Curadoria e Tradução de Gladys Mendía
Tania Ganitsky é uma poeta, editora, tradutora e ensaísta nascida em Bogotá, Colômbia, em 1986. É doutora em Filosofia e Literatura, professora do departamento de Literatura da Pontifícia Universidade Javeriana e coeditora do fanzine La trenza. Publicou cinco coletâneas de poemas, entre elas La suspensión de los objetos flotantes (2021), Rara (2022) e Desastre lento (Himpar Editores, 2023). Em 2022, também publicou El fuego que quería recordar, um ensaio literário sobre a escrita.
[AS VELAS TREMEM]
As velas tremem antes
de se apagarem
como olhos antes de chorar
não há diferença
entre o fogo e a água
em pequenos óvalos
[À NOITE CANTEI]
À noite cantei
uma canção de ninar indígena, doía-me
a mandíbula
porque é preciso mover a boca
de outra forma.
Os sons pré-colombianos
vêm em diferentes tons como as sombras
me doíam os olhos também.
[DOIS PÁSSAROS MORTOS]
Dois pássaros mortos ao pé da cerca.
Arranharam luas com seu voo,
não deram aos frutos tempo de cicatrizar.
Uma formiga explora suas colinas de carniça
e um gafanhoto
toma impulso em uma pena.
[DEVER OS POEMAS]
Dever os poemas não escritos ao tempo
em que não foram escritos
à imaginação que ainda não os imagina
à memória suplantada
pelo esquecimento
ao esquecimento suplantado pela dor, etc.
[DIZEM]
Dizem que a última
chama
se acenderá
no oceano.
No estômago da baleia
que hospeda os mitos esquecidos,
em seu canto,
que conjura o retorno dos deuses.
Mas eu escondi
uns fósforos
para abrigar as chamas
da terra.
[A VOZ É UM LUGAR]
A voz é um lugar
escuro
tomado por animais ferozes
em que ninguém mais acredita.
Para falar
é preciso escapar
do fogo de suas pupilas
e do fio de sua fome.
Para poder dizer
medo ou meu
é preciso imaginá-los brincando.


