatemala.
[FAZ FRIO]
Faz frio
a cidade desaparece
na névoa
as crianças brincam com o vapor que escapa de suas bocas
e os pássaros caem sobre a relva
seus corpos se tornarão
pequenas pedras
que silenciosas
também falariam
do tempo
e do esquecimento
[HÁ ALGO DEBAIXO DA TERRA]
Há algo debaixo da terra
é um animal que rasteja
e estremece tudo
as montanhas são meninas
que buscam a memória da água
alguém me disse:
“há muitos anos
o vulcão virou fera
de suas mandíbulas brotava o coração ardente da terra
tudo era estrondo e tremores
depois disso
secou
pó
cinza
pedras”
que força imaginar a forma como explode um vulcão
é como ver um avô
exigindo atenção
ou uma mulher tentando
acariciar sua própria sombra
[SONHEI QUE A CIDADE]
Sonhei que a cidade amanhecia luminosa
e a profunda sensação
de abandono desaparecia
sonhei com um homem e uma mulher
de mãos dadas
abri bem os olhos e estava parado
diante da porta de uma casa
que já tinha visto antes
o sol era sufocante
como se o verão tivesse chegado antes do tempo
e então a cidade já não era uma cidade
mas um pássaro preso entre os galhos do passado
isso fez com que meus olhos
escapassem do sonho
acordei
[TENTO RECOLHER TUDO]
Tento recolher tudo o que se acumulou
nos cantos da cidade
ou entre as pedras
que já viram até o cansaço
nossa curta passagem por esta realidade
lembranças
passados
vozes
silêncios
faço isso
com paciência
na noite
busco a luz
a verdade
procuro por
mim
[NÃO OLHES PARA TRÁS]
Não olhes para trás porque te transformarás em sal,
não olhes para o dia em que decidires partir,
o dia em que descobrires que nada daquilo que abandonas te pertence,
não olhes para trás porque nem o amor nem aquilo que não entendes
e buscas desesperadamente está naquela direção.
Faze com que teus olhos vejam apenas o caminho,
parte em silêncio,
deixa a luz apagada,
a porta trancada,
não menciones nenhum reproche,
que teus lábios permaneçam em silêncio,
não digas nada,
afasta-te
e não voltes.
[FALO COM O PASSADO]
Falo com o passado
escuto a voz da montanha
caminho
e encontro a memória das pedras
a cidade é a acumulação
de sonhos e fracassos
saio de mim
desta condição humana irremediável
da embriaguez e do delírio
quero ser um pássaro
fazer-me um com o céu
[EM MIM AS PALAVRAS]
Em mim as palavras
em mim as ruas
em mim a cidade
em mim as pedras
em mim o pó
em mim os homens
em mim as mulheres
em mim a árvore
em mim a milpa
em mim a morte
—coruja que bate asas na noite em mim os sonhos—
em mim a angústia
em
mim
a memória imediata
a memória profunda
a memória íntima
a memória coletiva
a memória dolorosa
a memória oculta
a memória invisível
a memória da terra
a memória da água
a memória do céu
a memória ausente
a memória das pedras
a memória da memória
a memória do sonho
a memória da morte
a memória viva
a
me
mó
ria
[CHEGARÁ O TEMPO]
Chegará o tempo em que a ternura
também habitará
no caos
chegará a palavra que foi dita
e cavalgará pelas ruas
que abandonamos sem oferecer resistência
chegará o medo
e terá a forma de um pássaro
e com o medo virá a morte
e entre suas mãos gélidas
trará um punhado de terra
que guardará dentro de nós
e nesse punhado semearemos
o assombro
e a memória
destes dias estranhamente
belos.


