Curadoria e Tradução de Gladys Mendía
Roberto Echavarren (Uruguai, 1944) é poeta, narrador, ensaísta e tradutor. Dentre seus livros de poemas destacam-se: Centralasia (Prêmio Ministério da Cultura do Uruguai), O expresso entre o sonho e a vigília (Prêmio Fundação Nancy Bacelo) e Ruído de fundo. Performance é um volume misto: antologia de poemas, entrevistas, críticas literárias ao redor de sua obra. Ensaios: O espaço da verdade: Felisberto Hernández, Arte andrógina (Prêmio Ministério da Cultura do Uruguai) Fora do gênero: Criaturas da invenção erótica, Michel Foucault: filosofia política da história, margem de ficção: poéticas da narrativa hispano-americana. Suas novelas: Ave roc, O diabo no cabelo, Eu era uma brasa. As noites russas é uma crônica acerca da vida política e cultural da Rússia durante o século XX. Sua obra Natalia Petrovna foi premiada e publicada pelo Centro da Espanha no Uruguai. É responsável pelas mostras de poesia latino-americana Medusario (1996) e Índios do Espírito (2012). Dirige a editora La Flauta Mágica, especializada em edições críticas bilíngues de poesia em tradução e o resgate de obras poéticas imprescindíveis escritas em espanhol.
A MONTANHA NATIVA
(Fragmentos)
No cinema do universo
essa curiosidade vazia
não pede necessariamente
para se encarnar por completo,
nos deixa esperar
uma dimensão mais vasta,
um estrato transcendental
embora imanente,
que precede tanto o virtual
quanto o atual,
um caos irracional
no fundo de tudo.
Muito entra do invisível,
um arrebatamento de fosfenos
gera um efeito paralelo
que emana um atrativo original,
um efeito ilusório de semelhança,
um reconhecimento sem igual,
tirando-nos do hábito
nos conecta ao movimento,
porque quer ver mais do que antecipa,
aparição ainda não subjetivada,
construída sobre uma disparidade
de pontos de vista coexistentes.
Uma folhinha lanceolada:
seu tamanho faz pensar
em um brinquedo, uma maquete,
um veículo de aprendizado.
O carrinho descascado avança
por uma pista de zinco.
As coisas danificadas,
o modelo infantil das coisas,
uma versão em tamanho reduzido
em colisões incontáveis.
Um campo de imanência
percorrido de bicicleta, quase uma dança,
um corte expressivo superior
de chave vibrante e metálica.
A folhinha lanceolada
sobre a mesa,
sob a luz da lâmpada
é quase dourada.
O infinito dentro do mundo
morre conosco,
um reservatório nos abriga
e nos dissolve,
o mar por trás do nome
em si e não em outra coisa.
E quando se faz silêncio
no ouvido fica o crepitar
rotundo do silêncio.
As aves voam,
algumas penas caem,
servem para os bailes.
A lagarta “gato peludo”
entre as glicínias,
o vento à queima-roupa
sobre a duna,
constante e inconstante
o mar constante.
Uma zona clara,
uma zona escura
no mesmo pacote,
na mesma trama
fechada no crânio
no fim de fevereiro,
as moscas acreditam que estão no verão.
Ao cair as fichas
ouve-se um tinir regular,
a correnteza desprende a cabana,
voam as garças.
Se ajustarmos a lente
veremos os detalhes da margem,
um arco-íris completo,
cada extremo onde se pousa.
Coxas de patchouli
o dançarino passa em equilíbrio
folhas de bambu no peito
na boca peixes de coral.
O caos continua ali,
renasce a cada entardecer.
Quem esteve no campo sabe
como tudo não cessa de crescer.
Uma flauta de madeira
avança a noite de verão,
lucro crescente,
de madeira trabalhada a faca.




Meu nome é Leopoldina Gonçalves Britto, da da Academia Gamense de Letras – AGL- DF, psicóloga, escritora e poetisa , e encantada pela expressão poética desse autor que nos leva a um universo que diverge e ao mesmo tempo nos converge a viagem de nós mesmos, dos fenômenos existenciais . ” A lua que pranteia e clareia a alma com candeias o palco da vida que representa para cada um, sua Lua Cheia (…); Leopoldina Gonçalves da Silva.
Bom! O poema nos faz sonhar, movimenta a imaginação.